Bom Tempo no Canal em Londres

Setembro de 2012: a “Conspiração da Energia” acercou-se das terras de Sua Majestade, e o canal do Rio Tamisa deixou-se sulcar pelo bom tempo. Romperam-se prenoções, quebraram-se fronteiras, traçaram-se novos objectivos e (re)definiram-se metas – daquelas realistas. Impulsionou-se o gosto pela literatura do Atlântico Norte junto das comunidades lusitanas, naquele que foi o primeiro esforço fora do arquipélago na promoção desta obra de ficção.

Sendo o destino a metrópole britânica com quase catorze milhões de almas – mais do que toda a multidão que o país à beira-mar plantado alberga –, as expectativas foram propositadamente alinhadas com o quase nulo. Numa nação em que a cultura é uma prioridade, em que os livros não estão sequer sujeitos ao guilhotinamento de certas taxas – cujo único valor que acrescentam é mesmo o valor acrescentado –, deslocar debaixo do braço meia dúzia de exemplares de uma obra literária portuguesa e fazê-la chegar a pessoas de boas causas pode até parecer tarefa simples, mas acarreta também dissabores e barreiras. Num país em que um volume custa quase metade do que nos é habitual, e em que se cruzam criaturas a ler Erika L. James nos autocarros e J.K. Rowling no tube, passar-lhes uma publicação localmente galardoada e traduzir-lhes a sinopse em dois minutos, podia perfeitamente ser um desastre com hora marcada. Podia até vir a ser anunciado na Torre do Relógio – a partir de agora, Elizabeth Tower –, e badalado pelo sino de treze toneladas de alcunha Big Ben.

Mas não foi assim. Todas as barreiras foram transpostas. Como sempre, o que interessa não são as instituições, as empresas, as lojas, as bibliotecas ou mesmo as nações. São as pessoas.

Mesmo sendo apenas mais um, num mundo de mais de oitenta mil visitantes que passam diariamente por Londres – fazendo da capital do Reino Unido a mais visitada do planeta, com uma população flutuante de trinta milhões por ano –, tudo se proporcionou. Talvez os exemplares simbolicamente deixados nas bibliotecas, nas livrarias e com certas individualidades não signifiquem mais que isso mesmo, ou talvez até venham a provar o contrário, quem sabe? Mas, a imprensa lusa acompanhou, esteve atenta, fez perguntas, aconselhou, deu destaque, reportou…. Tudo apontou na direcção certa. De um ilhéu para uma ilha maior, passou uma energia diferente, renovada e confiante. Com agrado, as vozes portuguesas fizeram-se ouvir e, com alento, a obra de ficção insular passou a um outro patamar.

Pois bem. Então, a mais bela notícia, e talvez a melhor singularidade, esteja ligada a mais uma barreira que vai agora ruir, entre tantas outras que se têm desintegrado nos últimos tempos – por vezes indetectáveis aos olhos do menos atento. Se os ventos londrinos soprarem na direcção certa, se o bom tempo deixar enxergar algo mais avante, teremos o início de mais um desafio. Um propósito que não teria chegado a ver a luz do dia quando as primeiras palavras do Bom Tempo no Canal estavam a ser passadas para o papel: a sua tradução. Sim, o manuscrito na língua de Camões vai ser traduzido para a de Shakespeare.

E ao mesmo tempo que por aqui se esmiúça toda a arqueologia do segundo livro – que fará a sequela deste primeiro –, ver o bom tempo transformar-se em algo tangível ao globo inteiro, assistir à passagem desta ficção açórica para o inglês nos próximos meses, poderá ser o começo de algo novo, verdadeiramente engrandecedor. Algo que só pode ser reconhecido com um sincero OBRIGADO aos leitores, retribuindo com um verdadeiro abraço de agradecimento pelo carinho que tem chegado ao lado de cá.

Na baía com…. Bárbara Azevedo

Estávamos no fim de tarde do vigésimo nono dia do sexto mês deste ano de dois mil e uma dúzia. As luzes do confortável Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada baixaram a sua agudeza para deixar brilhar uma ainda mais forte: Bárbara Azevedo. O sopro do piano encheu a sala de forma hipnótica e a voz afectuosa da oriunda da ilha cinzenta encheu a alma dos presentes com as letras de Torna Viagem, do nosso grande Zeca Medeiros. No final, ao se dirigir algumas palavras a esse homem notável da cultura dos nossos ilhéus, que assistiu à actuação, confessou ter admirado a prestação e a forma como o tema foi adaptado pela cantora.

