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A brasileira açoriana

Faltava cerca de hora e meia para comemorarmos quarenta anos menos um da passagem do hino histórico de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena” na rádio, em sinal de início de revolução, e já o Teatro Micaelense estava revolucionado. Na segunda sessão consecutiva de casa cheia, Adriana da Cunha Calcanhotto subiu ao palco e recebeu o caloroso aplauso de boas-vindas.

Monumento aos Açorianos
Monumento aos Açorianos

A aclamada cantora e compositora brasileira, também conhecida por Adriana Partimpim, falou da particularidade emocional de actuar nos Açores, principalmente devido às suas origens: Porto Alegre é a cidade-capital do estado de Rio Grande do Sul, fundada por casais açorianos no século XVIII, na sequência do Tratado de Madrid e por ordem do rei português: o “Largo dos Açorianos” ostenta o monumento onde se pode ler “jamais sonhariam aqueles casais açorianos, que da semente que lançavam ao solo nasceria o esplendor desta cidade”. Hoje em dia com quase um milhão e meio de habitantes, a metrópole fundiu-se novamente com as suas origens, desta feita através da música emblemática de Calcanhotto, que confessou ter finalmente percebido o porquê de os açorianos terem escolhido Porto Alegre para viver — “um lugar onde também faz quatro estações num dia”, disse ela.

Filha de um baterista de jazz e de uma bailarina, recebe um violão quando chega à meia dúzia de primaveras e deixa-se influenciar pela música popular brasileira. Enquanto cresce, actua em alguns bares da cidade-natal, no seu estilo inconfundível de “uma mulher e o seu violão”. Lançou “Enguiço” em 1990 e não mais parou, os discos de estúdio seguiram-se: “Senhas” (1992); “A Fábrica do Poema” (1994); “Maritmo” (1998); “Público” (2000); “Cantada” (2002); “Maré” (2008); e “O Micróbio do Samba” (2011). Nos álbuns infantis, iniciou-se com o badalado “Adriana Partimpim” (2004), vencedor do Grammy Latino 2006. Depois, “Partimpim Dois” (2009) e recentemente “Partimpim Tlês” (2012).

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)
Foto: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

O encore trouxe “Fico Assim Sem Você”, depois da enormidade de êxitos que desfilaram entre a doce voz e os dedos teimosos no violão. É incrível como a simplicidade enche recintos! Outro dom que o povo brasileiro tem, além da sonoridade cadenciada do sotaque, é a partilha. Sim, devíamos aprender com eles. Muito banalmente trocam letras, melodias e composições, interpretam-se uns aos outros sem preconceitos.

Enfim, Adriana fica na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 3 de Maio de 2013
in Jornal Paper.li #MPB (Brasil), 3 de Maio de 2013
in Revista Arepa Salsa Jazz (Brasil), 6 de Junho de 2013

O terceiro coração da Viola da Terra

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Cantos de Dutra

E eis que somos presenteados com mais um ano, novinho em folha! Depois de cinquenta e duas semanas de labuta e total entrega – com trunfos e metas alcançadas em alguns casos, expectativas e sonhos defraudados noutros –, cá estamos com outras trezentas e sessenta e cinco oportunidades que nos são oferecidas, de bandeja. É com esse espírito de positividade que o Pavilhão Auricular saúda os seus leitores, e dirige um enorme agradecimento pelo interesse demonstrado em mais um ano de resenhas musicais: muito obrigado!

