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Batéis de Lava

A minha torre de controlo fica do lado dos Mosteiros. A vista é amorosa. Demasiado ventoso, no entanto. Os rebocadores vão na frente, arrastando São Miguel e Santa Maria. Esta manhã, avistei a Terceira e comuniquei com a torre deles. Murmuraram que aquilo era histórico. Li o manifesto de carga, autorizei-o com uma impressão digital e avisei a coitada da Mafalda que ia descansar. Via-se o quebranto na cara dela, naquele sorriso esmorecido, mas o balançar estava a nausear-me. Fui egoísta e recolhi-me aos meus aposentos.

O quarto está cada vez mais nojento, cheio de embalagens de comida e latas vazias de cerveja sintética. Afastei um par de calças e um blusão, para poder esticar as pernas na cama. Dizem que eu devia viver noutro lugar do mundo, mas acho que o melhor está para chegar. Desde aquele dia histórico, em que o primeiro voo de baixo custo pisou solo micaelense, que ando à espera. Já lá vão vinte anos. Sou paciente.

Quando começou a era low-cost, pensaram que o turista de bilhete económico só andava de mochila e de chinelo no dedo. Esqueceram-se de que, quando se poupa na viagem, gasta-se no destino. E quando se pode gastar mais, exige-se mais. Seis anos depois, deu-se o clique. Esta geração começou a mostrar o que valia. Foi quando recebi o telefonema que mudou a minha vida: “Francisco, querem contratar-te para liderar a Operação Batéis de Lava”.

Os especialistas em geologia, vulcanologia, oceanografia, sismologia, e de tudo o que acabava em ia, queriam uma coisa inédita: unir as nove ilhas. Fisicamente. Na altura, gargalhei, mas são eles que agora me pagam. Primeiro, apareceram as lanchas rápidas, táxis marítimos interinsulares com viagens frequentes, incluindo ligações a Lisboa e à Madeira. Depois, queriam pontes, mas eram muito caras. Um tal arquiteto desenhou uma rede tubular subaquática, comboios magnéticos de alta velocidade em túneis submersos, mas foi a loucura que venceu: “vamos partir os alicerces das ilhas e rebocá-las”, disseram-me. Seríamos uma só ilha, um só povo. Seríamos?

Desconfiei de estarem sob o efeito de alucinogénios ou a ler A Jangada de Pedra. O certo é que Saramago tinha antevisto que a Europa se desmantelaria, e a União Europeia acabou por se transformar na União do Norte. Os países do sul, que eles carinhosamente tratavam por PIGS, foram mesmo chafurdar para a pocilga, e o euro para a numismática que os pariu.

“Juntemos as ilhas!”, apregoavam. Na televisão e na hipernet só se falou disso, durante anos. Foram debates mais acesos do que quando a companhia aérea regional também se tornou barata, mesmo para as Américas — aquilo é que foi uma briga de comadres, com os podres todos a brotar!

O Pico era intocável, porque era uma ilha pesada e dava uma boa âncora. A Horta estava montada na Madalena, Velas de São Jorge colada a São Roque do Pico, e a Graciosa encaixada entre o norte do Faial e a Ponta dos Rosais. O Grupo Ocidental já terminava a viagem, com a Vila do Corvo encravada na Ponta Delgada florentina. Estavam a encanar Santa Cruz das Flores pela Ponta dos Capelinhos adentro. Os jorgenses não queriam ficar sem a Fajã de Santo Cristo, por isso, o Monte Brasil ficou ao lado. Comigo nos comandos, o norte de Santa Maria enfileirou-se na baía da Povoação, e as duas ilhas do Grupo Oriental flutuam, agora, de braço dado, com o Ilhéu da Vila e as Formigas a reboque. Estamos a caminho da Terceira. A marina de Ponta Delgada ficará defronte dos Biscoitos e Vila Franca do Campo vai fazer baía com a Praia da Vitória.