Bárbara Azevedo, ao vivo no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

Alguns dias mais tarde, numa esplanada da baía das Portas do Mar – onde os Anjos se passeiam –, estava eu sentado nas cadeiras escuras, patrocinadas por uma bebida qualquer. Assinalei com o indicador direito ao empregado para me trazer um descafeinado cheio e olhei a marina. Apreciei o movimento sereno de uma embarcação à vela que irrompia pelo porto da cidade e respirei fundo aquele bom tempo na baía. Era um dia soalheiro e perfeito para uma conversa informal com Bárbara. Tínhamos combinado falar um pouco acerca do seu percurso, e eu estava bastante curioso quanto ao que ela teria para dizer. O empregado trouxe a bebida quente desprovida de cafeína, que consumi em quatro ou cinco sorvos. Olhei o visor do telemóvel: “Estou a chegar”. E chegou mesmo.

Bárbara tem muitas qualidades, mas a sua humildade e simpatia deixam qualquer pessoa empática logo num primeiro contacto. Depois dos cumprimentos da praxe, dos beijinhos e do “como tens andado?”, olhei o gravador.
— Importas-te que grave a nossa conversa? — perguntei.
— Não, claro que não — respondeu ela, sem cerimónias.
Pressionei o botão que tem uma circunferência rubra inscrita e deixei o dispositivo pousado ao centro da mesa da esplanada.

Bárbara Azevedo, vencedora do Festival “Baleia de Marfim” nas Lajes do Pico no ano de 2000.

— Em relação ao teu percurso na música, para percebermos onde se enquadra na tua vida, queria entender um pouco do teu passado. De onde vens, o que trazes contigo na bagagem….
— Eu sou natural do Pico. Toda a minha família está lá, as minhas raízes. Quanto à música, os meus pais dizem que até antes de falar, comecei a cantar primeiro! — riu-se. — Comecei no Pico, a participar no Festival Baleia de Marfim. Com cinco anos, primeiro fui para o Corvo; depois, com sete anos, comecei a participar como concorrente e, em 2002, fui vencedora no Festival Baleia de Marfim. Vim à Caravela de Ouro, na Povoação, e também fui vencedora; fui à Figueira da Foz e também ganhei os prémios todos que haviam a nível nacional — mais risos.
— Fantástico! — ainda agora tínhamos começado, e já eu estava impressionado.

— Ainda fui à Madeira com essa música (Quando Eu For Grande), só como participação especial. Depois, quase que já passava da validade — deixou escapar mais risadas —, da idade mínima para participar no festival. Participei só mais um ano, fiquei em segundo lugar, e vim como participação especial aqui a São Miguel. Após isso, fiz uma primeira actuação aos onze anos lá na minha freguesia (sorrisos). Ainda não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo, foi só uma actuação “tocada” (risos). O meu pai ajuda-me a fazer o repertório, e é uma das minhas grandes influências nas escolhas, porque desde pequena que convivo com música lá em casa: o meu pai toca viola, a minha mãe também canta e toca viola.

— As letras que tu interpretaste nesses concursos eram escritas….?
— Foram escritas pela minha mãe — interpelou a cantora.
— Pela tua mãe? — a retórica só significava que eu estava perante apenas um dos membros de uma família talentosa.
— Pela minha mãe — repetiu Bárbara, com orgulho nos olhos.
— Então tens, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe, influências a esse nível? — questionei.
— É, é — confirmou ela. — Tanto eu como a minha irmã, concorríamos com músicas em que as letras eram escritas pela minha mãe — pois é: a irmã também canta!
— E como é que vieste parar aqui, a São Miguel?
— Fiz o secundário lá, fiz até ao décimo primeiro ano…. depois resolvemos vir todos numa aventura. Estive a fazer o décimo segundo ano, quando decidi entrar para a Globalpoint Music. Já tinha feito até ao quinto grau de conservatório no Pico, no curso de piano; depois de chegar aqui não quis ir logo para o conservatório. Já era um ambiente novo, professores novos, escola nova…. era muita coisa nova, e ter mais a responsabilidade do conservatório…. então, decidi tirar um ano para me divertir, na Globalpoint…. (sorrisos).

— Mas tens planos para ingressar no conservatório, aqui?
— Eu continuo lá, vou agora para o oitavo grau, mas penso que…. não vou seguir a área clássica. A única coisa que vou fazer é tirar algumas bases importantes, que são precisas para depois adaptar para as minhas músicas.

