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O relógio bateu as horas

O céu de Londres mostrava o seu lado escuro, como se pincelado a carvão. O alcatrão molhado espelhava o luar tímido e denunciava a chuva que acabara de diluir a metrópole. James Worth arrumava, no bolso das calças de fazenda cerúleas, um estranho envelope dourado.
«Onde se meteu o gajo?», matutou, enquanto subia o fecho do casaco em tons de cinza, rodeando a sua vasta pança.

Um típico Hackney Carriage guinchou os pneus ao descrever a afunilada curva em cotovelo da Great College Street, em direcção à Tufton Street. O simbólico táxi londrino abrandou bruscamente e estacou no lado esquerdo, em frente ao número sete — Faith House: The Society of the Faith —, onde esperava o inglês, tremendo com o frio e bufando vapor de água. A porta traseira abriu-se para a retaguarda do veículo.

— Entra, James! — gemeu uma voz de dentro do habitáculo.
A imagem do interior do carro era penumbra, mas James alisou a barba loira, franziu a testa e esfregou as mãos, aproximando-se.

— Duarte, és tu? Posso entrar? — respondeu.
Ao meter a cabeça dentro do habitáculo, sentiu uma mão poderosa puxar-lhe pelo casaco. O terror invadiu-lhe as narinas: fumo de charuto. Caiu de queixo no assento de trás, sentiu o carro arrancar bruscamente, e o vento a gelar-lhe os pés, ainda de fora da viatura. Uma curva à direita obrigou-o a agarrar-se às pernas do companheiro de assento, para não sair disparado pela porta. O carro endireitou-se, James sentou-se e ouviu a porta fechar-se por si.

— Tens cá um estilo nas tuas aparições, Duarte….! – ironizou James, enquanto desenrugava o casaco, como se nada fosse.
— Meu amigo, apareço sempre como posso, e hoje estamos com pressa.
—You bloody bastard!, estás sempre com pressa! — gesticulou James, indignado.

Um telemóvel vibrou insistentemente no bolso de Duarte. Os seus pequenos olhos castanhos iluminaram-se com um sorriso dirigido a James.
— São eles! — proferiu, com ar sinistro. — Tens a mercadoria contigo?
James anuiu e meteu a mão no bolso. Retirou o misterioso envelope.
— Estou sim? — atendeu Duarte, passando a outra mão pelo cabelo encaracolado em tons de cobre. — Sim, percebo… Okay, assim será!

O telemóvel regressou ao bolso, mas o sorriso de Duarte desvaneceu-se. James aprecebeu-se do olhar fugaz do condutor pelo espelho retrovisor. Não deu importância.
— Aqui tens — falou, enquanto lhe passava o envelope. – Tens noção da importância disto? Fazes ideia de quantas almas esperam por isso?
— Tenho, James…. tenho noção – respondeu Duarte, enquanto levantava o sobrescrito, como se de um troféu se tratasse. — Hahahaha!

James olhou-o com estranheza e repugnou-se com as suas gargalhadas arfantes. Voltou a ajustar o casaco e a endireitar a sua posição de sentado.
— E a minha parte? — murmurou, cruzando os braços. — Quero a minha parte!

Duarte mirou James com um sorriso maquiavélico. Olhou novamente para o que segurava nas mãos. Levantou a cabeça e respirou fundo, enquanto arrumava o invólucro de papel no bolso esquerdo do sobretudo negro.
— A tua parte está aqui, James – anunciou Duarte, enquanto punha a mão destra no bolso contrário.

Retirou do bolso uma Colt Python de calibre .357 magnum e apontou-a à testa de James. O condutor olhou seriamente pelo retrovisor e acelerou ligeiramente.

— O relógio bateu as horas, James Worth! – armou o revólver.

James arregalou os olhos….

Carta do meu brinquedo

Quanto tempo, quantas horas passámos juntos? Quantas vezes me fizeste pulsar com a tua energia de pupilo, de menino? Aguardava, no meio do chão atapetado do teu quarto semi-arrumado, ansioso pela tua chegada; ou, então, na prateleira do escaparate de pinho, entre livros e outros idênticos a mim. Não me importava quando não me escolhias: simplesmente observava, simplesmente aguardava. Por ti.

