Arquivo da categoria: Pavilhão Auricular

O júbilo das artes

A Mirateca Arts colocou os Açores no mapa. Será a Vila da Madalena o palco que, de 19 a 30 de Junho, irá receber artistas de todos os cantos do planeta. Este foi um texto escrito acerca da iniciativa “Descobrir Açores”, que agora partilho com os “ouvintes” do Pavilhão Auricular:

E eis que se acabaram as brumas, levantaram-se as névoas; o céu lavou-se dos flocos de algodão flutuantes e floriu o desfiladeiro para uma passagem aberta. O vento bafeja agora a brisa profícua das mulheres e dos homens que trazem luz ao mundo: os criadores.

??Os olhares encaminham-se para o alto – para o azul-celeste – que acasala com a imaginação dos mestres da criatividade, parece não mais encerrar fronteiras. Os músicos, compositores e maestros da orquestra do infinito interrompem o concerto para ouvir com clareza o som da anunciação da novidade, e os pintores de aguarelas cristalinas levantam as barbas do pincel e sentem as pupilas dos olhos dilatarem para o que há muito esperavam: a luz! Os escultores dão descanso à solda, ao escopro, ao suor, e sentem o calor da descoberta nas peles arrepiadas. Os escritores, os autores e os poetas pousam o lápis no papel, afundam a pena na tinta e saem à rua, ao descampado: querem compreender o acontecimento. O segundo acto não chega a ser terceiro, pois o palco do teatro vê-se desprovido dos actores, actrizes, encenadores e figurantes que atravessam a plateia em direcção ao lado de fora, à multidão. Os desenhistas e desenhadores, arquitectos, ilustres ilustradores ilustrativos deixam os traçados da cartolina e os ecrãs de computador ermos, desamparados, abandonados, e juntam-se à folia da revolução. Os mestres da fotografia e da imagem retratada abdicam do estúdio para se aliar ao júbilo do talento e convidam os cineastas, argumentistas e realizadores da sétima arte a assistir a um filme totalmente diferente, a uma epopeia da criação. O relojoeiro, o artesão e o costureiro abandonam as modas e caminham de braço dado. As televisões emitem zero, as rádios cospem estática, a internet parou, estacou, congelou. Estão todos à espera. Do quê?

Do anúncio. Da notícia que espalha que este é o primeiro dia! Não apenas um dia soalheiro e quente, tão quente como o amor que os criadores derramam no seu trabalho, mas um dia em que essa faina vai finalmente viajar, tomar os palcos do mundo, ver a luz, tornar-se luz! Sentem-se suspensos, leves, de rédeas soltas, e nem sequer o céu pode ser o limite. Nem sequer a luz imensa os pode cegar, porque é de luz e de palmas que eles vivem.

Agora estão preparados: hoje receberam um voto de confiança, uma consagração reconfortante, um repto estimulante. Sabem que o dia de amanhã será diferente, que irá trazer boas colheitas. Pois, se antes viviam de costas voltadas uns para os outros, por desconhecimento ou afastamento, pelo mar que separa os nove ilhéus, pela inoportunidade que vingou ou pelas inconstantes marés revoltas, agora podem encher o peito de ar! E podem soprá-lo aos velames dos seus batéis e transformá-los em caravelas, em naus de guerra. Mas de uma guerra saudável, de uma batalha legítima: a luta pelo conhecimento.

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Mas o que é o conhecimento, o saber, a genialidade de um povo? Não está na sua cultura, nos seus hábitos, nas suas representações? Nas suas artes? Não é o talento que lidera, não é a inspiração do artista que inspira a ciência e o progresso? Não é o palhaço triste que nos faz sentir homens e mulheres humildes? Não é a música que tanto nos faz vibrar e sonhar como chorar? Não é nos livros que está a nossa e a vossa sabedoria? Não é a dança dos cisnes que nos faz voar? Não é o desenho ilusório e o quadro que nos impressiona e nos faz pensar, duvidar? Não são os pensadores que dão origem às ideias? Não é desse pensamento que provêm soluções? Então, o que aconteceu? Porque demorastes tanto tempo a chegar a essa conclusão?

