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Sonasfly, o pseudónimo voador

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

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Um código para decifrar

Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix e Marisa
Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer – que também é brother in arms – vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012

Os Queen estão vivos

São sete e dez, Post Meridian. Ao subir as escadas do Underground, a sensação de ver surgir a fachada do Dominion Theatre é de se lhe tirar o chapéu. Do lado oposto da Tottenham Court Road, nem mesmo a azáfama do trânsito, nem sequer a altura dos red buses de dois andares retiram a grandeza do vulto dourado de Freddie Mercury, na sua pose enigmática.

Dominion Theatre – London

Um funcionário do teatro passeia-se no exterior com um pequeno cartaz, apregoando descontos nos últimos bilhetes da sessão, provavelmente resultantes de alguma desistência. “Last tickets, discounts!”, anuncia ele. Os responsáveis pelas portas olham o relógio, conferindo que falta um quarto de hora para o começo do espectáculo, e abrem alas de pontualidade britânica. Um cardume de espectadores ávidos pelas teatralidades musicais londrinas irrompe pelo átrio alcatifado. “Welcome!”, recebem as simpáticas meninas das vendas de merchandising. Agitam no ar os CD’s, os panfletos, as t-shirts – estão por todo o lado, promovendo mais um dos negócios paralelos à bilheteira.

Esta é uma máquina que se gere a si própria. Quem chega sem qualquer introdução até pode julgar que se trata de uma estreia ou novidade. Mas esta terça-feira de Setembro com casa cheia é só mais uma lotação esgotada, igual às que se têm repetido nos últimos dez anos. Sim, este espectáculo está a rodar há mais de uma década! A equipa de Ben Elton comemorou recentemente as quatro mil actuações, com a edição de um disco com os temas do musical que dão nova vida aos Queen. Desse álbum, a versão de “Bohemian Rhapsody” já atingiu o primeiro lugar votado para o single favorito no Reino Unido, e o espectáculo propriamente dito arrecadou o prémio Olivier Awards 2011, da BBC2 Radio.

E o pano sobe. A sala enche-se com os aplausos do público de etnias variadas, desconhecendo-se quem se senta nos camarotes. É bem provável que se encontre alguém socialmente relevante – o que quer que isso queira dizer –, ali já se sentaram músicos, artistas, políticos e realeza de todo o planeta. Todos aguardam pela produção galardoada, desde com o “Best New Musical” dos Theatregoers’ Choice Awards, até ao “Outstanding Production of a Musical” dos canadianos Dora Awards, passando pelo “Best Live Performance of the Year” dos Capital Gold Radio Legends Awards. E o que acontece? Temos música!

O musical tem a direcção de Ben Elton, a supervisão musical de Brian May e Roger Taylor, e conta com a coreografia de Arlene Phillips. O português Ricardo Afonso também já representou o personagem principal. Apresenta vinte e quatro temas dos que representam os – ainda –    êxitos dos Queen, e conta-nos a história de um jovem que lidera um grupo de pessoas na busca pela alma do Rock num futuro imaginário em que a música electrónica e industrializada assumiu a única oferta no mercado. Apesar de parecer um pouco arrojado em termos de linha temporal, a forma como o tema está abordado não deixa de ser interessante, quando este tipo de massificação já se mostra perante os nossos olhos.

Esta produção vai voltar a sair das terras de Sua Majestade. Mesmo depois de passarem a ter as suas próprias escolas, de saltarem para o mundo virtual através das aplicações para iPhone e iPad, de terem obtido sete milhões de espectadores na Grã-Bretanha e outros quinze milhões pelo mundo fora, já estão confirmadas actuações fora de fronteiras numa tour que irá passear-se no ano de 2013. O arranque desta tournée por arenas do mundo irá acontecer no próximo mês de Março, na Nottingham Capital FM Arena.

Por maior que seja a tentação de esmiuçar o conteúdo do espectáculo, deixo o repto a quem deseje descortiná-lo, pois acredito que estará pelos palcos do mundo por muito mais tempo. Sublinho a mensagem das entrelinhas do texto, que lembra como os grandes nomes levam vidas curtas, subjugados à pressão da sociedade, e deixando de fazer parte do nosso mundo num ápice. Um arrepio atravessou-me o pensamento quando, no meio da história, imortalizam nomes como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain e, claro está, Freddie Mercury. No entanto, ele próprio indagava: “Who Wants to Live Forever”?

Sem dúvida, um musical que me ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 19 de Outubro de 2012

Na baía com…. Bárbara Azevedo

Estávamos no fim de tarde do vigésimo nono dia do sexto mês deste ano de dois mil e uma dúzia. As luzes do confortável Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada baixaram a sua agudeza para deixar brilhar uma ainda mais forte: Bárbara Azevedo. O sopro do piano encheu a sala de forma hipnótica e a voz afectuosa da oriunda da ilha cinzenta encheu a alma dos presentes com as letras de Torna Viagem, do nosso grande Zeca Medeiros. No final, ao se dirigir algumas palavras a esse homem notável da cultura dos nossos ilhéus, que assistiu à actuação, confessou ter admirado a prestação e a forma como o tema foi adaptado pela cantora.