A chuva molhava os vidros baços, escondidos atrás das cortinas tom de mel, e eu esperava. Os sons das brigas e das risadas, ouvidas nos outros quartos, tresandavam a inveja minha, sempre quieto no meu lugar: simplesmente esperava. Por ti.

Por muito tempo vi-te entrar e sair dali, umas vezes risonho, outras tristonho, muitas vezes com um sonho, quase sempre desenfadonho! Quando olhavas para mim, eu palpitava; Quando não me vias, eu arfava; Quando querias algo que ali não estava, estava eu. Simplesmente à espera. De ti.

Mas sim, dias haviam que não te menosprezavas e carregavas nos meus botões como quem procura um significado, revoluteavas as minhas rodas como quem sabe para onde vai, como quem tem destino traçado. E o mais giro? O mais giro era o som que os teus lábios emitiam. O simular de um motor em marcha, próprio de um rapaz da tua idade. Um “brrrunhido” em que o ar passava-te por entre os dentes, que faziam tremer os teus lábios numa sinfonia estridente, com pedaços de cuspo a respingar-me a carroçaria.

Por agora já te deves recordar. Por agora já deves sentir que te lembras desses tempos. Dos tempos em que nada te metia medo, nem mesmo o escuro do quarto, nem sequer as sombras na tua mente. Éramos vivos, vivaços! Mas não te esqueças que, o que fomos, ainda somos. Não te deixes levar pelas cabeçadas que deste e pelos riscos que tem a minha chaparia. Posso ter a suspensão estragada, os pneus maltratados e os vidros quebrados, mas ainda estou aqui.

Onde? Que bem que perguntas. Estou na gaveta do teu mesmo quarto, na mesma onde me deixaste; só que agora na garagem, no meio da outra tralha toda. Mas deixa a tralha. Vem buscar-me. Só a mim. Vamos ser outra vez.

Nunca partiste um vaso

Silêncio. É o que ouves à noite. Quando te deitas, e aprecias esse mundo que criaste, é silêncio que ouves. O tilintar dos copos do jantar de família é o único som que te irrompe os pensamentos, mas aparece ermo, singular. Como tu!

Começaste por querer ser um exemplar académico. Aderiste à falsa religião, com unhas e dentes rezaste as orações perfeitas, proferiste os dizeres que eras suposto. Depois, um exímio e fiel namorador. Um é um, dois são dois, três são…. demais! Demasiado para ti, demasiado sulco para experimentar. Não seria elegante da parte da perfeição. Aperfeiçoaste e achaste o melhor que havia na profissão. Encontraste quem te fizesse a perna e quem te desse o braço a torcer. Bajulaste quem achaste por bem e beijaste quem verdadeiro pensavas ser. Lambeste as botas que te espezinhavam, cheiraste as meias de quem não teve meias medidas. Mantiveste a família, nunca choraste em desespero, apenas riste, e riste, e…. sorriste! Esse sorriso a espernear nesse queixo torto e desformado de tanto rir, de tanto esboçar os sorrisos da tua vida de porcelana!

“Síntese de um vaso quebrado” Sagantis Karavousis

Nunca partiste um vaso, não tropeçaste nos tapetes, não levantaste a voz, não iraste, não te contrafizeste, não gaguejaste, nem sequer trincaste os dedos numa porta! Não perdeste uma unha pela raiva, não bateste com a porta, não mostraste despeito, mas nem respeito…. por ti próprio!

Esperaste sempre pelo autocarro atrasado, ouviste sempre a mulher tagarela, não reclamaste a conta exagerada, deste sempre festinhas ao gatinho e emudeceste quando foste insultado! Quem és tu, afinal? O que fazes aqui?