Tenho visto muita coisa: a população a aumentar, a escassez da água, os hotéis espaciais, o aumento das temperaturas, a queda dos drones, as migrações para norte, as próteses biónicas, a cura para a doença de Alzheimer, os desportos para a quarta idade e a extinção dos rinocerontes. Diziam que a tecnologia ia ultrapassar todas as barreiras. A hipernet liga os computadores, eletrodomésticos, robôs e candeeiros de mesa. Fez ruir empresas e deu voz aos pacóvios. Só quando todos se fartaram de ler mediocridades nas redes sociais é que se começou a construir um mundo novo.

Lembro-me de sonhar com esse mundo, quando era jovem. Tinha o sangue na guelra e muitas ideias, mas poucos as ouviam, e ainda menos as valorizavam. Era difícil vingar rodeado de fatos cinzentos e gravatas escarlate, mas cada um sabe do que percebe. É preciso trincar-lhes os calcanhares para se meterem no seu lugar. Sim, porque nem todos são filhos ou cunhados de peixe graúdo. É preciso valorizar o saber-fazer, mais do que o politicamente elegante. E há tanta gente que sabe fazer! Eu sei fazer tanta coisa, mas nunca me pareceu que precisassem disso, aqui.

Não se vive só de ideias, mas o amanhã aproxima-se, um dia de cada vez. Além disso, para mudar o futuro de uma sociedade, primeiro temos que imaginá-lo. As coisas mudaram. Admiro as máquinas de lavar vacas, que tocam música clássica e tratam-nas pelo nome, enquanto lhes esfregam o coiro. Aumenta-lhes a produção. Os agroturistas pagam fortunas para lhes tirar o leite — sem quotas —, conduzir tratores, apanhar batata e dormir à lareira. Como é que ninguém se tinha lembrado disso? Valorizamos o que produzimos e o que temos, e o produto daqui é melhor do que o de fora. E o mar é a nossa casa. Sempre foi, mas agora é mais. Tantas milhas de território, que quase perdemos, por causa das gravatas escarlate. As modas são a maricultura e a extração de minerais que curam doenças e valem fortunas. O fundo oceânico é nosso e somos líderes na oceanografia. É muita coisa nova a acontecer.

Convidei a Mafalda para uma ida ao refeitório. Enquanto comíamos uma queijada de maracujá e bebíamos Kima de beterraba, falámos de como seria a vida numa ilha só. Continuavam a ser nove, disse-me ela, mas num território unificado, que juntaria culturas, políticas, recursos e uma educação que abriria as mentes. E também juntaria as vacas. “E as pessoas?”, perguntei-lhe, mas ela não respondeu.

in Açoriano Oriental, 18 de abril de 2015
(edição comemorativa do 180º aniversário)

Degraus de palha

Vejo degraus de palha; dirigem-se para o cerúleo do céu, pintalgado com rasgos de branco. Subo às nuvens e sento-me, olhando de cima o que está por baixo; ao mesmo tempo, sei que não estou acima de rigorosamente nada; mas não estou só, também o sei. Balanço com o vento e deixo-me levar pelo encanto de um canto: alguém canta? É uma melodia que me seduz, mais não seja pela ternura das palavras, proferidas com tão bela harmonia e sentido…. sinto que me convém que o sentido das coisas faça mesmo algum sentido; não existindo sinal dele, perco-me do trilho.

Levanto-me e caminho. Sinto as nuvens acariciarem-me os pés, agora descalços. Qual algodão? É como andar em cima de pura seda, mas em que o corpo não tem peso e o tecido não está a cobrir nada, simplesmente flutua! Alguns passos são mais certeiros que outros, mas tenho a certeza que não caio; é como se uma mão gigante — mas meiga — me estivesse a orientar por baixo de mim.