Raquel DutraTambém passível de ser consagrado numa bandeja – excluindo um bom prato culinário, que desperta os sentidos mais intrínsecos do ser –, é o mais recente trabalho da jovem micaelense Raquel Dutra. No trigésimo dia do undécimo mês de dois mil e doze, as portas vidradas do nosso sublime Teatro Micaelense escancararam-se para deixar passar os ares da música popular açoriana. A apresentação do trabalho “Cantos do Mar e da Terra”, que se previa decorrer inicialmente no Salão Nobre daquela casa emblemática, acabou por se transcrever para o palco principal, tal foi o ajuntamento ao nobre evento. Uma azáfama de povo excitado com o que iria advir inundou o átrio e foi presenteada com uma ainda maior roda-viva: folclore, cantado e dançado de forma distinta, declarada e regada com alegria e boa disposição. A efervescência dos aplausos migrou então para a sala principal, onde nos aguardavam uma guitarra clássica, uma viola da terra e um microfone para a artista intérprete, ermos em cima do palco.

“Teremos espectáculo com tão pouco?”, retumbavam alguns comentários arrojados. Não faziam a menor ideia do que dali viria, certamente. As luzes diminuíram lentamente a sua intensidade, no mesmo compasso em que o tom da conversa reduziu, como se o operador baixasse um fader de volume ao mesmo tempo que o da iluminação. Os músicos tomaram os seus lugares, e a entrada de Raquel Dutra – acompanhada pelo seu característico Bandolim – fez o público vibrar num caloroso aplauso. Depois de uma dúzia de entusiásticos acordes, uma pausa foi orquestrada para a apresentação de Teresa Tomé. Saudou o público com palavras sentidas, calmantes e verdadeiras; falou do projecto e da música açoriana com verdadeiro ardor e paixão.

A viagem que se seguiu foi de puro encantamento e magia. A Viola da Terra mostrou estar em perfeita sintonia com a destreza de Adílio Soares; os dedos do pai, Jorge Dutra, dançaram ritmados e certeiros pelo braço e pelas cordas da Guitarra Acústica; até Raquel conseguiu provar que é possível adicionar a esta amálgama – de si própria, muito rica –, mais um conjunto de cordas: as do Bandolim. E como se não bastasse, como se a magnificência deste trio de cordas não nos embalasse o suficiente, surge a voz. Como descrevê-la? Pela sua polidez, brandura e harmonia? Sim. Pela elegância, distinção e classe? Também. Mas talvez seja melhor o leitor ouvir com a sua própria aurícula para depois dizer se não concorda.

Numa panóplia sentida de música lírica açoriana, esta passa a ser uma obra de referência. Assim o é, não só pela qualidade impressa em todo o trabalho – desde o grafismo digno e incensurável de um maestro das artes desenhadoras, até à produção e edição impecáveis e imaculadas, passando pela execução primorosa dos músicos e da afinação de Raquel –, mas também pelo critério da escolha do repertório. Em vez de compilar temas sobejamente conhecidos da tradição açoriana – o que não faria mal a ninguém –, este projecto tem a ousadia e originalidade de dar corpo a músicas praticamente desconhecidas do quotidiano regional.

O disco presenteia-nos com doze faixas deliciosamente sine qua non do ponto de vista lírico, com origens nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Os arranjos são da autoria dos próprios, mas respeitam as particularidades de cada música, e até a história que a acompanha. Isto merece uma ovação de pé! É um sinal de que ainda há muito boa gente – boa gente, mesmo! – interessada nas nossas raízes. Um grande motivo para que…. a cançoneta fique na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Janeiro de 2013

Sonasfly, o pseudónimo voador

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

Um código para decifrar

Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix e Marisa
Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer – que também é brother in arms – vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012

Os Queen estão vivos

São sete e dez, Post Meridian. Ao subir as escadas do Underground, a sensação de ver surgir a fachada do Dominion Theatre é de se lhe tirar o chapéu. Do lado oposto da Tottenham Court Road, nem mesmo a azáfama do trânsito, nem sequer a altura dos red buses de dois andares retiram a grandeza do vulto dourado de Freddie Mercury, na sua pose enigmática.