Estás certo de tudo o que fizeste? Pelo menos mostras fronha de quem tudo sabe, de quem mestria. Mas és uma merda! És um saco de despejo, um falso, um cínico actor da vida! Sim, um mero actor! Um actor secundário, um figurante! Tens um papel na vida…. mas daquele que vem em rolos, que só serve p’ra limpar o que tu és!

Que queres que te diga? Que posso eu fazer ou dizer para saberes o que penso? Mas eu digo-te. Fizeste mil-e-uma coisa, seguiste todas as regras do livro, cantaste sem desafinar e nunca tropeçaste, mas não fizeste o que estamos aqui para fazer.

Não viveste.

As férias perfeitas

Ameno. O ar entorna um calor seco e afável. São sete da manhã. Não me lembro de acordar a esta hora, sem relógio, desde as férias grandes dos meus tempos de escola primária. Naquele tempo, acordava com vontade de sair para a rua e galhofar. Hoje, acordo com capricho de brincar — outra vez! Estou vivo!

As minhas pálpebras sobem como um pano de teatro, mas o palco são os meus olhos cansados. Cansados do ofício e da correria de todos os dias — iguais uns aos outros. Ontem, por esta hora, entrava para o metro. Ensonado. Mas empolgado por ter a mala feita, excitado por ser um último dia de penitência, antes de poder…. voar!

Olho em redor. As cortinas de um avermelhado transparente dançam, quase paradas, ao som de uma brisa musical muito leve. O janelão entreaberto desvenda dois azuis desiguais: o do céu desnudado, e o do mar pacífico. «Estou no paraíso!», penso. Esfrego a cara com a palma das mãos e levo-as ao cabelo desarranjado. Num movimento sereno, sento-me nos leves lençóis brancos e espreguiço os braços para o tecto de faia, atravessado por traves de carvalho e perfurado por candeeiros de vimes.

Abandono a cama redonda, sentindo a tapeçaria aveludada e em tons de barro nos meus pés desprotegidos. Chego perto da vidraça e simplesmente…. sorrio! Um bungalow suspenso sobre águas verde-esmeralda não deixa de ser uma coisa boa. «Estou bem aqui!», mas…. «Porra!», rosno para mim próprio. «Onde meti o raio do telemóvel? Já devo ter emails e chamadas!» Mas logo pondero: «Fosga-se!, estou de férias…!»

Torço a minha atenção para a sala de banho. Preciso lá ir. Refrescar-me. Enquanto a água morna me orvalha a face entorpecida, aprecio o jacuzzi pelo espelho iluminado. Imaculadamente voltado para o horizonte, para o lado onde a nossa estrela se vai pôr, mais logo. A toalha é perfumada. «Hmmm, e fofa…!»

Cheira-me a algo. «Café e torradas?» Deslizo os calcanhares para dentro das babuchas do rato Mickey, atravesso a confortável sala ornada com sofás macios — e sem televisão —, lanço um olhar fugaz aos coloridos panfletos de mergulho e passeios de Jet Ski em cima da banca e chego à cozinha. Um pequeno-almoço de regalo. E, a prepará-lo, a minha alma gémea.
— Bom dia, querido! — escutei dos seus doces lábios sorridentes.

Sorrio. As férias perfeitas não são “onde”, mas “com quem”.

Caro patrono

Peço perdão. Peço perdão por lhe redigir estas linhas. Escrevo-as para participar que hoje não irei comparecer. Hoje, não estarei ao seu dispor; ao contrário dos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, em que um “não” nunca foi proferido pelos meus beiços, a não ser para dizer que “não há problema”. Nem mesmo em dias santos. Mas não sou santo, sou humano. Por isso, peço perdão.

Estou doente. Mas não de uma patologia qualquer. Não tenho gripes, febres, tosses, nem sequer constipações. Não carrego depressões, esgotamentos, nem tampouco abatimentos. Não me dói peva!, excepto o entusiasmo. Por isso, estou doente. Hoje, estou doente. Mas ontem também estava! E, antes disso, tal e qual. Sabe?, esta doença não se cura: mata-se; este mal não se combate: cavalga-se; esta enfermidade não se trata: supera-se! E esta é a minha vontade: dominá-la!