Participação especial no Festival da Madeira 2001.

— No ensino secundário, qual foi a área que seguiste, só por curiosidade?
— Foi a área de ciências. E agora estou a tirar enfermagem, aqui em São Miguel. Vou agora para o terceiro ano. Já sou metade enfermeira — deixou escapar um sorriso.
— Como achas que vais conseguir tratar melhor as pessoas: como enfermeira ou como artista ligada à música? — não pude resistir em lançar a pergunta.
— Não sei, tenho essa dúvida…. (risos) às vezes penso que se juntasse a parte de enfermagem com a musicoterapia, as coisas davam certo! (risos) — e eu também concordei!

— Agora, a Bárbara Azevedo aparece em São Miguel…. um pouco mais madura, não é? Já não são aqueles festivais em que participa malta mais jovem…. Começas a aparecer junto dos grandes. Qual é a sensação?

— É uma sensação muito boa, porque isto aconteceu tudo muito depressa: comecei a compor algumas coisas em Setembro do ano passado, algumas letras…. comecei a arranjar algumas melodias, e as coisas parecem-me que sairam mais ou menos (risos)…. — cá estava a Bárbara a ser modesta. — No Natal dos Hospitais, fui convidada a ir apresentar um dos meus temas e o feedback foi muito bom! Apresentei só um original com piano e voz, que depois começou a passar na rádio! Após isso, fui à Globalpoint gravar um outro original, também para circular, mas numa vertente diferente: uma banda completa para também dar um pouco mais de mim, como artista. Começou também a passar na rádio e comecei a ser convidada para algumas entrevistas.

Actuação ao vivo no dia 25 de Abril de 2012 nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada.

— Qual é a diferença entre tocar sozinha e tocar numa banda? — uma das perguntas da praxe.
— É completamente diferente. Dá-me agora outra perspectiva de como é que eu posso agora compor as músicas, porque quando compus a Old Picture, foi só em piano e voz, nunca pensei que pudesse ter aquele resultado. Fiquei muito satisfeita!
— Mas notas uma diferença só em termos de composição e orquestração, ou também em termos do produto final?
— Em termos do produto final também! — confessou. — E penso que o feedback também é diferente, porque já tive várias perspectivas: até mesmo o cover de Pedro Abrunhosa; pessoas que gostam mais de me ver na vertente da Old Picture do que numa vertente mais acústica. Isso também é importante para mim: ver o feedback das pessoas nesses vários estilos.
— E em qual das perspectivas te sentes mais à vontade?
— Nas duas — assentiu com a cabeça, confiante. — Sinto-me à vontade nas duas.

— E a tua relação com o piano, qual é? — a relação de um músico com o seu instrumento é sempre única.
— Ah!, a minha relação com o piano é…. eu digo que…. se passo um dia sem tocar piano, acho que fico com sinais de privação! — soltou uma gargalhada. — Não, eu tenho uma relação muito boa com o meu piano!
— Muito bem. Já percebi isso, já vi que és uma aficcionada das teclas, mas também tocas outros intrumentos, ou não?
— O meu pai ensinou-me a tocar viola, também arranho qualquer coisa nessa área. Mas o que eu gosto mais é do piano e da voz: o tocar e cantar é…. é quase como a cereja em cima do bolo!

— O teu percurso neste momento é: compor, escrever…. e a seguir? — vamos lá a falar do futuro.
— Isto está tudo num processo de maturação. Para além dos dois originais que já lancei, tenho cerca de mais nove ou dez. Quero que eles amadureçam e que eu também amadureça mais um bocadinho; tenho também o sonho de lançar um trabalho meu: talvez daqui a dois anos…. vamos ver como as coisas correm! Estou a ver se consigo encontrar alguns patrocínios; de momento, os originais estão a ser patrocinados pelo pai e pela mãe! (risos)…. e a divulgação destas músicas tem também esse fim: ver se alguém se interessa pelo meu trabalho, e que queira patrocinar parte dele.
— Quando falas em gravar, noto esse obstáculo que é o mesmo da grande maioria: o financeiro!
— Em relação ao financeiro…. eu também não gosto de gravar como se fosse “ao metro”; gosto de fazer um trabalho, limar arestas e quando vejo que está pronto, tenho a preocupação de o mostrar primeiro aos meus pais e amigos mais chegados, para me darem mais algumas dicas. Com esses originais, consigo também receber o feedback das pessoas; se estão a gostar realmente e se vale a pena ir para a frente com o trabalho.