Dominion Theatre – London

Um funcionário do teatro passeia-se no exterior com um pequeno cartaz, apregoando descontos nos últimos bilhetes da sessão, provavelmente resultantes de alguma desistência. “Last tickets, discounts!”, anuncia ele. Os responsáveis pelas portas olham o relógio, conferindo que falta um quarto de hora para o começo do espectáculo, e abrem alas de pontualidade britânica. Um cardume de espectadores ávidos pelas teatralidades musicais londrinas irrompe pelo átrio alcatifado. “Welcome!”, recebem as simpáticas meninas das vendas de merchandising. Agitam no ar os CD’s, os panfletos, as t-shirts – estão por todo o lado, promovendo mais um dos negócios paralelos à bilheteira.

Esta é uma máquina que se gere a si própria. Quem chega sem qualquer introdução até pode julgar que se trata de uma estreia ou novidade. Mas esta terça-feira de Setembro com casa cheia é só mais uma lotação esgotada, igual às que se têm repetido nos últimos dez anos. Sim, este espectáculo está a rodar há mais de uma década! A equipa de Ben Elton comemorou recentemente as quatro mil actuações, com a edição de um disco com os temas do musical que dão nova vida aos Queen. Desse álbum, a versão de “Bohemian Rhapsody” já atingiu o primeiro lugar votado para o single favorito no Reino Unido, e o espectáculo propriamente dito arrecadou o prémio Olivier Awards 2011, da BBC2 Radio.

E o pano sobe. A sala enche-se com os aplausos do público de etnias variadas, desconhecendo-se quem se senta nos camarotes. É bem provável que se encontre alguém socialmente relevante – o que quer que isso queira dizer –, ali já se sentaram músicos, artistas, políticos e realeza de todo o planeta. Todos aguardam pela produção galardoada, desde com o “Best New Musical” dos Theatregoers’ Choice Awards, até ao “Outstanding Production of a Musical” dos canadianos Dora Awards, passando pelo “Best Live Performance of the Year” dos Capital Gold Radio Legends Awards. E o que acontece? Temos música!

O musical tem a direcção de Ben Elton, a supervisão musical de Brian May e Roger Taylor, e conta com a coreografia de Arlene Phillips. O português Ricardo Afonso também já representou o personagem principal. Apresenta vinte e quatro temas dos que representam os – ainda –    êxitos dos Queen, e conta-nos a história de um jovem que lidera um grupo de pessoas na busca pela alma do Rock num futuro imaginário em que a música electrónica e industrializada assumiu a única oferta no mercado. Apesar de parecer um pouco arrojado em termos de linha temporal, a forma como o tema está abordado não deixa de ser interessante, quando este tipo de massificação já se mostra perante os nossos olhos.

Esta produção vai voltar a sair das terras de Sua Majestade. Mesmo depois de passarem a ter as suas próprias escolas, de saltarem para o mundo virtual através das aplicações para iPhone e iPad, de terem obtido sete milhões de espectadores na Grã-Bretanha e outros quinze milhões pelo mundo fora, já estão confirmadas actuações fora de fronteiras numa tour que irá passear-se no ano de 2013. O arranque desta tournée por arenas do mundo irá acontecer no próximo mês de Março, na Nottingham Capital FM Arena.

Por maior que seja a tentação de esmiuçar o conteúdo do espectáculo, deixo o repto a quem deseje descortiná-lo, pois acredito que estará pelos palcos do mundo por muito mais tempo. Sublinho a mensagem das entrelinhas do texto, que lembra como os grandes nomes levam vidas curtas, subjugados à pressão da sociedade, e deixando de fazer parte do nosso mundo num ápice. Um arrepio atravessou-me o pensamento quando, no meio da história, imortalizam nomes como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain e, claro está, Freddie Mercury. No entanto, ele próprio indagava: “Who Wants to Live Forever”?