Estou doente do perdão. Do perdão que lhe falta, das qualidades que não me exalta, dos esforços que não reconhece. Estou mesmo doente! Falta-me chão, faltam-me os pilares do amparo. E as paredes do escritório apertaram. Agora, são muros que me encolhem. E cérceas que nos afastam. Esgotei os argumentos, as paciências, as tolerâncias, as pachorras e — mais que tudo — gastei todos os “sim, senhor” de que era capaz.

Peço perdão. Peço que me absolva desta sinceridade, que desonere a indisposição, que desculpe esta minha perturbação, mas tenho que ser leal. Inteiramente leal. Mas não às suas causas. Não às suas desinteligências e dualidades, nem aos desvaneios das suas nuances ambíguas. Preciso de lealdade para comigo mesmo. Necessito voltar a sentir que sou dono do meu destino, do que faço, do que digo e do que penso! Careço de simpatia, empatia, sintonia, harmonia, mas não só neste dia. Exigo de mim tudo isso, a cada dia!

Peço perdão. Perdão por perdoá-lo sem que o mereça!

A aura de Aurea

Coliseu Micaelense preparado para o espectáculo.

Aos vinte dias, somados a mais oito, do climático inconstante mês de outubro de dois mil e onze, os Açores receberam a diva portuguesa, de seu nome verdadeiro Aurea! O palco foi a casa de espetáculos mais emblemática das ilhas, o Coliseu Micaelense. Quando foi inaugurado — em 1917 —, o então chamado Coliseu Avenida não imaginava que as suas paredes viessem um dia a vibrar da forma que o fizeram naquela noite. Uma casa repleta de fãs da recente voz de sucesso, mas também de muitos curiosos que passaram a admiradores após o espetáculo de se lhe tirar o chapéu!

Aurea – O sorriso carismático

Então, e se me perguntassem o que tem Santiago do Cacém e a ilha de São Miguel em comum? Responderia que absolutamente nada, à excepção de alguma doçaria conventual ou ambas terem um clube de futebol com união no nome — União Sport Club versus Clube União Micaelense. Mas a união a que me quero referir é outra; é que São Miguel adoptou uma filha legítima de Santiago do Cacém. A partir de agora, Aurea também é nossa!

Mas afinal quem é esta piquena que trouxe para as ilhas uma mescla de soul com alma, pop bem popular, e blues em tons de cerúleo? Não, Aurea não vestiu azul: começou o concerto com um adorável traje naqueles tons de rosa dos vestidos das bonecas de brincar, das barbies! Podia perfeitamente ser a barbie portuguesa – e açoriana, também – mas numa versão muito mais energética e pujante! Bem, esta piquena, já eleita como Golden Voice portuguesa, é uma senhora da sua própria voz, uma dirigente na 5ª arte, um exemplo de seriedade, humildade, profissionalismo e boa disposição. Não se deixem enganar pelos seus pés descalços em cima do estrado, há muito que se diz que assim se está mais ligado ao palco.

Capa do álbum homónimo

Cresceu rodeada por família e amigos ligados à música. Ainda numa idade viçosa, Aurea desejava o teatro. Entrou para a Universidade de Évora à procura desse canudo. Mas mudou de ideias. E fez muito bem. Acertou em cheio neste seu primeiro projecto musical. Falemos dos feitos dela, até agora. Pode ser que se impressionem. O álbum, com o mesmo nome da artista, foi lançado em setembro de dois mil e dez. Esteve mais de trinta semanas consecutivas no Top Nacional, quase sempre nos cinco cimeiros lugares, e uma meras oito semanas ininterruptas a liderar. Sim, em primeiro lugar! E já é Disco de Platina! Não chega? E que tal o Globo de Ouro na categoria de Melhor Intérprete Individual? E ser a primeira artista com três nomeações nessa gala? Sim, três nomeações! E o prémio para Best Portuguese Act da MTV Portugal, e consequentemente nomeada para o Worldwide Act European Nominees dos MTV Europe Music Awards? Enfim, passar pelos Ídolos aos quinze anos foi prematuro, mas a persistência e o sonho valem tudo, principalmente quando se tem tudo para vencer! Tenho a certeza que Aurea não ficará por aqui.

