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Cronicista, o regresso

Crónicas podem ser coisas é o título do texto de abertura que marca o regresso do Cronicista, desta feita para a comunidade “Das Letras”. Nos textos curtos em tom característico de sátira, assuntos banais serão discutidos e ideias serão atiradas ao vento.

Das Letras

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A espera de Edith Piaf

O Pico da Vara é o ponto mais elevado da ilha de São Miguel, onde, em outubro de 1949, uma aeronave Lockheed Constellation da Air France conheceu a sua última morada. Não deixou sobreviventes. O voo deveria fazer escala para reabastecimento no aeroporto de Santa Maria. Antes da hora prevista, o comandante informou estranhamente a torre de controlo de Vila do Porto que conseguia ver a pista. Entre a uma e as duas da manhã, recebeu permissão para aterragem. Não voltou a comunicar.

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Fonte: http://aviatechno.net/constellation/cerdan.php

Entre os onze tripulantes e os trinta e sete passageiros que seguiam de Paris para Nova Iorque, seguia o argelino Marcel Cerdan, campeão do mundo de boxe na categoria de pesos médios. Tinha perdido esse título pouco tempo antes da viagem fatídica. O ídolo do boxe, cuja morte foi muito chorada em França, seguia ao encontro do seu grande amor — a reconhecida diva Edith Piaf —, que o esperava na cidade americana. Também perdeu a vida a famosa violinista, Ginette Neveu, encontrada agarrada ao seu Stradivarius, diz o povo.

Grande parte da população circundante, tropa, artilharia, médicos e enfermeiros, acorreram ao local de difícil acesso para prestar a sua ajuda; até o Flores e o Madeira — patrulhas da Marinha de Guerra — zarpam do Porto de Ponta Delgada na direção do que parecia ter acontecido no mar.

O povo conta que joias, dinheiro e relógios foram trazidos como souvenirs por alguns ousados, que até recorreram a práticas desumanas para obter anéis, por exemplo, talhando a parte do corpo que os prendia. Diz-se que muitos desses artefactos ainda estão nas mãos de alguns colecionadores. Imensas casas chegaram a ser revistadas pela polícia francesa, representada por Deleves Mirapois, que se fez deslocar ao concelho de Nordeste. Depois, uma procissão de autoridades francesas e de restos mortais dos trinta e oito corpos resgatados caminhou até à Igreja de Algarvia, perante o olhar desolado da população.

A notícia chegou aos tabloides gálicos e gerou-se um atrito entre França e Portugal, mas também deu origem a outras repercussões internacionais. O corpo de Marcel Cerdan foi levado para o seu país de origem e esteve em câmara ardente em Sidi Bel Abdés. Durante os dias de luto, a guerra entre a resistência argelina e os militares de ocupação franceses foi suspensa.

Ilhéu Conimbricense

Mudança é vida. Fazer as malas e deixar para trás um arquipélago inteiro pode não parecer doloroso, mas as ilhas têm pessoas, e uma parte delas está no meu coração. A rotina diária tem imenso para me ocupar, mas a saudade está sempre presente, como se andasse na rua com um balão amarrado ao dedo, a esvoaçar por cima de mim. Sabe bem apreciar o movimento desta cidade a contradizer a pacatez do rio, mas há uma coisa que me faz falta nestas águas: o sal. Não é o do oceano, é o das lágrimas que enfeitam os meus sorrisos.

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Este foi e pode voltar a ser o meu discurso, mas a verdade é que as mudanças são essenciais à sobrevivência. Não me refiro à sobrevivência crua, aquela das necessidades básicas, mas sim à que alimenta a alma. Abracei o mote de que “um escritor que não viaja não escreve, circunscreve-se”, mas posso adaptar essa mesma premissa a qualquer âmbito da vida pessoal e profissional. Rasgar os horizontes é descobrir que somos capazes de fazer mais e melhor. O dia em que se abandona a zona de conforto é o dia em que se começa a viver. As águias constroem os ninhos à beira de precipícios, e as crias não têm outra hipótese senão aprenderem a voar.

Esta também é uma cidade com história, cultura, alma, fado, ciência e conhecimento. Mata-se a sede do saber e entra-se nos rituais académicos, para o bem e para o mal. Por aqui passou Antero de Quental e estas paisagens inspiraram outros poetas e escritores aclamados. Não procuro aclamação, mas admito ter cortado o cordão umbilical das letras. Foram-me colocados novos desafios, novas metas, e não tenho como dizer não. Só digo não se me pedirem para cortar as minhas raízes.