Pois bem. Então, digo-vos: pensar é criar, imaginar é conceber, mostrar é existir. E é apenas isso que os criadores almejam: mostrar. Sempre o quiseram. Os artistas açorianos sempre desejaram desvendar o seu lado primoroso. Agora podem, entre si – e para si. Por isso mesmo, vamos descobrir, vamos descortinar os dons das ilhas. E ao povo declamam: obtende os nossos livros, discos e bilhetes de espectáculo; bradai bem alto e em bom som, profetizai as nossas telas, fotografias e desenhos; enaltecei aqueles que só pedem as vossas palmas!! E nunca, mas nunca esqueçais: um povo sem cultura simplesmente não existe.

Eis que o pano sobe, ouvem-se as palmas, a ovação de pé, o público ao rubro com as emoções da criação. Vão agora desvendar, finalmente perceberam. Vão Descobrir Açores no Fringe Festival!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Junho de 2013
in Jornal Mundo Lusíada (Brasil), 17 de Junho de 2013

O Coliseu Avenida

Coliseu AvenidaE eis que se cantam parabenizações e cânticos sagrados por detrás do pano: faltam quatro primaveras para o centenário! A cortina abriu-se pela primeira vez numa quinta-feira, aos dez dias de Maio de 1917, e na altura não era micaelense, fora baptizado de Coliseu Avenida.

Naquele dia inaugurador, o navio italiano de 78 toneladas “Leone XIII” conheceu o fundo do Mediterrâneo, afundado pelo U-Boat UC 35; nos Açores, um submarino alemão atacaria São Miguel dois meses depois, levando uma vida, semeando o pânico e levantando o alvoroço militar na região. Decorria a Primeira Guerra Mundial há quase 3 anos, e apesar das rezas para que acabasse depressa, ninguém apostava que o seu fim chegasse ano e meio depois. Naquele ano de russas revoluções, também a ousada dançarina Mata Hari fora presa em França: acusada, julgada e fuzilada por espionagem dupla, embora ainda faltasse muito para rodarem os filmes da história dela; não havia DVD e nem sequer VHS: quem quisesse cinema tinha mesmo que meter a sola no chão e ir aos recintos — mesmo que ainda unicamente películas mudas. Em 1917, os livros eram populares em papel, não em formato digital, e o bestseller americano era “Mr. Britling Sees It Through”, de H. G. Wells, apesar de Karl Adolph Gjellerup ter arrecadado o Nobel da Literatura. Foi um ano fértil: baptizou-se o fecho éclair de “zipper”, inventou-se o verniz das unhas, o aquecedor de água eléctrico e o interruptor com comutador. A “Converse Rubber Company of Massachusetts” lançou as All Star, e o basquetebolista Charles “Chuck” Taylor deu a sua assinatura à marca de sapatilhas.

Presidia a um grupo de micaelenses de gema o Dr. José Maria Raposo do Amaral, que encomendaram o projecto do coliseu ao arquitecto António Ayla Sanches, e foi Pedro de Lima Araújo um dos impulsionadores mais caprichosos da sala de espectáculos açórica. Depois, adquirida em 1950 pela Companhia de Navegação Carregadores Açorianos, passou a classificar-se como Coliseu Micaelense, e integrou a “Cinaçor”.

Coliseu Antigo

Depois de uma administração imortalizada de aproximadamente quarenta anos por António dos Santos Figueira, iniciou-se a degradação e o abandono que acompanhou a tendência nacional dos teatros circenses: friamente trocados por cineteatros — mas duraram só até ao início deste século até começarem a ser demolidos. Bom, mas este coliseu aguentou-se pelo menos até 2002, quando o município da cidade o adquiriu à Fundação dos Botelhos de Nossa Senhora da Vida e iniciou o projecto de recuperação. A sociedade anónima avançou com os desenhos da Rogério Cavaca Arquitectos e reabilitou o edifício, com reinauguração no primeiro mês de 2005, seguindo-se a digna direcção de José Andrade.