O álbum, já o tinha ouvido. Passei-o algumas vezes nos meus headphones, e descortinei logo uma tendência para o emblemático, até indícios de uma ícone em florescimento na nossa música. Mas como normalmente saio desiludido de espectáculos ao vivo de artistas com álbuns muito bem gravados, caminhei pela Rua de Lisboa bastante céptico.

Mas eis que o pano sobe! Mas no caso do coliseu: eis que o pano abre – para os lados! Vou encetar por dar os parabéns, felicitações, congratulações, parabenizações – e outras derivações –, a Miguel Casais. Que show, que emoção, que som, que rendição! As ritmadas cajadadas das baquetas no drum set eram contagiantes, aliciantes, deleitosas e apaixonadas, mas milimetricamente alinhadas. Nota positiva para a comoção conquistada na ligação entre o uso da tarola e do timbalão – sensações fortes. E a combinação do som do bombo com a viola-baixo de Guilha Marinho? Bem, onde estava um, estava o outro; onde um não ia, o outro cobria. Simplesmente genial. Muito ritmo, power e médios-graves inteligentemente preenchidos.

Foto: André Frias – contratempo.com

Acima de tudo, um sincronismo invejável entre todos os musicistas. As back vocals Tânia Tavares & Patrícia Silveira são autênticas divindades da voz! Ricardo Ferreira com uma execução de impecabilidade na guitarra, e Elton Ribeiro mostrou primazia e sentimento nos teclados. Grandes músicos! Uma nota muito positiva para o stage crew: mostraram a rapidez, eficiência e profissionalismo que qualquer músico desejaria ter por trás de si. Uma outra observação categoricamente elogiante vai para o som conseguido nessa noite, para um recinto difícil e suis generis como é o Coliseu Micaelense, com diferenças de reverberação anormais entre a sala vazia e cheia. E não deixo estes elogios para o fim, propositadamente. Dou todo o mérito e valor: um espectáculo destes não se faria sem eles!

Tema após tema, o dedo graúdo do meu pé direito ficava mais desassossegado, e as ancas do público ganharam vida. Começara o pé de dança – ou a anca de dança! Já se conseguiu apreciar o espetáculo decentemente depois de perceber a lógica da coreografia dos dois carismáticos elementos nos metais: Elmano Coelho no saxofone e Miguel Gonçalves no trompete. É que ambos sincronizam um bailado tão viciante, que quase nos fazem esquecer o entusiasmante sopro dos instrumentos, e até mesmo as formas do vestido de Aurea…

Foto: André Frias – contratempo.com

Já zurrava uma voz de entre a multidão: “Aurea, estou apaixonado por ti!”, mas logo surgiu a resposta da cantora: No, no, no, no! I don’t want to fall in love with you! Aurea acusou de termos saudades das The Main Things About Me, num ritmo alucinante. Também disse I’m turning my back on you em Don’t Ya Say It; e ainda I don’t want you, i don’t need you, i don’t love you anymore! – embora suspirasse carinhosamente de vez em quando –, em Tower of Strenghth. Como se isso não bastasse, ainda pediu please lie to me for just one day, mas redimiu-se dizendo numa voz meiga I would cook you some breakfast, no delicioso tema Dreaming Alive.

Aurea – Simplicidade e jovialidade

Mas nem tudo foi doloroso ouvir desta voz que apaixona. Acabou por nos fazer sorrir ao admitir I’m wishing for you, ao compasso clássico de Waiting, Waiting (For You). Claro que ficamos mais contentes! Busy (for me) arrebatou a audiência: o tema não precisa de apresentações. Não existe nada mais gracioso para um intérprete, músico ou autor, do que sentir outras vozes em uníssono a cantar ainda mais alto o que nós cantamos. So I cry, cry, cry, cry… Muito chorou aquele auditório. Momentos mais íntimos foram partilhados com a excelência das guitarras acústicas em Be My Baby e Heading Back Home.