Bárbara Azevedo, ao vivo no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

Alguns dias mais tarde, numa esplanada da baía das Portas do Mar – onde os Anjos se passeiam –, estava eu sentado nas cadeiras escuras, patrocinadas por uma bebida qualquer. Assinalei com o indicador direito ao empregado para me trazer um descafeinado cheio e olhei a marina. Apreciei o movimento sereno de uma embarcação à vela que irrompia pelo porto da cidade e respirei fundo aquele bom tempo na baía. Era um dia soalheiro e perfeito para uma conversa informal com Bárbara. Tínhamos combinado falar um pouco acerca do seu percurso, e eu estava bastante curioso quanto ao que ela teria para dizer. O empregado trouxe a bebida quente desprovida de cafeína, que consumi em quatro ou cinco sorvos. Olhei o visor do telemóvel: “Estou a chegar”. E chegou mesmo.

Bárbara tem muitas qualidades, mas a sua humildade e simpatia deixam qualquer pessoa empática logo num primeiro contacto. Depois dos cumprimentos da praxe, dos beijinhos e do “como tens andado?”, olhei o gravador.
— Importas-te que grave a nossa conversa? — perguntei.
— Não, claro que não — respondeu ela, sem cerimónias.
Pressionei o botão que tem uma circunferência rubra inscrita e deixei o dispositivo pousado ao centro da mesa da esplanada.

Bárbara Azevedo, vencedora do Festival “Baleia de Marfim” nas Lajes do Pico no ano de 2000.

— Em relação ao teu percurso na música, para percebermos onde se enquadra na tua vida, queria entender um pouco do teu passado. De onde vens, o que trazes contigo na bagagem….
— Eu sou natural do Pico. Toda a minha família está lá, as minhas raízes. Quanto à música, os meus pais dizem que até antes de falar, comecei a cantar primeiro! — riu-se. — Comecei no Pico, a participar no Festival Baleia de Marfim. Com cinco anos, primeiro fui para o Corvo; depois, com sete anos, comecei a participar como concorrente e, em 2002, fui vencedora no Festival Baleia de Marfim. Vim à Caravela de Ouro, na Povoação, e também fui vencedora; fui à Figueira da Foz e também ganhei os prémios todos que haviam a nível nacional — mais risos.
— Fantástico! — ainda agora tínhamos começado, e já eu estava impressionado.

— Ainda fui à Madeira com essa música (Quando Eu For Grande), só como participação especial. Depois, quase que já passava da validade — deixou escapar mais risadas —, da idade mínima para participar no festival. Participei só mais um ano, fiquei em segundo lugar, e vim como participação especial aqui a São Miguel. Após isso, fiz uma primeira actuação aos onze anos lá na minha freguesia (sorrisos). Ainda não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo, foi só uma actuação “tocada” (risos). O meu pai ajuda-me a fazer o repertório, e é uma das minhas grandes influências nas escolhas, porque desde pequena que convivo com música lá em casa: o meu pai toca viola, a minha mãe também canta e toca viola.

— As letras que tu interpretaste nesses concursos eram escritas….?
— Foram escritas pela minha mãe — interpelou a cantora.
— Pela tua mãe? — a retórica só significava que eu estava perante apenas um dos membros de uma família talentosa.
— Pela minha mãe — repetiu Bárbara, com orgulho nos olhos.
— Então tens, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe, influências a esse nível? — questionei.
— É, é — confirmou ela. — Tanto eu como a minha irmã, concorríamos com músicas em que as letras eram escritas pela minha mãe — pois é: a irmã também canta!
— E como é que vieste parar aqui, a São Miguel?
— Fiz o secundário lá, fiz até ao décimo primeiro ano…. depois resolvemos vir todos numa aventura. Estive a fazer o décimo segundo ano, quando decidi entrar para a Globalpoint Music. Já tinha feito até ao quinto grau de conservatório no Pico, no curso de piano; depois de chegar aqui não quis ir logo para o conservatório. Já era um ambiente novo, professores novos, escola nova…. era muita coisa nova, e ter mais a responsabilidade do conservatório…. então, decidi tirar um ano para me divertir, na Globalpoint…. (sorrisos).

— Mas tens planos para ingressar no conservatório, aqui?
— Eu continuo lá, vou agora para o oitavo grau, mas penso que…. não vou seguir a área clássica. A única coisa que vou fazer é tirar algumas bases importantes, que são precisas para depois adaptar para as minhas músicas.

Participação especial no Festival da Madeira 2001.

