Carta ao meu jovem de 20 anos

Meu querido,

Escrevo-te de uma distância desmedida. De tão longe que uma década não bastaria para chegares aqui, por mais despachados que fossem os teus calcanhares, por mais ligeiro que fosse o teu cavalo, por mais ágil que fosse a tua nave. Por enquanto, só me consegues alcançar com o teu pensamento, com os teus sonhos — lindos que são, e eu sei….! Sim, eu sei que sonhas comigo, imaginas como serão as coisas…. aqui.

Mas teres que aguardar, até a mim apareceres, seria doloroso demais para ti…. e para mim, também. E o meu ser não almeja que passes por uma delonga; viver não é isso. Viver é estar presente em cada dia, intensamente! É estar ciente de onde estamos e deixar todos os sentidos bem despertos! Não interessa o destino, o caminho é muito mais importante. Por isso, não deixes de saborear cada momento, cada instante, cada beijo! Ama e sente o que tens à tua volta, honra as pessoas, adora quem te merece! E sê forte…. tu és forte!

E quem sou eu? — perguntas tu. Não me conheces. De forma alguma poderias reconhecer-me, hoje. Somos tão diferentes, agora. Mas tenho-te comigo, trago-te sempre dentro de mim. E, cada vez mais, admiro a tua energia, o teu pudor, a tua coragem, a determinação, a paixão, a entrega, o sorriso…. Aiii, o sorriso…. Ele é que nos define aos dois, sabias? Ele carregou dor, mas não a esboça; passou por mágoa, mas não a mostra; viveu batalhas, mas brilha paz; mordeu o escuro, mas desfecha luz!!! Pois, mas agora devo mesmo confessar: quem te escreve é um amigo. Um daqueles que só existem aí dentro, dentro desse coração. Sim, esse cérebro que usas para sentir, essa máquina de emoções, essa bomba que te enche de amor!

Mas descansa, relaxa. Um dia vais mesmo conhecer-me. Mais que isso: vais transformar-te; vais ser o que eu sou: um homem mais sábio — porém, sempre um aprendiz, sempre modesto! Mas tens que saber uma coisa, tens mesmo que saber uma coisa…. Em certos ensejos, em certas tormentas, o teu corpo não vai responder, a tua mente vai enganar-te, trair-te, iludir-te!!! Não tenhas medo. Respira, olha o firmamento e saberás que estás no trilho certo. E porquê? — queres tu saber. Pois, eu digo-te: porque em nenhum momento estarás só.

Dois abraços,
d’um amigo.

P.S.: aproveita bem o tempo com os avós.

Fragmentos muito bem coNNectados

Capa do “Fragmentos”

O décimo mês do ano de 2011 teve um primeiro dia histórico. O projecto de renome CONNECTION lançou um trabalho discográfico: Fragmentos é o nome escolhido para uma colecção de sensações e vibrações reunida numa esbranquiçada bolacha de cd. Desde os temas de Rebirth – que tanto me aguçaram o apetite, em 2008 – que se esperavam novidades da dupla indissolúvel; e cá estão elas! O álbum promete malhar nas rádios; está recheado de brindes, surpresas, desproporções saudáveis, valências emotivas, palavras tocantes e músicos magos na sua arte. Enfim… reune todos os ingredientes para um prato verdadeiramente principal, a servir com os 5 sentidos bem abertos, mas com a audição completamente escancarada!

1. E eis que o pano sobe… Ouvem-se aplausos; e também as primeiras sensações que Clue – o primeiro tema – nos presenteia. Indubitavelmente que Mário George Cabral e Sílvio Ferreira não mostram reasons to be ashamed, antes pelo contrário. Conseguimos perceber a elegância da música electrónica e, mesmo assim, sentir a batida da bateria acústica de João Freitas. O frenesim do wah-wah das guitarras de Tiago Franco e a sumptuosidade dos solos da viola-baixo de Zica hipnotizam-nos e colocam-nos nos ombros da opulência.

Mário George Cabral ao piano.

2. Acto contínuo, entramos num paraíso privado. A feitiçaria das guitarras de Luís Tavares Sousa, Tiago Franco e de Eduardo Botelho fazem-nos viajar num tapete voador. Luís H. Bettencourt escreveu as palavras de Private Paradise que, unidas à força das melodias dos refrões bem conseguidas, nos deixam down to our hands and knees. E já que falamos em posições constrangedoras, não podem deixar de gozar das sensações lascivas que o minuto 2:45 nos oferece. Recomendo.

3. Se já se ouviam louvores no início do álbum, agora há direito a uma ovação de pé: Seres o Meu Amor é algo mágico, viciante, causa mesmo dependência. Não pelo amor propriamente dito, primorosamente espalhado pelos versos de Aníbal Raposo, como se “vaga sobre a vaga” se tratasse – e que bom seria saber a “cor do perfume” –, mas pela amálgama jovial e quase ilusionista da combinação da sua própria voz com a de Sílvio. Outra excelente combinação: os solos patriotas de Eduardo Botelho na guitarra portuguesa seguidos do seu slide gracioso na guitarra eléctrica.