O preciosismo das famosas cadeiras basculantes em madeira maciça, a versatilidade do formato arena à italiana, a sequência de balcões, as linhas exteriores à moda do Coliseu dos Recreios, os interiores requintados como o seu irmão de Lisboa, os apontamentos decorativos em ferro, a cúpula magistral e os círculos concêntricos do logótipo — tal símbolo de Atlântida perdida —, concedem ao coliseu a mística dele próprio, a magia do espectáculo, a reverberação do café-concerto, a fascinação do circo e a paixão dos bailes carnavalescos. Como se não bastasse, o palco é coroado com esculturas de Canto da Maia, e o pano da boca-de-cena pintado por Domingos Rebelo. Sentir o peso daquele estrado debaixo dos pés é arrepiante, principalmente perante uma casa com 1700 lugares. O Coliseu Micaelense não é só o “símbolo de uma geração”, é também a morada do deslumbramento.

Orquestra de Câmara

E foi nesse ambiente que a Orquestra de Câmara de Ponta Delgada, associada ao Programa Cultural Municipal das Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, brotou em concerto no foyer. Grigori Spektor dirigiu, e Yuri Pankiv flautou Vivaldi em Fá maior, assinalando o começo da organização das vivacidades da orquestra por parte da Quadrivium.

São momentos históricos para juntar ao riquíssimo repertoire museológico da casa. E sim, também ficam na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 31 de Maio de 2013

A brasileira açoriana

Faltava cerca de hora e meia para comemorarmos quarenta anos menos um da passagem do hino histórico de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena” na rádio, em sinal de início de revolução, e já o Teatro Micaelense estava revolucionado. Na segunda sessão consecutiva de casa cheia, Adriana da Cunha Calcanhotto subiu ao palco e recebeu o caloroso aplauso de boas-vindas.

Monumento aos Açorianos
Monumento aos Açorianos

A aclamada cantora e compositora brasileira, também conhecida por Adriana Partimpim, falou da particularidade emocional de actuar nos Açores, principalmente devido às suas origens: Porto Alegre é a cidade-capital do estado de Rio Grande do Sul, fundada por casais açorianos no século XVIII, na sequência do Tratado de Madrid e por ordem do rei português: o “Largo dos Açorianos” ostenta o monumento onde se pode ler “jamais sonhariam aqueles casais açorianos, que da semente que lançavam ao solo nasceria o esplendor desta cidade”. Hoje em dia com quase um milhão e meio de habitantes, a metrópole fundiu-se novamente com as suas origens, desta feita através da música emblemática de Calcanhotto, que confessou ter finalmente percebido o porquê de os açorianos terem escolhido Porto Alegre para viver — “um lugar onde também faz quatro estações num dia”, disse ela.

Filha de um baterista de jazz e de uma bailarina, recebe um violão quando chega à meia dúzia de primaveras e deixa-se influenciar pela música popular brasileira. Enquanto cresce, actua em alguns bares da cidade-natal, no seu estilo inconfundível de “uma mulher e o seu violão”. Lançou “Enguiço” em 1990 e não mais parou, os discos de estúdio seguiram-se: “Senhas” (1992); “A Fábrica do Poema” (1994); “Maritmo” (1998); “Público” (2000); “Cantada” (2002); “Maré” (2008); e “O Micróbio do Samba” (2011). Nos álbuns infantis, iniciou-se com o badalado “Adriana Partimpim” (2004), vencedor do Grammy Latino 2006. Depois, “Partimpim Dois” (2009) e recentemente “Partimpim Tlês” (2012).

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)
Foto: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

O encore trouxe “Fico Assim Sem Você”, depois da enormidade de êxitos que desfilaram entre a doce voz e os dedos teimosos no violão. É incrível como a simplicidade enche recintos! Outro dom que o povo brasileiro tem, além da sonoridade cadenciada do sotaque, é a partilha. Sim, devíamos aprender com eles. Muito banalmente trocam letras, melodias e composições, interpretam-se uns aos outros sem preconceitos.