Bárbara Azevedo em actuação.

— A experiência em estúdio?
— Ah!, a experiência em estúdio! Foi…. — o rosto de Bárbara iluminou-se com um enorme sorriso. — Eu estava maravilhada naqueles dias em que fui gravar para o estúdio (mais risos), gostei imenso daquela experiência! Nunca tinha ouvido a minha voz gravada….
— Não?!  — admito que fiquei surpreso.
— Não, nunca tinha ouvido a minha voz gravada.
— Mas com tantas actuações, com tantas participações em concursos….?!
— Nunca tinha ouvido assim…. a minha voz! A primeira vez foi com Luís H. Bettencourt, que foi excelente nesse aspecto; gravámos o tema The Truth, que apresentei no Natal dos Hospitais, e fiquei maravilhada com tudo…. Depois, na Globalpoint, também com a gravação em estúdio…. E para a próxima semana vou gravar mais um tema lá.
— Então, mas preferes ver um tema acabado para depois começar outro, é assim?
— Sim, exacto. E vou também divulgando mais alguns covers; agora, não vou lançar mais originais. Lancei estes dois em vertentes diferentes; vou lançar alguns novos no meu canal do YouTube, penso que são esses que dão mais projecção…. músicas conhecidas na minha própria versão. Os originais que eu for gravando, vou guardando para depois, para o lançamento do trabalho.
— E por falar em covers, qual foi a sensação de tocar em frente ao grande Zeca Medeiros?
— Ih!, (risos)….
— E como se isso não bastasse, um tema dele?
— Foi uma sensação muito boa! É claro que é mais responsabilidade, estar a tocar para o compositor daquele tema, mas foi uma sensação muito boa!
— Ele manda-te um abraço e transmitiu-me que adorou a tua versão! Acho que isso quer dizer alguma coisa, e estás de parabéns!
— Obrigada! É esse feedback que uma pessoa procura sempre quando faz as actuações, e fico muito contente por ele ter gostado da minha versão e da minha voz, mesmo estando constipada como estava naquele dia.
— Mas saíste-te muito bem! — saíu-se mesmo!
— Obrigada!

— A tua ambição, como açoriana, independentemente de seres picoense ou não, é chegar onde?
— Bom, costuma-se dizer que o céu é o limite, não é? Vamos tentar chegar o mais alto possível, mas com os pés bem assentes no chão, e tudo o que vier é bom! Não vou estar com ilusões, que quero ser um êxito a nível mundial, não é?
— Estás a conseguir equilibrar as tuas prioridades? Estudos, família e música?
— Estou a conseguir conciliar. É claro que, às vezes, é um pouco difícil, com a responsabilidade do curso de enfermagem, e com o conservatório, e ainda pôr algumas composições pelo meio, mas penso que tenho conseguido gerir bem as coisas, e sinto-me bem a fazer ambas as coisas: a enfermagem e a música.

— Sabes que nós, açorianos, temos uma certa tendência para as artes…. Há uma grande fatia de gente que se dedica a todo o tipo de artes. O que achas que o açoriano tem que os outros não têm para seguir por essas áreas?
— Se calhar esta vida em arquipélago…. E notei muita diferença quando vim aqui para São Miguel, porque lá no Pico temos muito mais proximidade com as outras ilhas. Acho que a nossa ideia de arquipélago no grupo central é diferente da ideia de arquipélago aqui em São Miguel.
— Achas que aqui, apesar de ser uma ilha maior, existe uma distância maior entre as pessoas?
— Parece-me que sim, mas não quero fazer juízos de valor….
— Mas já te sentes em casa?
— Sinto-me. E quando me perguntam de onde sou…. quando digo que sou do Pico, apetece-me dizer que já sou metade micaelense (risos). Sinto-me muito bem aqui, em São Miguel.
— Continuando nos teus objectivos: não ponderas a hipótese de pôr um pé fora dos Açores? Nem que seja para promover o teu trabalho ou para algum tipo de formação mais específica….
— Por acaso, tenho pensado nisso ultimamente, porque aqui em Portugal, ou se é muito bom para se vingar no mundo da música, ou se tem muita sorte. É claro que tenho noção de que, se for para outro meio, vai ser muito mais agressivo e a exigência vai ser maior. Vou ver com o tempo o que se vai fazer. Por enquanto vou ficar cá.
— Um passo de cada vez.
— Exactamente.
— Muito bem. Muito boa sorte, Bárbara!
— Obrigada!