Sigo em direcção dos fonemas cantados. São lindos, mas não distingo nenhum dialecto; serão sílabas soltas? Vocábulos dispersos, sim. São o que são! Hipnotizado com a doçura dos lábios — que só podem ser femininos! —, e que parecem soltar as cadências propositadamente para mim, avisto movimento. Parece-me subtil, por estar distante. Mas, num relampejar, está ao pé de mim! Já os tinha visto: em sonhos. Um unicórnio de imaculado pêlo liso, branco. Dá mais três galopes, dois trotes e estaqueia ao pé de mim. Os olhos profundos, do tamanho de bolas de golfe, estão sedentos por saber, curiosos por descobrir. A cauda reluz brancura, mas reflecte uma aura violeta que me conquista. Num sinal inconfundível, com o pescoço, convida-me a subir. Subo? No momento em que a palma da minha mão nua acaricia-lhe a nuca, uma sensação de liberdade envolta-me e revolta-me! Ele revolta-se também e dá mais um sinal impaciente de que não há tempo a perder. Aninha-se à minha frente para me deixar subir.

O galope é consistente, mas não fere, não violenta. É harmonioso, afectuoso, permite-me abrir os braços e atender ao brilho da luz do dia; fecho os olhos e permito-me ser banhado pelo calor dos raios do Sol; deixo o vento soalheiro cortar a minha face e volto a ouvir…. a voz! Estou mais perto, sei-o.

Enxergo um altar feito de nenúfares. Não há lagos no céu, mas os nenúfares parecem ondular acima do chão algodoeiro. O unicórnio abranda e deixa-me deslumbrar com o resto. Não posso acreditar: os meus olhos só me podem estar a enganar. Uma sereia?!

Mermaid Mistery, by FairyEssence

O seu corpo refulge e desvenda uma silhueta, perfeita demais para ser verdadeira. O seu ventre orna curvas redondas e completas. Uma obra exímia. E a voz? Quando desço do equídeo singular, cala-se. Deixa de olhar para o infinito acima de nós e desce os olhos celestes até aos meus. Não abro a boca. Simplesmente fico…. e, na mesma doçura, como até agora cantava, ela profere:

— No agreste momento em que despes as caras que já trajaste, ficas só com a tua própria. Deixas de fora preconceitos, pré-conceitos e crenças; a cognição da tua arte expressa-se numa dança de espectros, invisíveis aos mais distraídos — passa os dedos maravilhosos pelos cabelos em tom de mel. Olho-a com serenidade, mas sequioso por mais palavras. Ela sabe disso, e continua: — O teu saber vibra como um todo, espalha-se pelo ar, derrama-se pelo chão. Agarra cada momento desses: muda-o, transforma-o; deixa-o invadir-te e aceita o que te oferece. Rende-te ao universo, permite-te viver, rir, sofrer e chorar. És um ser vivo: por isso, vive!

Abro os lábios e levanto o braço para lhe dirigir uma questão, mas…. os nenúfares escondem-na e levam-na subitamente: para baixo. Umas escadas mostram-se à minha frente, no lugar do altar. Os degraus são a descer, mas não são de palha….

São de nenúfares. Está na hora de voltar.

O relógio bateu as horas

O céu de Londres mostrava o seu lado escuro, como se pincelado a carvão. O alcatrão molhado espelhava o luar tímido e denunciava a chuva que acabara de diluir a metrópole. James Worth arrumava, no bolso das calças de fazenda cerúleas, um estranho envelope dourado.
«Onde se meteu o gajo?», matutou, enquanto subia o fecho do casaco em tons de cinza, rodeando a sua vasta pança.

Um típico Hackney Carriage guinchou os pneus ao descrever a afunilada curva em cotovelo da Great College Street, em direcção à Tufton Street. O simbólico táxi londrino abrandou bruscamente e estacou no lado esquerdo, em frente ao número sete — Faith House: The Society of the Faith —, onde esperava o inglês, tremendo com o frio e bufando vapor de água. A porta traseira abriu-se para a retaguarda do veículo.

— Entra, James! — gemeu uma voz de dentro do habitáculo.
A imagem do interior do carro era penumbra, mas James alisou a barba loira, franziu a testa e esfregou as mãos, aproximando-se.