4. Hélder Machado dá as primeiras bordoadas certeiras na bateria – como na maior parte dos temas deste disco –, e abre caminho para a voz irreal e prodigiosa de Vânia Câmara, em As Your Soul Too. Uma nota muito positiva a favor desta intérprete, não que ela precise (já tem provas mais que dadas), mas para os mais distraídos do nosso panorama. Tema deliciosamente escolhido para uma voz cheia de soul!

Sílvio Ferreira

5. Varandas de S. Jorge assenta num concentrado poema de Sidónio Bettencourt. A voz apaixonadamente entorpecedora de São Pontes não precisa de apresentações, e tem aqui mais uma prova da sua singularidade. A inconformidade e a veemência das guitarras de Paulo Bettencourt deixam-nos suspensos. Ao contrário da maioria dos temas deste trabalho, em que António Feijó está muito bem extasiado na viola-baixo, neste tema podemos ouvi-lo no contra-baixo.

6. Temos ritmo, temos paixão e energia… Estamos vivos! Alive arranca com o furor do didgeridoo de Paulo Simão, seguido das energéticas incitações de move around & dance tonight de Paulo Melo.

7. A sentida voz de Sílvio quer poder voar e dançar perdidamente em Quero. Luís H. Bettencourt dá o elegante e distinto mote na guitarra eléctrica que serve de base para o aprimorado poema de António Melo Sousa. Combinação perfeita de sons de orquestra com a electrónica dos sons de Mário George.

Hélder Machado

8. Rather Be In Love esconde mais uma apetitosa letra de António Melo Sousa. Eduardo Botelho dá o seu contributo na guitarra eléctrica; os seus solos de assinatura não passam inobservados: enchem o tema de alma e virtude. Destaque para os arranjos exemplares de outro masterpiece da nossa música: Mário Jorge Raposo. Parece-me que os Super-Mário’s da nossa terra nasceram para nos surpreender – na prática, eles já não nos surpreendem; só nos surpreenderiam se nos deixassem de surpreender! Fui claro?

9. O chill-out de Alma Breve merece um louvor duplo. António Melo Sousa mostra-nos o seu lado de silêncios, tanto na escrita do poema como na sua oração penetrante. Deixa-nos “desflorar o terreno fértil dos seus próprios sentidos, reinventa as notas da pauta inacabada de uma balada onde se revê. Frágil, mas inteiro”. Encontrar “trevos com 4 folhas nas trevas” é exactamente o que fazemos quando encontramos este tema. Uma outra óptima sensação é o stereo conseguido no xilofone.

Tentei esmiuçar o trabalho para poder apontar pontos negativos, algo que primo em fazer em todos os meus juízos de valor, mas apenas consigo destacar a enorme necessidade que este disco tinha de ser promovido por uma major label. Este trabalho precisa de ser ouvido no mundo inteiro.

Muitos pontos positivos do trabalho já foram avivados, e passam pela aposta certeira em vários temas na nossa língua, além da inteligência emocional de Mário George Cabral nos arranjos; mas o mais importante, no meu entender, diz respeito às participações de grande qualidade de vários artistas. Os Connection conseguem o que muitos já tentaram: a união de gerações, a junção de estilos, sem preconceitos nem superstições. Este projecto faz uma soma de valores ímpares sem dar lugar à divisão nem a raízes quadradas.

Paulo Bettencourt no seu melhor.

Mais que tudo, as cantigas ficam na aurícula!

O berço

É com enorme contentamento que a minha mente debita estas palavras tão singelas através das minhas falanges. O berço desta publicação virtual está mesmo aqui. Quem de vós espera algo de mim, não deve esperar senão a sinceridade e a transparência nas minhas palavras. De tão eloquentes que possam parecer, não mostram mais do que uma lufada de ar quente na minha face, mostram tudo e não mostram nada.

A escrita despertou quando a alma acordou. No momento taciturno em que se procuram respostas a perguntas triviais, o ser encontra nas artes uma forma de expressão e uma saída para o que julga ser um labirinto: a vida. Mas não deixa de esbarrar contra becos e outros entroncamentos. Qualquer que seja o caminho, o certo ou o errado — venha dizer-me quem sabe discernir —, o que interessa é a jornada, são as passadas que o nosso corpo dá no chão movediço. São esses passos que nos levam onde queremos e onde não queremos, dependendo de como estamos, dependendo de como nos deixam estar e ser. Ou não. Em lances de força, somos nós que decidimos? Assim acredito. E é nesses momentos que sabemos que somos donos de nós próprios, nunca do destino, mas de nós próprios. Sendo a ferida impossível de evitar, ao menos possamos saber tratá-la.

O leitor tem aqui um espaço onde pode divagar — comigo ou sem-migo —, onde conhecerá mais algumas páginas do que escrevo e do que vos dedico. Tal como para um músico, que encontra o deleite nos aplausos, espero suscitar-vos sensações através das palavras e receber de volta na forma de emoções, sorrisos e lágrimas; ouvir os aplausos através dos vossos testemunhos.

Um abraço,
Pedro Almeida Maia