A ilha do Pico já nos presenteou com muitas obras de arte, mas esta é especial. Bárbara Azevedo está a marcar um novo fôlego nesta geração de ouro da música açoriana e portuguesa; não apenas pelo dom natural que a sua voz tem, mas também pelo percurso invejável conseguido até agora, tanto em termos de formação, como de reconhecimento obtido. Bárbara controla a respiração muito bem, de forma natural, e tem um vibrato bem dominado e mavioso! No tema cujo vídeo está acima, Old Picture, a ligação com os metais parece ser um dos caminhos a seguir. Vejo também alguns apontamentos do estilo da Broadway interpretados por ela, mas tudo dependerá de onde melhor ela se sentir.

Apesar do seu percurso, Bárbara Azevedo ainda tem alguns obstáculos a ultrapassar. A sua juventude retira-lhe um pouco de mérito — embora eu discorde, é assim na nossa sociedade —, mas esta compositora e excelente intérprete precisa de obter reconhecimento e de se afirmar, mais ainda! Seria também muito interessante para a artista uma experiência fora destes nove ilhéus: vejo-a numa jornada de um mês em Londres, Sydney, ou mesmo Nova Iorque (quem sabe com umas dicas da nossa associada Melissa Cross?). Não devemos ter medo de explorar os mares nunca dantes navegados, até porque, no caso de Bárbara Azevedo, ela conhece bem o seu porto seguro!

E não há dúvida que esta voz ficou-me mesmo…. no Pavilhão Auricular!

in Jornal Terra Nostra, 10 de Agosto de 2012

Degraus de palha

Vejo degraus de palha; dirigem-se para o cerúleo do céu, pintalgado com rasgos de branco. Subo às nuvens e sento-me, olhando de cima o que está por baixo; ao mesmo tempo, sei que não estou acima de rigorosamente nada; mas não estou só, também o sei. Balanço com o vento e deixo-me levar pelo encanto de um canto: alguém canta? É uma melodia que me seduz, mais não seja pela ternura das palavras, proferidas com tão bela harmonia e sentido…. sinto que me convém que o sentido das coisas faça mesmo algum sentido; não existindo sinal dele, perco-me do trilho.

Levanto-me e caminho. Sinto as nuvens acariciarem-me os pés, agora descalços. Qual algodão? É como andar em cima de pura seda, mas em que o corpo não tem peso e o tecido não está a cobrir nada, simplesmente flutua! Alguns passos são mais certeiros que outros, mas tenho a certeza que não caio; é como se uma mão gigante — mas meiga — me estivesse a orientar por baixo de mim.

Sigo em direcção dos fonemas cantados. São lindos, mas não distingo nenhum dialecto; serão sílabas soltas? Vocábulos dispersos, sim. São o que são! Hipnotizado com a doçura dos lábios — que só podem ser femininos! —, e que parecem soltar as cadências propositadamente para mim, avisto movimento. Parece-me subtil, por estar distante. Mas, num relampejar, está ao pé de mim! Já os tinha visto: em sonhos. Um unicórnio de imaculado pêlo liso, branco. Dá mais três galopes, dois trotes e estaqueia ao pé de mim. Os olhos profundos, do tamanho de bolas de golfe, estão sedentos por saber, curiosos por descobrir. A cauda reluz brancura, mas reflecte uma aura violeta que me conquista. Num sinal inconfundível, com o pescoço, convida-me a subir. Subo? No momento em que a palma da minha mão nua acaricia-lhe a nuca, uma sensação de liberdade envolta-me e revolta-me! Ele revolta-se também e dá mais um sinal impaciente de que não há tempo a perder. Aninha-se à minha frente para me deixar subir.

O galope é consistente, mas não fere, não violenta. É harmonioso, afectuoso, permite-me abrir os braços e atender ao brilho da luz do dia; fecho os olhos e permito-me ser banhado pelo calor dos raios do Sol; deixo o vento soalheiro cortar a minha face e volto a ouvir…. a voz! Estou mais perto, sei-o.

Enxergo um altar feito de nenúfares. Não há lagos no céu, mas os nenúfares parecem ondular acima do chão algodoeiro. O unicórnio abranda e deixa-me deslumbrar com o resto. Não posso acreditar: os meus olhos só me podem estar a enganar. Uma sereia?!