IMG_4409É a sede pelo conhecimento que me move, o querer perceber, entender e depois transbordar. É esta psicologia misturada com trabalho que me começa a entrar no sangue e a mover-me em direções excitantes. Em qualquer mar que se navegue, alguma coisa tem de ficar para trás para que se chegue mais adiante. Seja para um futuro melhor, para nós ou para os nossos filhos, para os nossos ou para os vossos, para os próximos ou não tão distantes, quer seja pela crise, pela escassez ou pela fraqueza, um homem não pode ficar só a olhar. Tem de agir.

O majestoso Mondego não tem sal nas suas águas, mas tem agora um ilhéu que o admira, longe da casa que o viu nascer, longe do mar que o viu crescer. E esse ilhéu está a renascer.

Batéis de Lava

A minha torre de controlo fica do lado dos Mosteiros. A vista é amorosa. Demasiado ventoso, no entanto. Os rebocadores vão na frente, arrastando São Miguel e Santa Maria. Esta manhã, avistei a Terceira e comuniquei com a torre deles. Murmuraram que aquilo era histórico. Li o manifesto de carga, autorizei-o com uma impressão digital e avisei a coitada da Mafalda que ia descansar. Via-se o quebranto na cara dela, naquele sorriso esmorecido, mas o balançar estava a nausear-me. Fui egoísta e recolhi-me aos meus aposentos.

O quarto está cada vez mais nojento, cheio de embalagens de comida e latas vazias de cerveja sintética. Afastei um par de calças e um blusão, para poder esticar as pernas na cama. Dizem que eu devia viver noutro lugar do mundo, mas acho que o melhor está para chegar. Desde aquele dia histórico, em que o primeiro voo de baixo custo pisou solo micaelense, que ando à espera. Já lá vão vinte anos. Sou paciente.

Quando começou a era low-cost, pensaram que o turista de bilhete económico só andava de mochila e de chinelo no dedo. Esqueceram-se de que, quando se poupa na viagem, gasta-se no destino. E quando se pode gastar mais, exige-se mais. Seis anos depois, deu-se o clique. Esta geração começou a mostrar o que valia. Foi quando recebi o telefonema que mudou a minha vida: “Francisco, querem contratar-te para liderar a Operação Batéis de Lava”.

Os especialistas em geologia, vulcanologia, oceanografia, sismologia, e de tudo o que acabava em ia, queriam uma coisa inédita: unir as nove ilhas. Fisicamente. Na altura, gargalhei, mas são eles que agora me pagam. Primeiro, apareceram as lanchas rápidas, táxis marítimos interinsulares com viagens frequentes, incluindo ligações a Lisboa e à Madeira. Depois, queriam pontes, mas eram muito caras. Um tal arquiteto desenhou uma rede tubular subaquática, comboios magnéticos de alta velocidade em túneis submersos, mas foi a loucura que venceu: “vamos partir os alicerces das ilhas e rebocá-las”, disseram-me. Seríamos uma só ilha, um só povo. Seríamos?

Desconfiei de estarem sob o efeito de alucinogénios ou a ler A Jangada de Pedra. O certo é que Saramago tinha antevisto que a Europa se desmantelaria, e a União Europeia acabou por se transformar na União do Norte. Os países do sul, que eles carinhosamente tratavam por PIGS, foram mesmo chafurdar para a pocilga, e o euro para a numismática que os pariu.

“Juntemos as ilhas!”, apregoavam. Na televisão e na hipernet só se falou disso, durante anos. Foram debates mais acesos do que quando a companhia aérea regional também se tornou barata, mesmo para as Américas — aquilo é que foi uma briga de comadres, com os podres todos a brotar!

O Pico era intocável, porque era uma ilha pesada e dava uma boa âncora. A Horta estava montada na Madalena, Velas de São Jorge colada a São Roque do Pico, e a Graciosa encaixada entre o norte do Faial e a Ponta dos Rosais. O Grupo Ocidental já terminava a viagem, com a Vila do Corvo encravada na Ponta Delgada florentina. Estavam a encanar Santa Cruz das Flores pela Ponta dos Capelinhos adentro. Os jorgenses não queriam ficar sem a Fajã de Santo Cristo, por isso, o Monte Brasil ficou ao lado. Comigo nos comandos, o norte de Santa Maria enfileirou-se na baía da Povoação, e as duas ilhas do Grupo Oriental flutuam, agora, de braço dado, com o Ilhéu da Vila e as Formigas a reboque. Estamos a caminho da Terceira. A marina de Ponta Delgada ficará defronte dos Biscoitos e Vila Franca do Campo vai fazer baía com a Praia da Vitória.