Sem dúvida, um musical que me ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 19 de Outubro de 2012

Na baía com…. Bárbara Azevedo

Estávamos no fim de tarde do vigésimo nono dia do sexto mês deste ano de dois mil e uma dúzia. As luzes do confortável Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada baixaram a sua agudeza para deixar brilhar uma ainda mais forte: Bárbara Azevedo. O sopro do piano encheu a sala de forma hipnótica e a voz afectuosa da oriunda da ilha cinzenta encheu a alma dos presentes com as letras de Torna Viagem, do nosso grande Zeca Medeiros. No final, ao se dirigir algumas palavras a esse homem notável da cultura dos nossos ilhéus, que assistiu à actuação, confessou ter admirado a prestação e a forma como o tema foi adaptado pela cantora.

Bárbara Azevedo, ao vivo no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

Alguns dias mais tarde, numa esplanada da baía das Portas do Mar – onde os Anjos se passeiam –, estava eu sentado nas cadeiras escuras, patrocinadas por uma bebida qualquer. Assinalei com o indicador direito ao empregado para me trazer um descafeinado cheio e olhei a marina. Apreciei o movimento sereno de uma embarcação à vela que irrompia pelo porto da cidade e respirei fundo aquele bom tempo na baía. Era um dia soalheiro e perfeito para uma conversa informal com Bárbara. Tínhamos combinado falar um pouco acerca do seu percurso, e eu estava bastante curioso quanto ao que ela teria para dizer. O empregado trouxe a bebida quente desprovida de cafeína, que consumi em quatro ou cinco sorvos. Olhei o visor do telemóvel: “Estou a chegar”. E chegou mesmo.

Bárbara tem muitas qualidades, mas a sua humildade e simpatia deixam qualquer pessoa empática logo num primeiro contacto. Depois dos cumprimentos da praxe, dos beijinhos e do “como tens andado?”, olhei o gravador.
— Importas-te que grave a nossa conversa? — perguntei.
— Não, claro que não — respondeu ela, sem cerimónias.
Pressionei o botão que tem uma circunferência rubra inscrita e deixei o dispositivo pousado ao centro da mesa da esplanada.

Bárbara Azevedo, vencedora do Festival “Baleia de Marfim” nas Lajes do Pico no ano de 2000.

— Em relação ao teu percurso na música, para percebermos onde se enquadra na tua vida, queria entender um pouco do teu passado. De onde vens, o que trazes contigo na bagagem….
— Eu sou natural do Pico. Toda a minha família está lá, as minhas raízes. Quanto à música, os meus pais dizem que até antes de falar, comecei a cantar primeiro! — riu-se. — Comecei no Pico, a participar no Festival Baleia de Marfim. Com cinco anos, primeiro fui para o Corvo; depois, com sete anos, comecei a participar como concorrente e, em 2002, fui vencedora no Festival Baleia de Marfim. Vim à Caravela de Ouro, na Povoação, e também fui vencedora; fui à Figueira da Foz e também ganhei os prémios todos que haviam a nível nacional — mais risos.
— Fantástico! — ainda agora tínhamos começado, e já eu estava impressionado.

— Ainda fui à Madeira com essa música (Quando Eu For Grande), só como participação especial. Depois, quase que já passava da validade — deixou escapar mais risadas —, da idade mínima para participar no festival. Participei só mais um ano, fiquei em segundo lugar, e vim como participação especial aqui a São Miguel. Após isso, fiz uma primeira actuação aos onze anos lá na minha freguesia (sorrisos). Ainda não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo, foi só uma actuação “tocada” (risos). O meu pai ajuda-me a fazer o repertório, e é uma das minhas grandes influências nas escolhas, porque desde pequena que convivo com música lá em casa: o meu pai toca viola, a minha mãe também canta e toca viola.