Mermaid Mistery, by FairyEssence

O seu corpo refulge e desvenda uma silhueta, perfeita demais para ser verdadeira. O seu ventre orna curvas redondas e completas. Uma obra exímia. E a voz? Quando desço do equídeo singular, cala-se. Deixa de olhar para o infinito acima de nós e desce os olhos celestes até aos meus. Não abro a boca. Simplesmente fico…. e, na mesma doçura, como até agora cantava, ela profere:

— No agreste momento em que despes as caras que já trajaste, ficas só com a tua própria. Deixas de fora preconceitos, pré-conceitos e crenças; a cognição da tua arte expressa-se numa dança de espectros, invisíveis aos mais distraídos — passa os dedos maravilhosos pelos cabelos em tom de mel. Olho-a com serenidade, mas sequioso por mais palavras. Ela sabe disso, e continua: — O teu saber vibra como um todo, espalha-se pelo ar, derrama-se pelo chão. Agarra cada momento desses: muda-o, transforma-o; deixa-o invadir-te e aceita o que te oferece. Rende-te ao universo, permite-te viver, rir, sofrer e chorar. És um ser vivo: por isso, vive!

Abro os lábios e levanto o braço para lhe dirigir uma questão, mas…. os nenúfares escondem-na e levam-na subitamente: para baixo. Umas escadas mostram-se à minha frente, no lugar do altar. Os degraus são a descer, mas não são de palha….

São de nenúfares. Está na hora de voltar.

Rui Veloso e a minha guitarra

Zeca Medeiros

Então, o que terá a minha Guitarra Portuguesa em comum com Rui Veloso? O Fado Insulano…. E o que têm os quatro minutos e meio do Fado Insulano em paralelo com um pouco de Rui Veloso? O grande Zeca Medeiros. E a dita guitarra, o que tem a ver com tudo isto? Esteve nas mãos – e nos dedos – do mágico Eduardo Botelho.

Sim, amo a sonância de uma Guitarra Portuguesa, e atirei-me completamente de cabeça quando a vi. Foi amor ao primeiro acorde! Não sou suficientemente digno de a ostentar, e não tanto expedito para a tocar como aprovaria. Fico-me por alguns solfejos tímidos de quem se fica também pela meia dúzia das ditas normais cordas de uma guitarra. Mas não deixo de palpitar com o seu timbre, por isso abracei-me…. à Guitarra Portuguesa. Mas ela agora é especial. É o meu elo à grande música, um marco à mestiçagem perfeita de alguns dos meus ídolos.

E eis que sobe o pano. Paulo Borges enceta com uma simples mas sentida melodia nas oitenta e oito teclas do piano, e mantém-se exemplar, criativo e sentido até ao culminar. Unissonante, entra no palco desta curta-metragem musical, o vertiginoso Jon Luz e a sua viola acústica. Apresenta-nos também o seu criteriosamente tocado cavaquinho, que nos embala numa cadência vacilante.

Mais um pano se abre, agora para a profunda voz insulana do meu estimado José Medeiros, mais célebre por Zeca no seu vasto – e amplo – universo das artes. E aqui está o maior desafio que se me podem colocar: articular por vocábulos a unicidade da sua voz. Mas aceito o repto – com orgulho! Essa voz é…. inenarrável, inexplicável e indescritível! Pronto, e com três adjectivos unívocos, safo-me. Assim, não preciso de explicar como a dicção espectaculosa se alia à sensação e à narração gravemente pulsante; nem como a rouquidão ressaltada nos agudiza, tal conto de fadas acerca dos nossos fados. Melhor descrição, só mesmo o que o próprio escreveu nesta cantiga: “nas vozes de veludo que a noite insinua, vem rasgar, doce falua, meu amargo cancioneiro”. Veludo? Do mais inacessível e raro. Na escrituração e composição maestrina desta obra de arte. Amargo? Talvez no pesar das palavras. Mas se nos tocam, também o somos.

Rui Veloso

Temos estrelas no céu, ao contrário do que muitos possam dizer. É o inigualável Rui, que de Veloso também o encantam. E o homem que dispensa apresentações, diz que o “meu canto ainda ecoa no cais das descobertas”, e sabemos bem que ele vai bradar muito para além do Porto Côvo. Ainda mais quando proclama que “só meu fado ainda perdura”. Já é eterno. Mas as surpresas por aqui não se deixam ficar.

O meu camarada Eduardo Botelho colocou toda a sua destreza no braço de lenho que guia o rumo dos doze fios reluzentes da minha estimada guitarra portuguesa, e transportou-nos no tempo, para uma mistura das nossas raízes com a contemporaneidade. Faz-nos arrepiar. Se ele já é um homem dos sete ofícios, também é o homem das sete guitarras.