— No ensino secundário, qual foi a área que seguiste, só por curiosidade?
— Foi a área de ciências. E agora estou a tirar enfermagem, aqui em São Miguel. Vou agora para o terceiro ano. Já sou metade enfermeira — deixou escapar um sorriso.
— Como achas que vais conseguir tratar melhor as pessoas: como enfermeira ou como artista ligada à música? — não pude resistir em lançar a pergunta.
— Não sei, tenho essa dúvida…. (risos) às vezes penso que se juntasse a parte de enfermagem com a musicoterapia, as coisas davam certo! (risos) — e eu também concordei!

— Agora, a Bárbara Azevedo aparece em São Miguel…. um pouco mais madura, não é? Já não são aqueles festivais em que participa malta mais jovem…. Começas a aparecer junto dos grandes. Qual é a sensação?

— É uma sensação muito boa, porque isto aconteceu tudo muito depressa: comecei a compor algumas coisas em Setembro do ano passado, algumas letras…. comecei a arranjar algumas melodias, e as coisas parecem-me que sairam mais ou menos (risos)…. — cá estava a Bárbara a ser modesta. — No Natal dos Hospitais, fui convidada a ir apresentar um dos meus temas e o feedback foi muito bom! Apresentei só um original com piano e voz, que depois começou a passar na rádio! Após isso, fui à Globalpoint gravar um outro original, também para circular, mas numa vertente diferente: uma banda completa para também dar um pouco mais de mim, como artista. Começou também a passar na rádio e comecei a ser convidada para algumas entrevistas.

Actuação ao vivo no dia 25 de Abril de 2012 nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada.

— Qual é a diferença entre tocar sozinha e tocar numa banda? — uma das perguntas da praxe.
— É completamente diferente. Dá-me agora outra perspectiva de como é que eu posso agora compor as músicas, porque quando compus a Old Picture, foi só em piano e voz, nunca pensei que pudesse ter aquele resultado. Fiquei muito satisfeita!
— Mas notas uma diferença só em termos de composição e orquestração, ou também em termos do produto final?
— Em termos do produto final também! — confessou. — E penso que o feedback também é diferente, porque já tive várias perspectivas: até mesmo o cover de Pedro Abrunhosa; pessoas que gostam mais de me ver na vertente da Old Picture do que numa vertente mais acústica. Isso também é importante para mim: ver o feedback das pessoas nesses vários estilos.
— E em qual das perspectivas te sentes mais à vontade?
— Nas duas — assentiu com a cabeça, confiante. — Sinto-me à vontade nas duas.

— E a tua relação com o piano, qual é? — a relação de um músico com o seu instrumento é sempre única.
— Ah!, a minha relação com o piano é…. eu digo que…. se passo um dia sem tocar piano, acho que fico com sinais de privação! — soltou uma gargalhada. — Não, eu tenho uma relação muito boa com o meu piano!
— Muito bem. Já percebi isso, já vi que és uma aficcionada das teclas, mas também tocas outros intrumentos, ou não?
— O meu pai ensinou-me a tocar viola, também arranho qualquer coisa nessa área. Mas o que eu gosto mais é do piano e da voz: o tocar e cantar é…. é quase como a cereja em cima do bolo!

— O teu percurso neste momento é: compor, escrever…. e a seguir? — vamos lá a falar do futuro.
— Isto está tudo num processo de maturação. Para além dos dois originais que já lancei, tenho cerca de mais nove ou dez. Quero que eles amadureçam e que eu também amadureça mais um bocadinho; tenho também o sonho de lançar um trabalho meu: talvez daqui a dois anos…. vamos ver como as coisas correm! Estou a ver se consigo encontrar alguns patrocínios; de momento, os originais estão a ser patrocinados pelo pai e pela mãe! (risos)…. e a divulgação destas músicas tem também esse fim: ver se alguém se interessa pelo meu trabalho, e que queira patrocinar parte dele.
— Quando falas em gravar, noto esse obstáculo que é o mesmo da grande maioria: o financeiro!
— Em relação ao financeiro…. eu também não gosto de gravar como se fosse “ao metro”; gosto de fazer um trabalho, limar arestas e quando vejo que está pronto, tenho a preocupação de o mostrar primeiro aos meus pais e amigos mais chegados, para me darem mais algumas dicas. Com esses originais, consigo também receber o feedback das pessoas; se estão a gostar realmente e se vale a pena ir para a frente com o trabalho.

Bárbara Azevedo em actuação.