Tenho visto muita coisa: a população a aumentar, a escassez da água, os hotéis espaciais, o aumento das temperaturas, a queda dos drones, as migrações para norte, as próteses biónicas, a cura para a doença de Alzheimer, os desportos para a quarta idade e a extinção dos rinocerontes. Diziam que a tecnologia ia ultrapassar todas as barreiras. A hipernet liga os computadores, eletrodomésticos, robôs e candeeiros de mesa. Fez ruir empresas e deu voz aos pacóvios. Só quando todos se fartaram de ler mediocridades nas redes sociais é que se começou a construir um mundo novo.

Lembro-me de sonhar com esse mundo, quando era jovem. Tinha o sangue na guelra e muitas ideias, mas poucos as ouviam, e ainda menos as valorizavam. Era difícil vingar rodeado de fatos cinzentos e gravatas escarlate, mas cada um sabe do que percebe. É preciso trincar-lhes os calcanhares para se meterem no seu lugar. Sim, porque nem todos são filhos ou cunhados de peixe graúdo. É preciso valorizar o saber-fazer, mais do que o politicamente elegante. E há tanta gente que sabe fazer! Eu sei fazer tanta coisa, mas nunca me pareceu que precisassem disso, aqui.

Não se vive só de ideias, mas o amanhã aproxima-se, um dia de cada vez. Além disso, para mudar o futuro de uma sociedade, primeiro temos que imaginá-lo. As coisas mudaram. Admiro as máquinas de lavar vacas, que tocam música clássica e tratam-nas pelo nome, enquanto lhes esfregam o coiro. Aumenta-lhes a produção. Os agroturistas pagam fortunas para lhes tirar o leite — sem quotas —, conduzir tratores, apanhar batata e dormir à lareira. Como é que ninguém se tinha lembrado disso? Valorizamos o que produzimos e o que temos, e o produto daqui é melhor do que o de fora. E o mar é a nossa casa. Sempre foi, mas agora é mais. Tantas milhas de território, que quase perdemos, por causa das gravatas escarlate. As modas são a maricultura e a extração de minerais que curam doenças e valem fortunas. O fundo oceânico é nosso e somos líderes na oceanografia. É muita coisa nova a acontecer.

Convidei a Mafalda para uma ida ao refeitório. Enquanto comíamos uma queijada de maracujá e bebíamos Kima de beterraba, falámos de como seria a vida numa ilha só. Continuavam a ser nove, disse-me ela, mas num território unificado, que juntaria culturas, políticas, recursos e uma educação que abriria as mentes. E também juntaria as vacas. “E as pessoas?”, perguntei-lhe, mas ela não respondeu.

in Açoriano Oriental, 18 de abril de 2015
(edição comemorativa do 180º aniversário)

Queixume do queixoso

"Old Guy", por enVide neFelibata
“Old Guy”, por enVide neFelibata

No tempo de Homero a raça humana já era decadente: “hoje a terra só alimenta homens perversos e atrofiados”. Continuamos a não admitir que o estado de espírito da nação está abalado. Cabeças baixas na rua, ineficiência nos postos de trabalho, arrogância nos serviços públicos e desmotivação dos mercados. O queixume é a defesa mais usada. Se não há nada que possa ser usado na lástima, estranha-se. Ou inventa-se. Perguntar se “está tudo bem” raramente obtém a resposta do não-podia-estar-melhor.

Mas não são os mercados que destroem a motivação, as economias não afocinham sozinhas, e os países nunca devassam os ratings no solipsismo: são as pessoas. Os mercados, a economia e os países são feitos de pessoas. Se o mal engoda o pérfido, e se o bom atrai o ainda melhor, por que se mantém a carranca? Que se mostrem os sorrisos. Daremos de beber a quem ainda vê sumo num limão podre e seco, a quem acha que este palheiro tem muitas agulhas para encontrar. Há sempre coisas boas a acontecer, nem que seja concluir isso mesmo.

in Jornal Fazendo, n.º 93, junho de 2014

Filipe Frazão em Fast Forward

Há coisas que não se explicam, principalmente as que queremos mesmo explicar. Quando o conheci, ele era o baixista tímido e calado dos Anjos Negros. Tocava as notas certas, acertava no ritmo, agitava a anca moderadamente, mas mantinha-se acanhado, a um canto, quer na sala de ensaios, quer no palco. Pouco mais do que um sorriso e uma saudação obsequiosa se conseguia arrancar do rapaz.

