Os Queen estão vivos

São sete e dez, Post Meridian. Ao subir as escadas do Underground, a sensação de ver surgir a fachada do Dominion Theatre é de se lhe tirar o chapéu. Do lado oposto da Tottenham Court Road, nem mesmo a azáfama do trânsito, nem sequer a altura dos red buses de dois andares retiram a grandeza do vulto dourado de Freddie Mercury, na sua pose enigmática.

Dominion Theatre – London

Um funcionário do teatro passeia-se no exterior com um pequeno cartaz, apregoando descontos nos últimos bilhetes da sessão, provavelmente resultantes de alguma desistência. “Last tickets, discounts!”, anuncia ele. Os responsáveis pelas portas olham o relógio, conferindo que falta um quarto de hora para o começo do espectáculo, e abrem alas de pontualidade britânica. Um cardume de espectadores ávidos pelas teatralidades musicais londrinas irrompe pelo átrio alcatifado. “Welcome!”, recebem as simpáticas meninas das vendas de merchandising. Agitam no ar os CD’s, os panfletos, as t-shirts – estão por todo o lado, promovendo mais um dos negócios paralelos à bilheteira.

Esta é uma máquina que se gere a si própria. Quem chega sem qualquer introdução até pode julgar que se trata de uma estreia ou novidade. Mas esta terça-feira de Setembro com casa cheia é só mais uma lotação esgotada, igual às que se têm repetido nos últimos dez anos. Sim, este espectáculo está a rodar há mais de uma década! A equipa de Ben Elton comemorou recentemente as quatro mil actuações, com a edição de um disco com os temas do musical que dão nova vida aos Queen. Desse álbum, a versão de “Bohemian Rhapsody” já atingiu o primeiro lugar votado para o single favorito no Reino Unido, e o espectáculo propriamente dito arrecadou o prémio Olivier Awards 2011, da BBC2 Radio.

E o pano sobe. A sala enche-se com os aplausos do público de etnias variadas, desconhecendo-se quem se senta nos camarotes. É bem provável que se encontre alguém socialmente relevante – o que quer que isso queira dizer –, ali já se sentaram músicos, artistas, políticos e realeza de todo o planeta. Todos aguardam pela produção galardoada, desde com o “Best New Musical” dos Theatregoers’ Choice Awards, até ao “Outstanding Production of a Musical” dos canadianos Dora Awards, passando pelo “Best Live Performance of the Year” dos Capital Gold Radio Legends Awards. E o que acontece? Temos música!

O musical tem a direcção de Ben Elton, a supervisão musical de Brian May e Roger Taylor, e conta com a coreografia de Arlene Phillips. O português Ricardo Afonso também já representou o personagem principal. Apresenta vinte e quatro temas dos que representam os – ainda –    êxitos dos Queen, e conta-nos a história de um jovem que lidera um grupo de pessoas na busca pela alma do Rock num futuro imaginário em que a música electrónica e industrializada assumiu a única oferta no mercado. Apesar de parecer um pouco arrojado em termos de linha temporal, a forma como o tema está abordado não deixa de ser interessante, quando este tipo de massificação já se mostra perante os nossos olhos.

Esta produção vai voltar a sair das terras de Sua Majestade. Mesmo depois de passarem a ter as suas próprias escolas, de saltarem para o mundo virtual através das aplicações para iPhone e iPad, de terem obtido sete milhões de espectadores na Grã-Bretanha e outros quinze milhões pelo mundo fora, já estão confirmadas actuações fora de fronteiras numa tour que irá passear-se no ano de 2013. O arranque desta tournée por arenas do mundo irá acontecer no próximo mês de Março, na Nottingham Capital FM Arena.

Por maior que seja a tentação de esmiuçar o conteúdo do espectáculo, deixo o repto a quem deseje descortiná-lo, pois acredito que estará pelos palcos do mundo por muito mais tempo. Sublinho a mensagem das entrelinhas do texto, que lembra como os grandes nomes levam vidas curtas, subjugados à pressão da sociedade, e deixando de fazer parte do nosso mundo num ápice. Um arrepio atravessou-me o pensamento quando, no meio da história, imortalizam nomes como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain e, claro está, Freddie Mercury. No entanto, ele próprio indagava: “Who Wants to Live Forever”?

Sem dúvida, um musical que me ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 19 de Outubro de 2012

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