— A experiência em estúdio?
— Ah!, a experiência em estúdio! Foi…. — o rosto de Bárbara iluminou-se com um enorme sorriso. — Eu estava maravilhada naqueles dias em que fui gravar para o estúdio (mais risos), gostei imenso daquela experiência! Nunca tinha ouvido a minha voz gravada….
— Não?!  — admito que fiquei surpreso.
— Não, nunca tinha ouvido a minha voz gravada.
— Mas com tantas actuações, com tantas participações em concursos….?!
— Nunca tinha ouvido assim…. a minha voz! A primeira vez foi com Luís H. Bettencourt, que foi excelente nesse aspecto; gravámos o tema The Truth, que apresentei no Natal dos Hospitais, e fiquei maravilhada com tudo…. Depois, na Globalpoint, também com a gravação em estúdio…. E para a próxima semana vou gravar mais um tema lá.
— Então, mas preferes ver um tema acabado para depois começar outro, é assim?
— Sim, exacto. E vou também divulgando mais alguns covers; agora, não vou lançar mais originais. Lancei estes dois em vertentes diferentes; vou lançar alguns novos no meu canal do YouTube, penso que são esses que dão mais projecção…. músicas conhecidas na minha própria versão. Os originais que eu for gravando, vou guardando para depois, para o lançamento do trabalho.
— E por falar em covers, qual foi a sensação de tocar em frente ao grande Zeca Medeiros?
— Ih!, (risos)….
— E como se isso não bastasse, um tema dele?
— Foi uma sensação muito boa! É claro que é mais responsabilidade, estar a tocar para o compositor daquele tema, mas foi uma sensação muito boa!
— Ele manda-te um abraço e transmitiu-me que adorou a tua versão! Acho que isso quer dizer alguma coisa, e estás de parabéns!
— Obrigada! É esse feedback que uma pessoa procura sempre quando faz as actuações, e fico muito contente por ele ter gostado da minha versão e da minha voz, mesmo estando constipada como estava naquele dia.
— Mas saíste-te muito bem! — saíu-se mesmo!
— Obrigada!

— A tua ambição, como açoriana, independentemente de seres picoense ou não, é chegar onde?
— Bom, costuma-se dizer que o céu é o limite, não é? Vamos tentar chegar o mais alto possível, mas com os pés bem assentes no chão, e tudo o que vier é bom! Não vou estar com ilusões, que quero ser um êxito a nível mundial, não é?
— Estás a conseguir equilibrar as tuas prioridades? Estudos, família e música?
— Estou a conseguir conciliar. É claro que, às vezes, é um pouco difícil, com a responsabilidade do curso de enfermagem, e com o conservatório, e ainda pôr algumas composições pelo meio, mas penso que tenho conseguido gerir bem as coisas, e sinto-me bem a fazer ambas as coisas: a enfermagem e a música.

— Sabes que nós, açorianos, temos uma certa tendência para as artes…. Há uma grande fatia de gente que se dedica a todo o tipo de artes. O que achas que o açoriano tem que os outros não têm para seguir por essas áreas?
— Se calhar esta vida em arquipélago…. E notei muita diferença quando vim aqui para São Miguel, porque lá no Pico temos muito mais proximidade com as outras ilhas. Acho que a nossa ideia de arquipélago no grupo central é diferente da ideia de arquipélago aqui em São Miguel.
— Achas que aqui, apesar de ser uma ilha maior, existe uma distância maior entre as pessoas?
— Parece-me que sim, mas não quero fazer juízos de valor….
— Mas já te sentes em casa?
— Sinto-me. E quando me perguntam de onde sou…. quando digo que sou do Pico, apetece-me dizer que já sou metade micaelense (risos). Sinto-me muito bem aqui, em São Miguel.
— Continuando nos teus objectivos: não ponderas a hipótese de pôr um pé fora dos Açores? Nem que seja para promover o teu trabalho ou para algum tipo de formação mais específica….
— Por acaso, tenho pensado nisso ultimamente, porque aqui em Portugal, ou se é muito bom para se vingar no mundo da música, ou se tem muita sorte. É claro que tenho noção de que, se for para outro meio, vai ser muito mais agressivo e a exigência vai ser maior. Vou ver com o tempo o que se vai fazer. Por enquanto vou ficar cá.
— Um passo de cada vez.
— Exactamente.
— Muito bem. Muito boa sorte, Bárbara!
— Obrigada!

A ilha do Pico já nos presenteou com muitas obras de arte, mas esta é especial. Bárbara Azevedo está a marcar um novo fôlego nesta geração de ouro da música açoriana e portuguesa; não apenas pelo dom natural que a sua voz tem, mas também pelo percurso invejável conseguido até agora, tanto em termos de formação, como de reconhecimento obtido. Bárbara controla a respiração muito bem, de forma natural, e tem um vibrato bem dominado e mavioso! No tema cujo vídeo está acima, Old Picture, a ligação com os metais parece ser um dos caminhos a seguir. Vejo também alguns apontamentos do estilo da Broadway interpretados por ela, mas tudo dependerá de onde melhor ela se sentir.