Um dia, apesar de já ser noite, a meio de uma jantarada de amigos — que são mais do que família —, a vadiagem andava sorrateiramente na sala de estar, a remexer numa aparelhagem stereo, daquelas que ainda trazem o rótulo de hi-fi. No meio da alta fidelidade, mete disco, tira CD, e não é que me apercebo de que o rapaz acanhado tinha cantado para o microfone? Era uma gravação dele próprio, com uma voz vacilante, mas colocada, a reverberar pelas colunas e a encher a sala de carisma. Os colegas de grupo incentivavam-no, não imaginando que dali viria o projeto Lado Lunar e um dos mais recentes fenómenos da proatividade.

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Foto: Arnaldo Viveiros

Filipe Frazão não tem descansado desde então. Lembro-me de ouvir Straight Up e de ver ali um bom motor de arranque, embora ainda faltasse um pó de instrumentalização. Depois chegou Vai Ser Feliz, que evidenciou a sua primeira capacidade de diversificar o estilo. Também conquistou aqueles ouvintes sequiosos por mensagens positivas. A seguir, o Café da Saudade veio trazer a aura nostálgica e melíflua da composição ébria de Frazão. Como se não bastasse, encheu a alma dos seus seguidores com o caloroso Já Chegou o Sol, lembrando que “lá fora há um mundo para sentir”. As mensagens tornavam-se mais recheadas de significado, e é isso que se quer da música: uma boa mensagem. O sucesso seguinte foi Deixo a Cidade, e ele afirmou que “tudo vai ficar bem”. Eu concordei. Mas, melhor do que ficar bem, é ficar melhor, e Filipe Frazão sabia disso, quando escreveu É Tão Bom. É o seu mais recente êxito, mas não duvido que estejam outros a caminho.

Filipe Frazão conquistou os tops das rádios locais e prepara-se para fazer o mais difícil: conquistar outros tons em territórios mais alargados. Cuidem-se, porque ele está a caminho. Filipe Frazão tem no nome as iniciais para Fast Forward, e é assim que ele trabalha, em alta velocidade. O rapaz tímido já não o é. Ficou no ouvido, na aurícula. Abram alas.

in Jornal Terra Nostra, 06 de junho de 2014

Liberalização dos céus

Nunca pensei no espaço aéreo como um território liberalizável. Quando se é dono de um palmo de terra, faz-se um sulco no chão com uma cana verde ou erguem-se muros para dividir fronteiras. Quando se tem dinheiro, o destino é a conta bancária ou o miolo do colchão de palha. Se há um bem móvel – daqueles com rodas – arranja-se maneira de o trancar à chave. Então, como é que se passa um ferrolho no céu?

"Patterns", por Laura Barnard
“Patterns”, por Laura Barnard

Se não considerarmos o habitual capacete de nuvens cinzentas, enviado com amor pelo anticiclone, também ele emigrado para terras de Sua Majestade, só podemos fronteirar o céu com papel e tinta. Com uma lei, escrita por advogados – e para advogados –, que permita que alguém se levante e explique: “ah, isto aqui diz que este céu só pode ser navegado por aviões azuis-e-brancos”.

Se um avião cruza o nosso espaço aéreo, não paga portagens, como os automóveis nas autoestradas? Não daria para encher tanques de aviões, pelo menos para as viagens só de ida? É porque os residentes adoram viver isolados do mundo, adoram só poder sair do celibato por mais do que um parisiense paga por um espetáculo no Moulin Rouge.

Mas talvez não seja bom que um açorenho se cultive e viaje muito: corre-se o risco de ele ficar mais inteligente. Talvez não seja bom que venham mais turistas: há sempre o perigo de se embebedarem e destruírem as paragens de autocarros. Além disso, um espetáculo de cabaret não passa de um desfile de modelos seminus dançantes, não se aprende nada ali. Mas um lisboeta pode ir a Paris vê-lo e regressar com mais dinheiro no bolso do que se viesse aos Açores ver uma tourada à corda.

Aliás, basta um mariense querer ver uma tourada à corda: ou é jovem e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos jovens que vão de barco; é idoso e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos idosos que vão de barco; é trabalhador e vai de barco; ou é poupado e abdica das milhas acumuladas por uma vida inteira e vai num tubo metálico voador azul-e-branco. Também se pode ir de iate ou de jato particular, mas isso é só para quem consegue parir companhias aéreas.

in Diário Insular, 14 de maio de 2014