E com Fados, Fantasmas e Folias vos deixo. Deixem-se enfeitiçar com esta gravação que ligou Vale de Lobos a Ponta Delgada. Enamorem-se com o “compasso de lonjura”, nos sobressaltos de viagens em “canoa baleeira”, em esteiras “que querem beijar o Tejo”, e deixem-se ficar prisioneiros.

Eu fiquei. E a cantiga ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Setembro de 2012

O relógio bateu as horas

O céu de Londres mostrava o seu lado escuro, como se pincelado a carvão. O alcatrão molhado espelhava o luar tímido e denunciava a chuva que acabara de diluir a metrópole. James Worth arrumava, no bolso das calças de fazenda cerúleas, um estranho envelope dourado.
«Onde se meteu o gajo?», matutou, enquanto subia o fecho do casaco em tons de cinza, rodeando a sua vasta pança.

Um típico Hackney Carriage guinchou os pneus ao descrever a afunilada curva em cotovelo da Great College Street, em direcção à Tufton Street. O simbólico táxi londrino abrandou bruscamente e estacou no lado esquerdo, em frente ao número sete — Faith House: The Society of the Faith —, onde esperava o inglês, tremendo com o frio e bufando vapor de água. A porta traseira abriu-se para a retaguarda do veículo.

— Entra, James! — gemeu uma voz de dentro do habitáculo.
A imagem do interior do carro era penumbra, mas James alisou a barba loira, franziu a testa e esfregou as mãos, aproximando-se.

— Duarte, és tu? Posso entrar? — respondeu.
Ao meter a cabeça dentro do habitáculo, sentiu uma mão poderosa puxar-lhe pelo casaco. O terror invadiu-lhe as narinas: fumo de charuto. Caiu de queixo no assento de trás, sentiu o carro arrancar bruscamente, e o vento a gelar-lhe os pés, ainda de fora da viatura. Uma curva à direita obrigou-o a agarrar-se às pernas do companheiro de assento, para não sair disparado pela porta. O carro endireitou-se, James sentou-se e ouviu a porta fechar-se por si.

— Tens cá um estilo nas tuas aparições, Duarte….! – ironizou James, enquanto desenrugava o casaco, como se nada fosse.
— Meu amigo, apareço sempre como posso, e hoje estamos com pressa.
—You bloody bastard!, estás sempre com pressa! — gesticulou James, indignado.

Um telemóvel vibrou insistentemente no bolso de Duarte. Os seus pequenos olhos castanhos iluminaram-se com um sorriso dirigido a James.
— São eles! — proferiu, com ar sinistro. — Tens a mercadoria contigo?
James anuiu e meteu a mão no bolso. Retirou o misterioso envelope.
— Estou sim? — atendeu Duarte, passando a outra mão pelo cabelo encaracolado em tons de cobre. — Sim, percebo… Okay, assim será!

O telemóvel regressou ao bolso, mas o sorriso de Duarte desvaneceu-se. James aprecebeu-se do olhar fugaz do condutor pelo espelho retrovisor. Não deu importância.
— Aqui tens — falou, enquanto lhe passava o envelope. – Tens noção da importância disto? Fazes ideia de quantas almas esperam por isso?
— Tenho, James…. tenho noção – respondeu Duarte, enquanto levantava o sobrescrito, como se de um troféu se tratasse. — Hahahaha!

James olhou-o com estranheza e repugnou-se com as suas gargalhadas arfantes. Voltou a ajustar o casaco e a endireitar a sua posição de sentado.
— E a minha parte? — murmurou, cruzando os braços. — Quero a minha parte!

Duarte mirou James com um sorriso maquiavélico. Olhou novamente para o que segurava nas mãos. Levantou a cabeça e respirou fundo, enquanto arrumava o invólucro de papel no bolso esquerdo do sobretudo negro.
— A tua parte está aqui, James – anunciou Duarte, enquanto punha a mão destra no bolso contrário.

Retirou do bolso uma Colt Python de calibre .357 magnum e apontou-a à testa de James. O condutor olhou seriamente pelo retrovisor e acelerou ligeiramente.

— O relógio bateu as horas, James Worth! – armou o revólver.

James arregalou os olhos….

Carta do meu brinquedo

Quanto tempo, quantas horas passámos juntos? Quantas vezes me fizeste pulsar com a tua energia de pupilo, de menino? Aguardava, no meio do chão atapetado do teu quarto semi-arrumado, ansioso pela tua chegada; ou, então, na prateleira do escaparate de pinho, entre livros e outros idênticos a mim. Não me importava quando não me escolhias: simplesmente observava, simplesmente aguardava. Por ti.