Apesar do seu percurso, Bárbara Azevedo ainda tem alguns obstáculos a ultrapassar. A sua juventude retira-lhe um pouco de mérito — embora eu discorde, é assim na nossa sociedade —, mas esta compositora e excelente intérprete precisa de obter reconhecimento e de se afirmar, mais ainda! Seria também muito interessante para a artista uma experiência fora destes nove ilhéus: vejo-a numa jornada de um mês em Londres, Sydney, ou mesmo Nova Iorque (quem sabe com umas dicas da nossa associada Melissa Cross?). Não devemos ter medo de explorar os mares nunca dantes navegados, até porque, no caso de Bárbara Azevedo, ela conhece bem o seu porto seguro!

E não há dúvida que esta voz ficou-me mesmo…. no Pavilhão Auricular!

in Jornal Terra Nostra, 10 de Agosto de 2012

Rui Veloso e a minha guitarra

Zeca Medeiros

Então, o que terá a minha Guitarra Portuguesa em comum com Rui Veloso? O Fado Insulano…. E o que têm os quatro minutos e meio do Fado Insulano em paralelo com um pouco de Rui Veloso? O grande Zeca Medeiros. E a dita guitarra, o que tem a ver com tudo isto? Esteve nas mãos – e nos dedos – do mágico Eduardo Botelho.

Sim, amo a sonância de uma Guitarra Portuguesa, e atirei-me completamente de cabeça quando a vi. Foi amor ao primeiro acorde! Não sou suficientemente digno de a ostentar, e não tanto expedito para a tocar como aprovaria. Fico-me por alguns solfejos tímidos de quem se fica também pela meia dúzia das ditas normais cordas de uma guitarra. Mas não deixo de palpitar com o seu timbre, por isso abracei-me…. à Guitarra Portuguesa. Mas ela agora é especial. É o meu elo à grande música, um marco à mestiçagem perfeita de alguns dos meus ídolos.

E eis que sobe o pano. Paulo Borges enceta com uma simples mas sentida melodia nas oitenta e oito teclas do piano, e mantém-se exemplar, criativo e sentido até ao culminar. Unissonante, entra no palco desta curta-metragem musical, o vertiginoso Jon Luz e a sua viola acústica. Apresenta-nos também o seu criteriosamente tocado cavaquinho, que nos embala numa cadência vacilante.

Mais um pano se abre, agora para a profunda voz insulana do meu estimado José Medeiros, mais célebre por Zeca no seu vasto – e amplo – universo das artes. E aqui está o maior desafio que se me podem colocar: articular por vocábulos a unicidade da sua voz. Mas aceito o repto – com orgulho! Essa voz é…. inenarrável, inexplicável e indescritível! Pronto, e com três adjectivos unívocos, safo-me. Assim, não preciso de explicar como a dicção espectaculosa se alia à sensação e à narração gravemente pulsante; nem como a rouquidão ressaltada nos agudiza, tal conto de fadas acerca dos nossos fados. Melhor descrição, só mesmo o que o próprio escreveu nesta cantiga: “nas vozes de veludo que a noite insinua, vem rasgar, doce falua, meu amargo cancioneiro”. Veludo? Do mais inacessível e raro. Na escrituração e composição maestrina desta obra de arte. Amargo? Talvez no pesar das palavras. Mas se nos tocam, também o somos.

Rui Veloso

Temos estrelas no céu, ao contrário do que muitos possam dizer. É o inigualável Rui, que de Veloso também o encantam. E o homem que dispensa apresentações, diz que o “meu canto ainda ecoa no cais das descobertas”, e sabemos bem que ele vai bradar muito para além do Porto Côvo. Ainda mais quando proclama que “só meu fado ainda perdura”. Já é eterno. Mas as surpresas por aqui não se deixam ficar.

O meu camarada Eduardo Botelho colocou toda a sua destreza no braço de lenho que guia o rumo dos doze fios reluzentes da minha estimada guitarra portuguesa, e transportou-nos no tempo, para uma mistura das nossas raízes com a contemporaneidade. Faz-nos arrepiar. Se ele já é um homem dos sete ofícios, também é o homem das sete guitarras.

E com Fados, Fantasmas e Folias vos deixo. Deixem-se enfeitiçar com esta gravação que ligou Vale de Lobos a Ponta Delgada. Enamorem-se com o “compasso de lonjura”, nos sobressaltos de viagens em “canoa baleeira”, em esteiras “que querem beijar o Tejo”, e deixem-se ficar prisioneiros.

Eu fiquei. E a cantiga ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Setembro de 2012

A aura de Aurea

Coliseu Micaelense preparado para o espectáculo.

Aos vinte dias, somados a mais oito, do climático inconstante mês de outubro de dois mil e onze, os Açores receberam a diva portuguesa, de seu nome verdadeiro Aurea! O palco foi a casa de espetáculos mais emblemática das ilhas, o Coliseu Micaelense. Quando foi inaugurado — em 1917 —, o então chamado Coliseu Avenida não imaginava que as suas paredes viessem um dia a vibrar da forma que o fizeram naquela noite. Uma casa repleta de fãs da recente voz de sucesso, mas também de muitos curiosos que passaram a admiradores após o espetáculo de se lhe tirar o chapéu!