— Duarte, és tu? Posso entrar? — respondeu.
Ao meter a cabeça dentro do habitáculo, sentiu uma mão poderosa puxar-lhe pelo casaco. O terror invadiu-lhe as narinas: fumo de charuto. Caiu de queixo no assento de trás, sentiu o carro arrancar bruscamente, e o vento a gelar-lhe os pés, ainda de fora da viatura. Uma curva à direita obrigou-o a agarrar-se às pernas do companheiro de assento, para não sair disparado pela porta. O carro endireitou-se, James sentou-se e ouviu a porta fechar-se por si.

— Tens cá um estilo nas tuas aparições, Duarte….! – ironizou James, enquanto desenrugava o casaco, como se nada fosse.
— Meu amigo, apareço sempre como posso, e hoje estamos com pressa.
—You bloody bastard!, estás sempre com pressa! — gesticulou James, indignado.

Um telemóvel vibrou insistentemente no bolso de Duarte. Os seus pequenos olhos castanhos iluminaram-se com um sorriso dirigido a James.
— São eles! — proferiu, com ar sinistro. — Tens a mercadoria contigo?
James anuiu e meteu a mão no bolso. Retirou o misterioso envelope.
— Estou sim? — atendeu Duarte, passando a outra mão pelo cabelo encaracolado em tons de cobre. — Sim, percebo… Okay, assim será!

O telemóvel regressou ao bolso, mas o sorriso de Duarte desvaneceu-se. James aprecebeu-se do olhar fugaz do condutor pelo espelho retrovisor. Não deu importância.
— Aqui tens — falou, enquanto lhe passava o envelope. – Tens noção da importância disto? Fazes ideia de quantas almas esperam por isso?
— Tenho, James…. tenho noção – respondeu Duarte, enquanto levantava o sobrescrito, como se de um troféu se tratasse. — Hahahaha!

James olhou-o com estranheza e repugnou-se com as suas gargalhadas arfantes. Voltou a ajustar o casaco e a endireitar a sua posição de sentado.
— E a minha parte? — murmurou, cruzando os braços. — Quero a minha parte!

Duarte mirou James com um sorriso maquiavélico. Olhou novamente para o que segurava nas mãos. Levantou a cabeça e respirou fundo, enquanto arrumava o invólucro de papel no bolso esquerdo do sobretudo negro.
— A tua parte está aqui, James – anunciou Duarte, enquanto punha a mão destra no bolso contrário.

Retirou do bolso uma Colt Python de calibre .357 magnum e apontou-a à testa de James. O condutor olhou seriamente pelo retrovisor e acelerou ligeiramente.

— O relógio bateu as horas, James Worth! – armou o revólver.

James arregalou os olhos….

Carta do meu brinquedo

Quanto tempo, quantas horas passámos juntos? Quantas vezes me fizeste pulsar com a tua energia de pupilo, de menino? Aguardava, no meio do chão atapetado do teu quarto semi-arrumado, ansioso pela tua chegada; ou, então, na prateleira do escaparate de pinho, entre livros e outros idênticos a mim. Não me importava quando não me escolhias: simplesmente observava, simplesmente aguardava. Por ti.

A chuva molhava os vidros baços, escondidos atrás das cortinas tom de mel, e eu esperava. Os sons das brigas e das risadas, ouvidas nos outros quartos, tresandavam a inveja minha, sempre quieto no meu lugar: simplesmente esperava. Por ti.

Por muito tempo vi-te entrar e sair dali, umas vezes risonho, outras tristonho, muitas vezes com um sonho, quase sempre desenfadonho! Quando olhavas para mim, eu palpitava; Quando não me vias, eu arfava; Quando querias algo que ali não estava, estava eu. Simplesmente à espera. De ti.

Mas sim, dias haviam que não te menosprezavas e carregavas nos meus botões como quem procura um significado, revoluteavas as minhas rodas como quem sabe para onde vai, como quem tem destino traçado. E o mais giro? O mais giro era o som que os teus lábios emitiam. O simular de um motor em marcha, próprio de um rapaz da tua idade. Um “brrrunhido” em que o ar passava-te por entre os dentes, que faziam tremer os teus lábios numa sinfonia estridente, com pedaços de cuspo a respingar-me a carroçaria.