A chuva molhava os vidros baços, escondidos atrás das cortinas tom de mel, e eu esperava. Os sons das brigas e das risadas, ouvidas nos outros quartos, tresandavam a inveja minha, sempre quieto no meu lugar: simplesmente esperava. Por ti.

Por muito tempo vi-te entrar e sair dali, umas vezes risonho, outras tristonho, muitas vezes com um sonho, quase sempre desenfadonho! Quando olhavas para mim, eu palpitava; Quando não me vias, eu arfava; Quando querias algo que ali não estava, estava eu. Simplesmente à espera. De ti.

Mas sim, dias haviam que não te menosprezavas e carregavas nos meus botões como quem procura um significado, revoluteavas as minhas rodas como quem sabe para onde vai, como quem tem destino traçado. E o mais giro? O mais giro era o som que os teus lábios emitiam. O simular de um motor em marcha, próprio de um rapaz da tua idade. Um “brrrunhido” em que o ar passava-te por entre os dentes, que faziam tremer os teus lábios numa sinfonia estridente, com pedaços de cuspo a respingar-me a carroçaria.

Por agora já te deves recordar. Por agora já deves sentir que te lembras desses tempos. Dos tempos em que nada te metia medo, nem mesmo o escuro do quarto, nem sequer as sombras na tua mente. Éramos vivos, vivaços! Mas não te esqueças que, o que fomos, ainda somos. Não te deixes levar pelas cabeçadas que deste e pelos riscos que tem a minha chaparia. Posso ter a suspensão estragada, os pneus maltratados e os vidros quebrados, mas ainda estou aqui.

Onde? Que bem que perguntas. Estou na gaveta do teu mesmo quarto, na mesma onde me deixaste; só que agora na garagem, no meio da outra tralha toda. Mas deixa a tralha. Vem buscar-me. Só a mim. Vamos ser outra vez.

Nunca partiste um vaso

Silêncio. É o que ouves à noite. Quando te deitas, e aprecias esse mundo que criaste, é silêncio que ouves. O tilintar dos copos do jantar de família é o único som que te irrompe os pensamentos, mas aparece ermo, singular. Como tu!

Começaste por querer ser um exemplar académico. Aderiste à falsa religião, com unhas e dentes rezaste as orações perfeitas, proferiste os dizeres que eras suposto. Depois, um exímio e fiel namorador. Um é um, dois são dois, três são…. demais! Demasiado para ti, demasiado sulco para experimentar. Não seria elegante da parte da perfeição. Aperfeiçoaste e achaste o melhor que havia na profissão. Encontraste quem te fizesse a perna e quem te desse o braço a torcer. Bajulaste quem achaste por bem e beijaste quem verdadeiro pensavas ser. Lambeste as botas que te espezinhavam, cheiraste as meias de quem não teve meias medidas. Mantiveste a família, nunca choraste em desespero, apenas riste, e riste, e…. sorriste! Esse sorriso a espernear nesse queixo torto e desformado de tanto rir, de tanto esboçar os sorrisos da tua vida de porcelana!

“Síntese de um vaso quebrado” Sagantis Karavousis

Nunca partiste um vaso, não tropeçaste nos tapetes, não levantaste a voz, não iraste, não te contrafizeste, não gaguejaste, nem sequer trincaste os dedos numa porta! Não perdeste uma unha pela raiva, não bateste com a porta, não mostraste despeito, mas nem respeito…. por ti próprio!

Esperaste sempre pelo autocarro atrasado, ouviste sempre a mulher tagarela, não reclamaste a conta exagerada, deste sempre festinhas ao gatinho e emudeceste quando foste insultado! Quem és tu, afinal? O que fazes aqui?

Estás certo de tudo o que fizeste? Pelo menos mostras fronha de quem tudo sabe, de quem mestria. Mas és uma merda! És um saco de despejo, um falso, um cínico actor da vida! Sim, um mero actor! Um actor secundário, um figurante! Tens um papel na vida…. mas daquele que vem em rolos, que só serve p’ra limpar o que tu és!

Que queres que te diga? Que posso eu fazer ou dizer para saberes o que penso? Mas eu digo-te. Fizeste mil-e-uma coisa, seguiste todas as regras do livro, cantaste sem desafinar e nunca tropeçaste, mas não fizeste o que estamos aqui para fazer.

Não viveste.