Aurea – O sorriso carismático

Então, e se me perguntassem o que tem Santiago do Cacém e a ilha de São Miguel em comum? Responderia que absolutamente nada, à excepção de alguma doçaria conventual ou ambas terem um clube de futebol com união no nome — União Sport Club versus Clube União Micaelense. Mas a união a que me quero referir é outra; é que São Miguel adoptou uma filha legítima de Santiago do Cacém. A partir de agora, Aurea também é nossa!

Mas afinal quem é esta piquena que trouxe para as ilhas uma mescla de soul com alma, pop bem popular, e blues em tons de cerúleo? Não, Aurea não vestiu azul: começou o concerto com um adorável traje naqueles tons de rosa dos vestidos das bonecas de brincar, das barbies! Podia perfeitamente ser a barbie portuguesa – e açoriana, também – mas numa versão muito mais energética e pujante! Bem, esta piquena, já eleita como Golden Voice portuguesa, é uma senhora da sua própria voz, uma dirigente na 5ª arte, um exemplo de seriedade, humildade, profissionalismo e boa disposição. Não se deixem enganar pelos seus pés descalços em cima do estrado, há muito que se diz que assim se está mais ligado ao palco.

Capa do álbum homónimo

Cresceu rodeada por família e amigos ligados à música. Ainda numa idade viçosa, Aurea desejava o teatro. Entrou para a Universidade de Évora à procura desse canudo. Mas mudou de ideias. E fez muito bem. Acertou em cheio neste seu primeiro projecto musical. Falemos dos feitos dela, até agora. Pode ser que se impressionem. O álbum, com o mesmo nome da artista, foi lançado em setembro de dois mil e dez. Esteve mais de trinta semanas consecutivas no Top Nacional, quase sempre nos cinco cimeiros lugares, e uma meras oito semanas ininterruptas a liderar. Sim, em primeiro lugar! E já é Disco de Platina! Não chega? E que tal o Globo de Ouro na categoria de Melhor Intérprete Individual? E ser a primeira artista com três nomeações nessa gala? Sim, três nomeações! E o prémio para Best Portuguese Act da MTV Portugal, e consequentemente nomeada para o Worldwide Act European Nominees dos MTV Europe Music Awards? Enfim, passar pelos Ídolos aos quinze anos foi prematuro, mas a persistência e o sonho valem tudo, principalmente quando se tem tudo para vencer! Tenho a certeza que Aurea não ficará por aqui.

O álbum, já o tinha ouvido. Passei-o algumas vezes nos meus headphones, e descortinei logo uma tendência para o emblemático, até indícios de uma ícone em florescimento na nossa música. Mas como normalmente saio desiludido de espectáculos ao vivo de artistas com álbuns muito bem gravados, caminhei pela Rua de Lisboa bastante céptico.

Mas eis que o pano sobe! Mas no caso do coliseu: eis que o pano abre – para os lados! Vou encetar por dar os parabéns, felicitações, congratulações, parabenizações – e outras derivações –, a Miguel Casais. Que show, que emoção, que som, que rendição! As ritmadas cajadadas das baquetas no drum set eram contagiantes, aliciantes, deleitosas e apaixonadas, mas milimetricamente alinhadas. Nota positiva para a comoção conquistada na ligação entre o uso da tarola e do timbalão – sensações fortes. E a combinação do som do bombo com a viola-baixo de Guilha Marinho? Bem, onde estava um, estava o outro; onde um não ia, o outro cobria. Simplesmente genial. Muito ritmo, power e médios-graves inteligentemente preenchidos.

Foto: André Frias – contratempo.com

Acima de tudo, um sincronismo invejável entre todos os musicistas. As back vocals Tânia Tavares & Patrícia Silveira são autênticas divindades da voz! Ricardo Ferreira com uma execução de impecabilidade na guitarra, e Elton Ribeiro mostrou primazia e sentimento nos teclados. Grandes músicos! Uma nota muito positiva para o stage crew: mostraram a rapidez, eficiência e profissionalismo que qualquer músico desejaria ter por trás de si. Uma outra observação categoricamente elogiante vai para o som conseguido nessa noite, para um recinto difícil e suis generis como é o Coliseu Micaelense, com diferenças de reverberação anormais entre a sala vazia e cheia. E não deixo estes elogios para o fim, propositadamente. Dou todo o mérito e valor: um espectáculo destes não se faria sem eles!