— As letras que tu interpretaste nesses concursos eram escritas….?
— Foram escritas pela minha mãe — interpelou a cantora.
— Pela tua mãe? — a retórica só significava que eu estava perante apenas um dos membros de uma família talentosa.
— Pela minha mãe — repetiu Bárbara, com orgulho nos olhos.
— Então tens, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe, influências a esse nível? — questionei.
— É, é — confirmou ela. — Tanto eu como a minha irmã, concorríamos com músicas em que as letras eram escritas pela minha mãe — pois é: a irmã também canta!
— E como é que vieste parar aqui, a São Miguel?
— Fiz o secundário lá, fiz até ao décimo primeiro ano…. depois resolvemos vir todos numa aventura. Estive a fazer o décimo segundo ano, quando decidi entrar para a Globalpoint Music. Já tinha feito até ao quinto grau de conservatório no Pico, no curso de piano; depois de chegar aqui não quis ir logo para o conservatório. Já era um ambiente novo, professores novos, escola nova…. era muita coisa nova, e ter mais a responsabilidade do conservatório…. então, decidi tirar um ano para me divertir, na Globalpoint…. (sorrisos).

— Mas tens planos para ingressar no conservatório, aqui?
— Eu continuo lá, vou agora para o oitavo grau, mas penso que…. não vou seguir a área clássica. A única coisa que vou fazer é tirar algumas bases importantes, que são precisas para depois adaptar para as minhas músicas.

Participação especial no Festival da Madeira 2001.

— No ensino secundário, qual foi a área que seguiste, só por curiosidade?
— Foi a área de ciências. E agora estou a tirar enfermagem, aqui em São Miguel. Vou agora para o terceiro ano. Já sou metade enfermeira — deixou escapar um sorriso.
— Como achas que vais conseguir tratar melhor as pessoas: como enfermeira ou como artista ligada à música? — não pude resistir em lançar a pergunta.
— Não sei, tenho essa dúvida…. (risos) às vezes penso que se juntasse a parte de enfermagem com a musicoterapia, as coisas davam certo! (risos) — e eu também concordei!

— Agora, a Bárbara Azevedo aparece em São Miguel…. um pouco mais madura, não é? Já não são aqueles festivais em que participa malta mais jovem…. Começas a aparecer junto dos grandes. Qual é a sensação?

— É uma sensação muito boa, porque isto aconteceu tudo muito depressa: comecei a compor algumas coisas em Setembro do ano passado, algumas letras…. comecei a arranjar algumas melodias, e as coisas parecem-me que sairam mais ou menos (risos)…. — cá estava a Bárbara a ser modesta. — No Natal dos Hospitais, fui convidada a ir apresentar um dos meus temas e o feedback foi muito bom! Apresentei só um original com piano e voz, que depois começou a passar na rádio! Após isso, fui à Globalpoint gravar um outro original, também para circular, mas numa vertente diferente: uma banda completa para também dar um pouco mais de mim, como artista. Começou também a passar na rádio e comecei a ser convidada para algumas entrevistas.

Actuação ao vivo no dia 25 de Abril de 2012 nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada.

— Qual é a diferença entre tocar sozinha e tocar numa banda? — uma das perguntas da praxe.
— É completamente diferente. Dá-me agora outra perspectiva de como é que eu posso agora compor as músicas, porque quando compus a Old Picture, foi só em piano e voz, nunca pensei que pudesse ter aquele resultado. Fiquei muito satisfeita!
— Mas notas uma diferença só em termos de composição e orquestração, ou também em termos do produto final?
— Em termos do produto final também! — confessou. — E penso que o feedback também é diferente, porque já tive várias perspectivas: até mesmo o cover de Pedro Abrunhosa; pessoas que gostam mais de me ver na vertente da Old Picture do que numa vertente mais acústica. Isso também é importante para mim: ver o feedback das pessoas nesses vários estilos.
— E em qual das perspectivas te sentes mais à vontade?
— Nas duas — assentiu com a cabeça, confiante. — Sinto-me à vontade nas duas.