Enfim, Adriana fica na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 3 de Maio de 2013
in Jornal Paper.li #MPB (Brasil), 3 de Maio de 2013
in Revista Arepa Salsa Jazz (Brasil), 6 de Junho de 2013

O terceiro coração da Viola da Terra

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Cantos de Dutra

E eis que somos presenteados com mais um ano, novinho em folha! Depois de cinquenta e duas semanas de labuta e total entrega – com trunfos e metas alcançadas em alguns casos, expectativas e sonhos defraudados noutros –, cá estamos com outras trezentas e sessenta e cinco oportunidades que nos são oferecidas, de bandeja. É com esse espírito de positividade que o Pavilhão Auricular saúda os seus leitores, e dirige um enorme agradecimento pelo interesse demonstrado em mais um ano de resenhas musicais: muito obrigado!

Raquel DutraTambém passível de ser consagrado numa bandeja – excluindo um bom prato culinário, que desperta os sentidos mais intrínsecos do ser –, é o mais recente trabalho da jovem micaelense Raquel Dutra. No trigésimo dia do undécimo mês de dois mil e doze, as portas vidradas do nosso sublime Teatro Micaelense escancararam-se para deixar passar os ares da música popular açoriana. A apresentação do trabalho “Cantos do Mar e da Terra”, que se previa decorrer inicialmente no Salão Nobre daquela casa emblemática, acabou por se transcrever para o palco principal, tal foi o ajuntamento ao nobre evento. Uma azáfama de povo excitado com o que iria advir inundou o átrio e foi presenteada com uma ainda maior roda-viva: folclore, cantado e dançado de forma distinta, declarada e regada com alegria e boa disposição. A efervescência dos aplausos migrou então para a sala principal, onde nos aguardavam uma guitarra clássica, uma viola da terra e um microfone para a artista intérprete, ermos em cima do palco.

“Teremos espectáculo com tão pouco?”, retumbavam alguns comentários arrojados. Não faziam a menor ideia do que dali viria, certamente. As luzes diminuíram lentamente a sua intensidade, no mesmo compasso em que o tom da conversa reduziu, como se o operador baixasse um fader de volume ao mesmo tempo que o da iluminação. Os músicos tomaram os seus lugares, e a entrada de Raquel Dutra – acompanhada pelo seu característico Bandolim – fez o público vibrar num caloroso aplauso. Depois de uma dúzia de entusiásticos acordes, uma pausa foi orquestrada para a apresentação de Teresa Tomé. Saudou o público com palavras sentidas, calmantes e verdadeiras; falou do projecto e da música açoriana com verdadeiro ardor e paixão.

A viagem que se seguiu foi de puro encantamento e magia. A Viola da Terra mostrou estar em perfeita sintonia com a destreza de Adílio Soares; os dedos do pai, Jorge Dutra, dançaram ritmados e certeiros pelo braço e pelas cordas da Guitarra Acústica; até Raquel conseguiu provar que é possível adicionar a esta amálgama – de si própria, muito rica –, mais um conjunto de cordas: as do Bandolim. E como se não bastasse, como se a magnificência deste trio de cordas não nos embalasse o suficiente, surge a voz. Como descrevê-la? Pela sua polidez, brandura e harmonia? Sim. Pela elegância, distinção e classe? Também. Mas talvez seja melhor o leitor ouvir com a sua própria aurícula para depois dizer se não concorda.

Numa panóplia sentida de música lírica açoriana, esta passa a ser uma obra de referência. Assim o é, não só pela qualidade impressa em todo o trabalho – desde o grafismo digno e incensurável de um maestro das artes desenhadoras, até à produção e edição impecáveis e imaculadas, passando pela execução primorosa dos músicos e da afinação de Raquel –, mas também pelo critério da escolha do repertório. Em vez de compilar temas sobejamente conhecidos da tradição açoriana – o que não faria mal a ninguém –, este projecto tem a ousadia e originalidade de dar corpo a músicas praticamente desconhecidas do quotidiano regional.

O disco presenteia-nos com doze faixas deliciosamente sine qua non do ponto de vista lírico, com origens nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Os arranjos são da autoria dos próprios, mas respeitam as particularidades de cada música, e até a história que a acompanha. Isto merece uma ovação de pé! É um sinal de que ainda há muito boa gente – boa gente, mesmo! – interessada nas nossas raízes. Um grande motivo para que…. a cançoneta fique na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Janeiro de 2013

Sonasfly, o pseudónimo voador

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

Um código para decifrar

Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix e Marisa
Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer – que também é brother in arms – vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012