Tema após tema, o dedo graúdo do meu pé direito ficava mais desassossegado, e as ancas do público ganharam vida. Começara o pé de dança – ou a anca de dança! Já se conseguiu apreciar o espetáculo decentemente depois de perceber a lógica da coreografia dos dois carismáticos elementos nos metais: Elmano Coelho no saxofone e Miguel Gonçalves no trompete. É que ambos sincronizam um bailado tão viciante, que quase nos fazem esquecer o entusiasmante sopro dos instrumentos, e até mesmo as formas do vestido de Aurea…

Foto: André Frias – contratempo.com

Já zurrava uma voz de entre a multidão: “Aurea, estou apaixonado por ti!”, mas logo surgiu a resposta da cantora: No, no, no, no! I don’t want to fall in love with you! Aurea acusou de termos saudades das The Main Things About Me, num ritmo alucinante. Também disse I’m turning my back on you em Don’t Ya Say It; e ainda I don’t want you, i don’t need you, i don’t love you anymore! – embora suspirasse carinhosamente de vez em quando –, em Tower of Strenghth. Como se isso não bastasse, ainda pediu please lie to me for just one day, mas redimiu-se dizendo numa voz meiga I would cook you some breakfast, no delicioso tema Dreaming Alive.

Aurea – Simplicidade e jovialidade

Mas nem tudo foi doloroso ouvir desta voz que apaixona. Acabou por nos fazer sorrir ao admitir I’m wishing for you, ao compasso clássico de Waiting, Waiting (For You). Claro que ficamos mais contentes! Busy (for me) arrebatou a audiência: o tema não precisa de apresentações. Não existe nada mais gracioso para um intérprete, músico ou autor, do que sentir outras vozes em uníssono a cantar ainda mais alto o que nós cantamos. So I cry, cry, cry, cry… Muito chorou aquele auditório. Momentos mais íntimos foram partilhados com a excelência das guitarras acústicas em Be My Baby e Heading Back Home.

Mas quando o público – já satisfeito – pensava que a voz de ouro tinha mostrado todos os seus dotes, Aurea regressou em grande para o encore. Após o interregno da praxe, enroupava a esperança na cor da alface madura. Presenteou-nos com a magia de The Witch Song. Num tema maravilhosamente hollywoodesco, Aurea mostra o seu lado teatral e as suas várias personalidades extravagantes. Passa por cantarolar que é um género de feiticeira com gostos refinados, e que nenhum homem a consegue conquistar. Por isso mesmo, entoa exaltada leave me alone!. Depois, ameaça vigorosamente: there is not much you can do to run away, I will turn your life into a hell. Até nos seduz pela simpatia cínica, entoando you hold my hand while all the birds fly. A esplêndida interpretação de Aurea neste papel desvenda a versatilidade e o caráter, não só da sua voz, mas também dela própria. Magnificente!

Como ponto negativo, teria que apontar a curta duração do espetáculo. Perfeitamente compreensível, partindo do princípio que é uma primeira tour e que não se deseja introduzir temas alheios ao álbum que se está a promover. Numa próxima digressão em que se promova um segundo álbum, estou certo que a equipa vai planear um espetáculo ainda mais mediático. Por outro lado, quantidade não é sinónimo de qualidade. O espetáculo não tem quebras significativas que desliguem a atenção do público.

Essencial numa récita deste género é manter o público a participar, e Aurea tem esse dom. Conseguiu fazer com que os micaelenses – por mais de uma hora – esquecessem que são um público superficialmente reservado. O espetáculo está muito bem orquestrado. Recheado de surpresas agradáveis que prendem o povo à atuação, como a paragem em que os músicos petrificam por uns minutos: quebra a sequência e arrebita a curiosidade. Para qualquer lugar do palco para onde se olhasse, havia movimento e provas mais que suficientes de que os artistas estavam a desfrutar bastante do que faziam. As palavras de Aurea demonstram a humildade de uma grande artista. Este é o nosso primeiro coliseu!, expressou ela – mostrou comoção!

Mais importante ainda: as cantigas ficaram na AUREAcula!

Fragmentos muito bem coNNectados

Capa do “Fragmentos”

O décimo mês do ano de 2011 teve um primeiro dia histórico. O projecto de renome CONNECTION lançou um trabalho discográfico: Fragmentos é o nome escolhido para uma colecção de sensações e vibrações reunida numa esbranquiçada bolacha de cd. Desde os temas de Rebirth – que tanto me aguçaram o apetite, em 2008 – que se esperavam novidades da dupla indissolúvel; e cá estão elas! O álbum promete malhar nas rádios; está recheado de brindes, surpresas, desproporções saudáveis, valências emotivas, palavras tocantes e músicos magos na sua arte. Enfim… reune todos os ingredientes para um prato verdadeiramente principal, a servir com os 5 sentidos bem abertos, mas com a audição completamente escancarada!

1. E eis que o pano sobe… Ouvem-se aplausos; e também as primeiras sensações que Clue – o primeiro tema – nos presenteia. Indubitavelmente que Mário George Cabral e Sílvio Ferreira não mostram reasons to be ashamed, antes pelo contrário. Conseguimos perceber a elegância da música electrónica e, mesmo assim, sentir a batida da bateria acústica de João Freitas. O frenesim do wah-wah das guitarras de Tiago Franco e a sumptuosidade dos solos da viola-baixo de Zica hipnotizam-nos e colocam-nos nos ombros da opulência.

