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Carta do meu brinquedo

Quanto tempo, quantas horas passámos juntos? Quantas vezes me fizeste pulsar com a tua energia de pupilo, de menino? Aguardava, no meio do chão atapetado do teu quarto semi-arrumado, ansioso pela tua chegada; ou, então, na prateleira do escaparate de pinho, entre livros e outros idênticos a mim. Não me importava quando não me escolhias: simplesmente observava, simplesmente aguardava. Por ti.

A chuva molhava os vidros baços, escondidos atrás das cortinas tom de mel, e eu esperava. Os sons das brigas e das risadas, ouvidas nos outros quartos, tresandavam a inveja minha, sempre quieto no meu lugar: simplesmente esperava. Por ti.

Por muito tempo vi-te entrar e sair dali, umas vezes risonho, outras tristonho, muitas vezes com um sonho, quase sempre desenfadonho! Quando olhavas para mim, eu palpitava; Quando não me vias, eu arfava; Quando querias algo que ali não estava, estava eu. Simplesmente à espera. De ti.

Mas sim, dias haviam que não te menosprezavas e carregavas nos meus botões como quem procura um significado, revoluteavas as minhas rodas como quem sabe para onde vai, como quem tem destino traçado. E o mais giro? O mais giro era o som que os teus lábios emitiam. O simular de um motor em marcha, próprio de um rapaz da tua idade. Um “brrrunhido” em que o ar passava-te por entre os dentes, que faziam tremer os teus lábios numa sinfonia estridente, com pedaços de cuspo a respingar-me a carroçaria.

Por agora já te deves recordar. Por agora já deves sentir que te lembras desses tempos. Dos tempos em que nada te metia medo, nem mesmo o escuro do quarto, nem sequer as sombras na tua mente. Éramos vivos, vivaços! Mas não te esqueças que, o que fomos, ainda somos. Não te deixes levar pelas cabeçadas que deste e pelos riscos que tem a minha chaparia. Posso ter a suspensão estragada, os pneus maltratados e os vidros quebrados, mas ainda estou aqui.

Onde? Que bem que perguntas. Estou na gaveta do teu mesmo quarto, na mesma onde me deixaste; só que agora na garagem, no meio da outra tralha toda. Mas deixa a tralha. Vem buscar-me. Só a mim. Vamos ser outra vez.

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Carta ao meu jovem de 20 anos

Meu querido,

Escrevo-te de uma distância desmedida. De tão longe que uma década não bastaria para chegares aqui, por mais despachados que fossem os teus calcanhares, por mais ligeiro que fosse o teu cavalo, por mais ágil que fosse a tua nave. Por enquanto, só me consegues alcançar com o teu pensamento, com os teus sonhos — lindos que são, e eu sei….! Sim, eu sei que sonhas comigo, imaginas como serão as coisas…. aqui.

Mas teres que aguardar, até a mim apareceres, seria doloroso demais para ti…. e para mim, também. E o meu ser não almeja que passes por uma delonga; viver não é isso. Viver é estar presente em cada dia, intensamente! É estar ciente de onde estamos e deixar todos os sentidos bem despertos! Não interessa o destino, o caminho é muito mais importante. Por isso, não deixes de saborear cada momento, cada instante, cada beijo! Ama e sente o que tens à tua volta, honra as pessoas, adora quem te merece! E sê forte…. tu és forte!

E quem sou eu? — perguntas tu. Não me conheces. De forma alguma poderias reconhecer-me, hoje. Somos tão diferentes, agora. Mas tenho-te comigo, trago-te sempre dentro de mim. E, cada vez mais, admiro a tua energia, o teu pudor, a tua coragem, a determinação, a paixão, a entrega, o sorriso…. Aiii, o sorriso…. Ele é que nos define aos dois, sabias? Ele carregou dor, mas não a esboça; passou por mágoa, mas não a mostra; viveu batalhas, mas brilha paz; mordeu o escuro, mas desfecha luz!!! Pois, mas agora devo mesmo confessar: quem te escreve é um amigo. Um daqueles que só existem aí dentro, dentro desse coração. Sim, esse cérebro que usas para sentir, essa máquina de emoções, essa bomba que te enche de amor!

Mas descansa, relaxa. Um dia vais mesmo conhecer-me. Mais que isso: vais transformar-te; vais ser o que eu sou: um homem mais sábio — porém, sempre um aprendiz, sempre modesto! Mas tens que saber uma coisa, tens mesmo que saber uma coisa…. Em certos ensejos, em certas tormentas, o teu corpo não vai responder, a tua mente vai enganar-te, trair-te, iludir-te!!! Não tenhas medo. Respira, olha o firmamento e saberás que estás no trilho certo. E porquê? — queres tu saber. Pois, eu digo-te: porque em nenhum momento estarás só.

Dois abraços,
d’um amigo.

P.S.: aproveita bem o tempo com os avós.

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