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Bom Tempo no Canal em Londres

Setembro de 2012: a “Conspiração da Energia” acercou-se das terras de Sua Majestade, e o canal do Rio Tamisa deixou-se sulcar pelo bom tempo. Romperam-se prenoções, quebraram-se fronteiras, traçaram-se novos objectivos e (re)definiram-se metas – daquelas realistas. Impulsionou-se o gosto pela literatura do Atlântico Norte junto das comunidades lusitanas, naquele que foi o primeiro esforço fora do arquipélago na promoção desta obra de ficção.

Sendo o destino a metrópole britânica com quase catorze milhões de almas – mais do que toda a multidão que o país à beira-mar plantado alberga –, as expectativas foram propositadamente alinhadas com o quase nulo. Numa nação em que a cultura é uma prioridade, em que os livros não estão sequer sujeitos ao guilhotinamento de certas taxas – cujo único valor que acrescentam é mesmo o valor acrescentado –, deslocar debaixo do braço meia dúzia de exemplares de uma obra literária portuguesa e fazê-la chegar a pessoas de boas causas pode até parecer tarefa simples, mas acarreta também dissabores e barreiras. Num país em que um volume custa quase metade do que nos é habitual, e em que se cruzam criaturas a ler Erika L. James nos autocarros e J.K. Rowling no tube, passar-lhes uma publicação localmente galardoada e traduzir-lhes a sinopse em dois minutos, podia perfeitamente ser um desastre com hora marcada. Podia até vir a ser anunciado na Torre do Relógio – a partir de agora, Elizabeth Tower –, e badalado pelo sino de treze toneladas de alcunha Big Ben.

Mas não foi assim. Todas as barreiras foram transpostas. Como sempre, o que interessa não são as instituições, as empresas, as lojas, as bibliotecas ou mesmo as nações. São as pessoas.

Mesmo sendo apenas mais um, num mundo de mais de oitenta mil visitantes que passam diariamente por Londres – fazendo da capital do Reino Unido a mais visitada do planeta, com uma população flutuante de trinta milhões por ano –, tudo se proporcionou. Talvez os exemplares simbolicamente deixados nas bibliotecas, nas livrarias e com certas individualidades não signifiquem mais que isso mesmo, ou talvez até venham a provar o contrário, quem sabe? Mas, a imprensa lusa acompanhou, esteve atenta, fez perguntas, aconselhou, deu destaque, reportou…. Tudo apontou na direcção certa. De um ilhéu para uma ilha maior, passou uma energia diferente, renovada e confiante. Com agrado, as vozes portuguesas fizeram-se ouvir e, com alento, a obra de ficção insular passou a um outro patamar.

Pois bem. Então, a mais bela notícia, e talvez a melhor singularidade, esteja ligada a mais uma barreira que vai agora ruir, entre tantas outras que se têm desintegrado nos últimos tempos – por vezes indetectáveis aos olhos do menos atento. Se os ventos londrinos soprarem na direcção certa, se o bom tempo deixar enxergar algo mais avante, teremos o início de mais um desafio. Um propósito que não teria chegado a ver a luz do dia quando as primeiras palavras do “Bom Tempo no Canal” estavam a ser passadas para o papel: a sua tradução. Sim, o manuscrito na língua de Camões vai ser traduzido para a de Shakespeare.

E ao mesmo tempo que por aqui se esmiúça toda a arqueologia do segundo livro – que fará a sequela deste primeiro –, ver o bom tempo transformar-se em algo tangível ao globo inteiro, assistir à passagem desta ficção açórica para o inglês nos próximos meses, poderá ser o começo de algo novo, verdadeiramente engrandecedor. Algo que só pode ser reconhecido com um sincero OBRIGADO aos leitores, retribuindo com um verdadeiro abraço de agradecimento pelo carinho que tem chegado ao lado de cá.

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O relógio bateu as horas

O céu de Londres mostrava o seu lado escuro, como se pincelado a carvão. O alcatrão molhado espelhava o luar tímido e denunciava a chuva que acabara de diluir a metrópole. James Worth arrumava, no bolso das calças de fazenda cerúleas, um estranho envelope dourado.
«Onde se meteu o gajo?», matutou, enquanto subia o fecho do casaco em tons de cinza, rodeando a sua vasta pança.

Um típico Hackney Carriage guinchou os pneus ao descrever a afunilada curva em cotovelo da Great College Street, em direcção à Tufton Street. O simbólico táxi londrino abrandou bruscamente e estacou no lado esquerdo, em frente ao número sete — Faith House: The Society of the Faith —, onde esperava o inglês, tremendo com o frio e bufando vapor de água. A porta traseira abriu-se para a retaguarda do veículo.

— Entra, James! — gemeu uma voz de dentro do habitáculo.
A imagem do interior do carro era penumbra, mas James alisou a barba loira, franziu a testa e esfregou as mãos, aproximando-se.

— Duarte, és tu? Posso entrar? — respondeu.
Ao meter a cabeça dentro do habitáculo, sentiu uma mão poderosa puxar-lhe pelo casaco. O terror invadiu-lhe as narinas: fumo de charuto. Caiu de queixo no assento de trás, sentiu o carro arrancar bruscamente, e o vento a gelar-lhe os pés, ainda de fora da viatura. Uma curva à direita obrigou-o a agarrar-se às pernas do companheiro de assento, para não sair disparado pela porta. O carro endireitou-se, James sentou-se e ouviu a porta fechar-se por si.

— Tens cá um estilo nas tuas aparições, Duarte….! – ironizou James, enquanto desenrugava o casaco, como se nada fosse.
— Meu amigo, apareço sempre como posso, e hoje estamos com pressa.
—You bloody bastard!, estás sempre com pressa! — gesticulou James, indignado.

Um telemóvel vibrou insistentemente no bolso de Duarte. Os seus pequenos olhos castanhos iluminaram-se com um sorriso dirigido a James.
— São eles! — proferiu, com ar sinistro. — Tens a mercadoria contigo?
James anuiu e meteu a mão no bolso. Retirou o misterioso envelope.
— Estou sim? — atendeu Duarte, passando a outra mão pelo cabelo encaracolado em tons de cobre. — Sim, percebo… Okay, assim será!

O telemóvel regressou ao bolso, mas o sorriso de Duarte desvaneceu-se. James aprecebeu-se do olhar fugaz do condutor pelo espelho retrovisor. Não deu importância.
— Aqui tens — falou, enquanto lhe passava o envelope. – Tens noção da importância disto? Fazes ideia de quantas almas esperam por isso?
— Tenho, James…. tenho noção – respondeu Duarte, enquanto levantava o sobrescrito, como se de um troféu se tratasse. — Hahahaha!

James olhou-o com estranheza e repugnou-se com as suas gargalhadas arfantes. Voltou a ajustar o casaco e a endireitar a sua posição de sentado.
— E a minha parte? — murmurou, cruzando os braços. — Quero a minha parte!

Duarte mirou James com um sorriso maquiavélico. Olhou novamente para o que segurava nas mãos. Levantou a cabeça e respirou fundo, enquanto arrumava o invólucro de papel no bolso esquerdo do sobretudo negro.
— A tua parte está aqui, James – anunciou Duarte, enquanto punha a mão destra no bolso contrário.

Retirou do bolso uma Colt Python de calibre .357 magnum e apontou-a à testa de James. O condutor olhou seriamente pelo retrovisor e acelerou ligeiramente.

— O relógio bateu as horas, James Worth! – armou o revólver.

James arregalou os olhos….

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