— E a tua relação com o piano, qual é? — a relação de um músico com o seu instrumento é sempre única.
— Ah!, a minha relação com o piano é…. eu digo que…. se passo um dia sem tocar piano, acho que fico com sinais de privação! — soltou uma gargalhada. — Não, eu tenho uma relação muito boa com o meu piano!
— Muito bem. Já percebi isso, já vi que és uma aficcionada das teclas, mas também tocas outros intrumentos, ou não?
— O meu pai ensinou-me a tocar viola, também arranho qualquer coisa nessa área. Mas o que eu gosto mais é do piano e da voz: o tocar e cantar é…. é quase como a cereja em cima do bolo!

— O teu percurso neste momento é: compor, escrever…. e a seguir? — vamos lá a falar do futuro.
— Isto está tudo num processo de maturação. Para além dos dois originais que já lancei, tenho cerca de mais nove ou dez. Quero que eles amadureçam e que eu também amadureça mais um bocadinho; tenho também o sonho de lançar um trabalho meu: talvez daqui a dois anos…. vamos ver como as coisas correm! Estou a ver se consigo encontrar alguns patrocínios; de momento, os originais estão a ser patrocinados pelo pai e pela mãe! (risos)…. e a divulgação destas músicas tem também esse fim: ver se alguém se interessa pelo meu trabalho, e que queira patrocinar parte dele.
— Quando falas em gravar, noto esse obstáculo que é o mesmo da grande maioria: o financeiro!
— Em relação ao financeiro…. eu também não gosto de gravar como se fosse “ao metro”; gosto de fazer um trabalho, limar arestas e quando vejo que está pronto, tenho a preocupação de o mostrar primeiro aos meus pais e amigos mais chegados, para me darem mais algumas dicas. Com esses originais, consigo também receber o feedback das pessoas; se estão a gostar realmente e se vale a pena ir para a frente com o trabalho.

Bárbara Azevedo em actuação.

— A experiência em estúdio?
— Ah!, a experiência em estúdio! Foi…. — o rosto de Bárbara iluminou-se com um enorme sorriso. — Eu estava maravilhada naqueles dias em que fui gravar para o estúdio (mais risos), gostei imenso daquela experiência! Nunca tinha ouvido a minha voz gravada….
— Não?!  — admito que fiquei surpreso.
— Não, nunca tinha ouvido a minha voz gravada.
— Mas com tantas actuações, com tantas participações em concursos….?!
— Nunca tinha ouvido assim…. a minha voz! A primeira vez foi com Luís H. Bettencourt, que foi excelente nesse aspecto; gravámos o tema The Truth, que apresentei no Natal dos Hospitais, e fiquei maravilhada com tudo…. Depois, na Globalpoint, também com a gravação em estúdio…. E para a próxima semana vou gravar mais um tema lá.
— Então, mas preferes ver um tema acabado para depois começar outro, é assim?
— Sim, exacto. E vou também divulgando mais alguns covers; agora, não vou lançar mais originais. Lancei estes dois em vertentes diferentes; vou lançar alguns novos no meu canal do YouTube, penso que são esses que dão mais projecção…. músicas conhecidas na minha própria versão. Os originais que eu for gravando, vou guardando para depois, para o lançamento do trabalho.
— E por falar em covers, qual foi a sensação de tocar em frente ao grande Zeca Medeiros?
— Ih!, (risos)….
— E como se isso não bastasse, um tema dele?
— Foi uma sensação muito boa! É claro que é mais responsabilidade, estar a tocar para o compositor daquele tema, mas foi uma sensação muito boa!
— Ele manda-te um abraço e transmitiu-me que adorou a tua versão! Acho que isso quer dizer alguma coisa, e estás de parabéns!
— Obrigada! É esse feedback que uma pessoa procura sempre quando faz as actuações, e fico muito contente por ele ter gostado da minha versão e da minha voz, mesmo estando constipada como estava naquele dia.
— Mas saíste-te muito bem! — saíu-se mesmo!
— Obrigada!