Por agora já te deves recordar. Por agora já deves sentir que te lembras desses tempos. Dos tempos em que nada te metia medo, nem mesmo o escuro do quarto, nem sequer as sombras na tua mente. Éramos vivos, vivaços! Mas não te esqueças que, o que fomos, ainda somos. Não te deixes levar pelas cabeçadas que deste e pelos riscos que tem a minha chaparia. Posso ter a suspensão estragada, os pneus maltratados e os vidros quebrados, mas ainda estou aqui.

Onde? Que bem que perguntas. Estou na gaveta do teu mesmo quarto, na mesma onde me deixaste; só que agora na garagem, no meio da outra tralha toda. Mas deixa a tralha. Vem buscar-me. Só a mim. Vamos ser outra vez.

Nunca partiste um vaso

Silêncio. É o que ouves à noite. Quando te deitas, e aprecias esse mundo que criaste, é silêncio que ouves. O tilintar dos copos do jantar de família é o único som que te irrompe os pensamentos, mas aparece ermo, singular. Como tu!

Começaste por querer ser um exemplar académico. Aderiste à falsa religião, com unhas e dentes rezaste as orações perfeitas, proferiste os dizeres que eras suposto. Depois, um exímio e fiel namorador. Um é um, dois são dois, três são…. demais! Demasiado para ti, demasiado sulco para experimentar. Não seria elegante da parte da perfeição. Aperfeiçoaste e achaste o melhor que havia na profissão. Encontraste quem te fizesse a perna e quem te desse o braço a torcer. Bajulaste quem achaste por bem e beijaste quem verdadeiro pensavas ser. Lambeste as botas que te espezinhavam, cheiraste as meias de quem não teve meias medidas. Mantiveste a família, nunca choraste em desespero, apenas riste, e riste, e…. sorriste! Esse sorriso a espernear nesse queixo torto e desformado de tanto rir, de tanto esboçar os sorrisos da tua vida de porcelana!

“Síntese de um vaso quebrado” Sagantis Karavousis

Nunca partiste um vaso, não tropeçaste nos tapetes, não levantaste a voz, não iraste, não te contrafizeste, não gaguejaste, nem sequer trincaste os dedos numa porta! Não perdeste uma unha pela raiva, não bateste com a porta, não mostraste despeito, mas nem respeito…. por ti próprio!

Esperaste sempre pelo autocarro atrasado, ouviste sempre a mulher tagarela, não reclamaste a conta exagerada, deste sempre festinhas ao gatinho e emudeceste quando foste insultado! Quem és tu, afinal? O que fazes aqui?

Estás certo de tudo o que fizeste? Pelo menos mostras fronha de quem tudo sabe, de quem mestria. Mas és uma merda! És um saco de despejo, um falso, um cínico actor da vida! Sim, um mero actor! Um actor secundário, um figurante! Tens um papel na vida…. mas daquele que vem em rolos, que só serve p’ra limpar o que tu és!

Que queres que te diga? Que posso eu fazer ou dizer para saberes o que penso? Mas eu digo-te. Fizeste mil-e-uma coisa, seguiste todas as regras do livro, cantaste sem desafinar e nunca tropeçaste, mas não fizeste o que estamos aqui para fazer.

Não viveste.

As férias perfeitas

Ameno. O ar entorna um calor seco e afável. São sete da manhã. Não me lembro de acordar a esta hora, sem relógio, desde as férias grandes dos meus tempos de escola primária. Naquele tempo, acordava com vontade de sair para a rua e galhofar. Hoje, acordo com capricho de brincar — outra vez! Estou vivo!

As minhas pálpebras sobem como um pano de teatro, mas o palco são os meus olhos cansados. Cansados do ofício e da correria de todos os dias — iguais uns aos outros. Ontem, por esta hora, entrava para o metro. Ensonado. Mas empolgado por ter a mala feita, excitado por ser um último dia de penitência, antes de poder…. voar!