Mário George Cabral ao piano.

2. Acto contínuo, entramos num paraíso privado. A feitiçaria das guitarras de Luís Tavares Sousa, Tiago Franco e de Eduardo Botelho fazem-nos viajar num tapete voador. Luís H. Bettencourt escreveu as palavras de Private Paradise que, unidas à força das melodias dos refrões bem conseguidas, nos deixam down to our hands and knees. E já que falamos em posições constrangedoras, não podem deixar de gozar das sensações lascivas que o minuto 2:45 nos oferece. Recomendo.

3. Se já se ouviam louvores no início do álbum, agora há direito a uma ovação de pé: Seres o Meu Amor é algo mágico, viciante, causa mesmo dependência. Não pelo amor propriamente dito, primorosamente espalhado pelos versos de Aníbal Raposo, como se “vaga sobre a vaga” se tratasse – e que bom seria saber a “cor do perfume” –, mas pela amálgama jovial e quase ilusionista da combinação da sua própria voz com a de Sílvio. Outra excelente combinação: os solos patriotas de Eduardo Botelho na guitarra portuguesa seguidos do seu slide gracioso na guitarra eléctrica.

4. Hélder Machado dá as primeiras bordoadas certeiras na bateria – como na maior parte dos temas deste disco –, e abre caminho para a voz irreal e prodigiosa de Vânia Câmara, em As Your Soul Too. Uma nota muito positiva a favor desta intérprete, não que ela precise (já tem provas mais que dadas), mas para os mais distraídos do nosso panorama. Tema deliciosamente escolhido para uma voz cheia de soul!

Sílvio Ferreira

5. Varandas de S. Jorge assenta num concentrado poema de Sidónio Bettencourt. A voz apaixonadamente entorpecedora de São Pontes não precisa de apresentações, e tem aqui mais uma prova da sua singularidade. A inconformidade e a veemência das guitarras de Paulo Bettencourt deixam-nos suspensos. Ao contrário da maioria dos temas deste trabalho, em que António Feijó está muito bem extasiado na viola-baixo, neste tema podemos ouvi-lo no contra-baixo.

6. Temos ritmo, temos paixão e energia… Estamos vivos! Alive arranca com o furor do didgeridoo de Paulo Simão, seguido das energéticas incitações de move around & dance tonight de Paulo Melo.

7. A sentida voz de Sílvio quer poder voar e dançar perdidamente em Quero. Luís H. Bettencourt dá o elegante e distinto mote na guitarra eléctrica que serve de base para o aprimorado poema de António Melo Sousa. Combinação perfeita de sons de orquestra com a electrónica dos sons de Mário George.

Hélder Machado

8. Rather Be In Love esconde mais uma apetitosa letra de António Melo Sousa. Eduardo Botelho dá o seu contributo na guitarra eléctrica; os seus solos de assinatura não passam inobservados: enchem o tema de alma e virtude. Destaque para os arranjos exemplares de outro masterpiece da nossa música: Mário Jorge Raposo. Parece-me que os Super-Mário’s da nossa terra nasceram para nos surpreender – na prática, eles já não nos surpreendem; só nos surpreenderiam se nos deixassem de surpreender! Fui claro?

9. O chill-out de Alma Breve merece um louvor duplo. António Melo Sousa mostra-nos o seu lado de silêncios, tanto na escrita do poema como na sua oração penetrante. Deixa-nos “desflorar o terreno fértil dos seus próprios sentidos, reinventa as notas da pauta inacabada de uma balada onde se revê. Frágil, mas inteiro”. Encontrar “trevos com 4 folhas nas trevas” é exactamente o que fazemos quando encontramos este tema. Uma outra óptima sensação é o stereo conseguido no xilofone.

Tentei esmiuçar o trabalho para poder apontar pontos negativos, algo que primo em fazer em todos os meus juízos de valor, mas apenas consigo destacar a enorme necessidade que este disco tinha de ser promovido por uma major label. Este trabalho precisa de ser ouvido no mundo inteiro.

Muitos pontos positivos do trabalho já foram avivados, e passam pela aposta certeira em vários temas na nossa língua, além da inteligência emocional de Mário George Cabral nos arranjos; mas o mais importante, no meu entender, diz respeito às participações de grande qualidade de vários artistas. Os Connection conseguem o que muitos já tentaram: a união de gerações, a junção de estilos, sem preconceitos nem superstições. Este projecto faz uma soma de valores ímpares sem dar lugar à divisão nem a raízes quadradas.

Paulo Bettencourt no seu melhor.

Mais que tudo, as cantigas ficam na aurícula!