Mas quando o público – já satisfeito – pensava que a voz de ouro tinha mostrado todos os seus dotes, Aurea regressou em grande para o encore. Após o interregno da praxe, enroupava a esperança na cor da alface madura. Presenteou-nos com a magia de The Witch Song. Num tema maravilhosamente hollywoodesco, Aurea mostra o seu lado teatral e as suas várias personalidades extravagantes. Passa por cantarolar que é um género de feiticeira com gostos refinados, e que nenhum homem a consegue conquistar. Por isso mesmo, entoa exaltada leave me alone!. Depois, ameaça vigorosamente: there is not much you can do to run away, I will turn your life into a hell. Até nos seduz pela simpatia cínica, entoando you hold my hand while all the birds fly. A esplêndida interpretação de Aurea neste papel desvenda a versatilidade e o caráter, não só da sua voz, mas também dela própria. Magnificente!

Como ponto negativo, teria que apontar a curta duração do espetáculo. Perfeitamente compreensível, partindo do princípio que é uma primeira tour e que não se deseja introduzir temas alheios ao álbum que se está a promover. Numa próxima digressão em que se promova um segundo álbum, estou certo que a equipa vai planear um espetáculo ainda mais mediático. Por outro lado, quantidade não é sinónimo de qualidade. O espetáculo não tem quebras significativas que desliguem a atenção do público.

Essencial numa récita deste género é manter o público a participar, e Aurea tem esse dom. Conseguiu fazer com que os micaelenses – por mais de uma hora – esquecessem que são um público superficialmente reservado. O espetáculo está muito bem orquestrado. Recheado de surpresas agradáveis que prendem o povo à atuação, como a paragem em que os músicos petrificam por uns minutos: quebra a sequência e arrebita a curiosidade. Para qualquer lugar do palco para onde se olhasse, havia movimento e provas mais que suficientes de que os artistas estavam a desfrutar bastante do que faziam. As palavras de Aurea demonstram a humildade de uma grande artista. Este é o nosso primeiro coliseu!, expressou ela – mostrou comoção!

Mais importante ainda: as cantigas ficaram na AUREAcula!

Pepitas misteriosas

Nas pepitas misteriosas da noite
Danças com um velame de seda;
Alumias o caminho escondido,
Reluzente, de tanto alarido,
Que me arrasta até à labareda,
Até um imenso Sol que nos afoite.

Nas pepitas joviais dos teus olhos,
Vejo o rosto eternamente vidrado.
Aquele que nunca o rumo mudará,
E que desde — e para sempre — ficará,
Para os lados deste lado revirado,
Sem a brisa nos oferecer restolhos.

Nas pepitas nebulosas do escuro,
Vens com mágoa e tristeza eclipsada;
Guias o cio a cada época despida,
Forjas a força!, e a maré fica perdida.
No granjeio, mostras lei fertilizada,
Dás o gérmen ao homem mais maduro.

“Le voyage dans la lune”, por Georges Méliès (1902)

Nas pepitas tresloucadas do mar,
Onde encontras esse reflectido teu,
Derramas a brancura dessa chama,
Irradias o rubor de quem te ama.
Ao girar, mudas o sentimento meu:
Ora sorrio, ora agora vou chorar…

Sou revolto! Estou indignado, irado!
Oh, tu!, não influis mais no meu sentimento!
E mais não reges esse meu pensamento…
Tomai coragem de ver o que estou a viver,
Olhai p’ra mim e enfrentai o meu sofrer!

Nas pepitas da acalmaria tua,
Trazes luz e energia do arcaico;
Vibras — erma — com alvura retratada.
Sou fiel! Rodo a teu lado, desgraçada!
Porque não decifro eu, esse mosaico?
O labirinto que és tu: estranha Lua!