Olho em redor. As cortinas de um avermelhado transparente dançam, quase paradas, ao som de uma brisa musical muito leve. O janelão entreaberto desvenda dois azuis desiguais: o do céu desnudado, e o do mar pacífico. «Estou no paraíso!», penso. Esfrego a cara com a palma das mãos e levo-as ao cabelo desarranjado. Num movimento sereno, sento-me nos leves lençóis brancos e espreguiço os braços para o tecto de faia, atravessado por traves de carvalho e perfurado por candeeiros de vimes.

Abandono a cama redonda, sentindo a tapeçaria aveludada e em tons de barro nos meus pés desprotegidos. Chego perto da vidraça e simplesmente…. sorrio! Um bungalow suspenso sobre águas verde-esmeralda não deixa de ser uma coisa boa. «Estou bem aqui!», mas…. «Porra!», rosno para mim próprio. «Onde meti o raio do telemóvel? Já devo ter emails e chamadas!» Mas logo pondero: «Fosga-se!, estou de férias…!»

Torço a minha atenção para a sala de banho. Preciso lá ir. Refrescar-me. Enquanto a água morna me orvalha a face entorpecida, aprecio o jacuzzi pelo espelho iluminado. Imaculadamente voltado para o horizonte, para o lado onde a nossa estrela se vai pôr, mais logo. A toalha é perfumada. «Hmmm, e fofa…!»

Cheira-me a algo. «Café e torradas?» Deslizo os calcanhares para dentro das babuchas do rato Mickey, atravesso a confortável sala ornada com sofás macios — e sem televisão —, lanço um olhar fugaz aos coloridos panfletos de mergulho e passeios de Jet Ski em cima da banca e chego à cozinha. Um pequeno-almoço de regalo. E, a prepará-lo, a minha alma gémea.
— Bom dia, querido! — escutei dos seus doces lábios sorridentes.

Sorrio. As férias perfeitas não são “onde”, mas “com quem”.

Caro patrono

Peço perdão. Peço perdão por lhe redigir estas linhas. Escrevo-as para participar que hoje não irei comparecer. Hoje, não estarei ao seu dispor; ao contrário dos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, em que um “não” nunca foi proferido pelos meus beiços, a não ser para dizer que “não há problema”. Nem mesmo em dias santos. Mas não sou santo, sou humano. Por isso, peço perdão.

Estou doente. Mas não de uma patologia qualquer. Não tenho gripes, febres, tosses, nem sequer constipações. Não carrego depressões, esgotamentos, nem tampouco abatimentos. Não me dói peva!, excepto o entusiasmo. Por isso, estou doente. Hoje, estou doente. Mas ontem também estava! E, antes disso, tal e qual. Sabe?, esta doença não se cura: mata-se; este mal não se combate: cavalga-se; esta enfermidade não se trata: supera-se! E esta é a minha vontade: dominá-la!

Estou doente do perdão. Do perdão que lhe falta, das qualidades que não me exalta, dos esforços que não reconhece. Estou mesmo doente! Falta-me chão, faltam-me os pilares do amparo. E as paredes do escritório apertaram. Agora, são muros que me encolhem. E cérceas que nos afastam. Esgotei os argumentos, as paciências, as tolerâncias, as pachorras e — mais que tudo — gastei todos os “sim, senhor” de que era capaz.

Peço perdão. Peço que me absolva desta sinceridade, que desonere a indisposição, que desculpe esta minha perturbação, mas tenho que ser leal. Inteiramente leal. Mas não às suas causas. Não às suas desinteligências e dualidades, nem aos desvaneios das suas nuances ambíguas. Preciso de lealdade para comigo mesmo. Necessito voltar a sentir que sou dono do meu destino, do que faço, do que digo e do que penso! Careço de simpatia, empatia, sintonia, harmonia, mas não só neste dia. Exigo de mim tudo isso, a cada dia!

Peço perdão. Perdão por perdoá-lo sem que o mereça!