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As férias perfeitas

Ameno. O ar entorna um calor seco e afável. São sete da manhã. Não me lembro de acordar a esta hora, sem relógio, desde as férias grandes dos meus tempos de escola primária. Naquele tempo, acordava com vontade de sair para a rua e galhofar. Hoje, acordo com capricho de brincar — outra vez! Estou vivo!

As minhas pálpebras sobem como um pano de teatro, mas o palco são os meus olhos cansados. Cansados do ofício e da correria de todos os dias — iguais uns aos outros. Ontem, por esta hora, entrava para o metro. Ensonado. Mas empolgado por ter a mala feita, excitado por ser um último dia de penitência, antes de poder…. voar!

Olho em redor. As cortinas de um avermelhado transparente dançam, quase paradas, ao som de uma brisa musical muito leve. O janelão entreaberto desvenda dois azuis desiguais: o do céu desnudado, e o do mar pacífico. «Estou no paraíso!», penso. Esfrego a cara com a palma das mãos e levo-as ao cabelo desarranjado. Num movimento sereno, sento-me nos leves lençóis brancos e espreguiço os braços para o tecto de faia, atravessado por traves de carvalho e perfurado por candeeiros de vimes.

Abandono a cama redonda, sentindo a tapeçaria aveludada e em tons de barro nos meus pés desprotegidos. Chego perto da vidraça e simplesmente…. sorrio! Um bungalow suspenso sobre águas verde-esmeralda não deixa de ser uma coisa boa. «Estou bem aqui!», mas…. «Porra!», rosno para mim próprio. «Onde meti o raio do telemóvel? Já devo ter emails e chamadas!» Mas logo pondero: «Fosga-se!, estou de férias…!»

Torço a minha atenção para a sala de banho. Preciso lá ir. Refrescar-me. Enquanto a água morna me orvalha a face entorpecida, aprecio o jacuzzi pelo espelho iluminado. Imaculadamente voltado para o horizonte, para o lado onde a nossa estrela se vai pôr, mais logo. A toalha é perfumada. «Hmmm, e fofa…!»

Cheira-me a algo. «Café e torradas?» Deslizo os calcanhares para dentro das babuchas do rato Mickey, atravesso a confortável sala ornada com sofás macios — e sem televisão —, lanço um olhar fugaz aos coloridos panfletos de mergulho e passeios de Jet Ski em cima da banca e chego à cozinha. Um pequeno-almoço de regalo. E, a prepará-lo, a minha alma gémea.
— Bom dia, querido! — escutei dos seus doces lábios sorridentes.

Sorrio. As férias perfeitas não são “onde”, mas “com quem”.

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