— A tua ambição, como açoriana, independentemente de seres picoense ou não, é chegar onde?
— Bom, costuma-se dizer que o céu é o limite, não é? Vamos tentar chegar o mais alto possível, mas com os pés bem assentes no chão, e tudo o que vier é bom! Não vou estar com ilusões, que quero ser um êxito a nível mundial, não é?
— Estás a conseguir equilibrar as tuas prioridades? Estudos, família e música?
— Estou a conseguir conciliar. É claro que, às vezes, é um pouco difícil, com a responsabilidade do curso de enfermagem, e com o conservatório, e ainda pôr algumas composições pelo meio, mas penso que tenho conseguido gerir bem as coisas, e sinto-me bem a fazer ambas as coisas: a enfermagem e a música.

— Sabes que nós, açorianos, temos uma certa tendência para as artes…. Há uma grande fatia de gente que se dedica a todo o tipo de artes. O que achas que o açoriano tem que os outros não têm para seguir por essas áreas?
— Se calhar esta vida em arquipélago…. E notei muita diferença quando vim aqui para São Miguel, porque lá no Pico temos muito mais proximidade com as outras ilhas. Acho que a nossa ideia de arquipélago no grupo central é diferente da ideia de arquipélago aqui em São Miguel.
— Achas que aqui, apesar de ser uma ilha maior, existe uma distância maior entre as pessoas?
— Parece-me que sim, mas não quero fazer juízos de valor….
— Mas já te sentes em casa?
— Sinto-me. E quando me perguntam de onde sou…. quando digo que sou do Pico, apetece-me dizer que já sou metade micaelense (risos). Sinto-me muito bem aqui, em São Miguel.
— Continuando nos teus objectivos: não ponderas a hipótese de pôr um pé fora dos Açores? Nem que seja para promover o teu trabalho ou para algum tipo de formação mais específica….
— Por acaso, tenho pensado nisso ultimamente, porque aqui em Portugal, ou se é muito bom para se vingar no mundo da música, ou se tem muita sorte. É claro que tenho noção de que, se for para outro meio, vai ser muito mais agressivo e a exigência vai ser maior. Vou ver com o tempo o que se vai fazer. Por enquanto vou ficar cá.
— Um passo de cada vez.
— Exactamente.
— Muito bem. Muito boa sorte, Bárbara!
— Obrigada!

A ilha do Pico já nos presenteou com muitas obras de arte, mas esta é especial. Bárbara Azevedo está a marcar um novo fôlego nesta geração de ouro da música açoriana e portuguesa; não apenas pelo dom natural que a sua voz tem, mas também pelo percurso invejável conseguido até agora, tanto em termos de formação, como de reconhecimento obtido. Bárbara controla a respiração muito bem, de forma natural, e tem um vibrato bem dominado e mavioso! No tema cujo vídeo está acima, Old Picture, a ligação com os metais parece ser um dos caminhos a seguir. Vejo também alguns apontamentos do estilo da Broadway interpretados por ela, mas tudo dependerá de onde melhor ela se sentir.

Apesar do seu percurso, Bárbara Azevedo ainda tem alguns obstáculos a ultrapassar. A sua juventude retira-lhe um pouco de mérito — embora eu discorde, é assim na nossa sociedade —, mas esta compositora e excelente intérprete precisa de obter reconhecimento e de se afirmar, mais ainda! Seria também muito interessante para a artista uma experiência fora destes nove ilhéus: vejo-a numa jornada de um mês em Londres, Sydney, ou mesmo Nova Iorque (quem sabe com umas dicas da nossa associada Melissa Cross?). Não devemos ter medo de explorar os mares nunca dantes navegados, até porque, no caso de Bárbara Azevedo, ela conhece bem o seu porto seguro!

E não há dúvida que esta voz ficou-me mesmo…. no Pavilhão Auricular!

in Jornal Terra Nostra, 10 de Agosto de 2012