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Filipe Frazão em Fast Forward

Há coisas que não se explicam, principalmente as que queremos mesmo explicar. Quando o conheci, ele era o baixista tímido e calado dos Anjos Negros. Tocava as notas certas, acertava no ritmo, agitava a anca moderadamente, mas mantinha-se acanhado, a um canto, quer na sala de ensaios, quer no palco. Pouco mais do que um sorriso e uma saudação obsequiosa se conseguia arrancar do rapaz.

Um dia, apesar de já ser noite, a meio de uma jantarada de amigos — que são mais do que família —, a vadiagem andava sorrateiramente na sala de estar, a remexer numa aparelhagem stereo, daquelas que ainda trazem o rótulo de hi-fi. No meio da alta fidelidade, mete disco, tira CD, e não é que me apercebo de que o rapaz acanhado tinha cantado para o microfone? Era uma gravação dele próprio, com uma voz vacilante, mas colocada, a reverberar pelas colunas e a encher a sala de carisma. Os colegas de grupo incentivavam-no, não imaginando que dali viria o projeto Lado Lunar e um dos mais recentes fenómenos da proatividade.

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Foto: Arnaldo Viveiros

Filipe Frazão não tem descansado desde então. Lembro-me de ouvir Straight Up e de ver ali um bom motor de arranque, embora ainda faltasse um pó de instrumentalização. Depois chegou Vai Ser Feliz, que evidenciou a sua primeira capacidade de diversificar o estilo. Também conquistou aqueles ouvintes sequiosos por mensagens positivas. A seguir, o Café da Saudade veio trazer a aura nostálgica e melíflua da composição ébria de Frazão. Como se não bastasse, encheu a alma dos seus seguidores com o caloroso Já Chegou o Sol, lembrando que “lá fora há um mundo para sentir”. As mensagens tornavam-se mais recheadas de significado, e é isso que se quer da música: uma boa mensagem. O sucesso seguinte foi Deixo a Cidade, e ele afirmou que “tudo vai ficar bem”. Eu concordei. Mas, melhor do que ficar bem, é ficar melhor, e Filipe Frazão sabia disso, quando escreveu É Tão Bom. É o seu mais recente êxito, mas não duvido que estejam outros a caminho.

Filipe Frazão conquistou os tops das rádios locais e prepara-se para fazer o mais difícil: conquistar outros tons em territórios mais alargados. Cuidem-se, porque ele está a caminho. Filipe Frazão tem no nome as iniciais para Fast Forward, e é assim que ele trabalha, em alta velocidade. O rapaz tímido já não o é. Ficou no ouvido, na aurícula. Abram alas.

in Jornal Terra Nostra, 06 de junho de 2014

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Tremorização cultural

2c319810c2b111e3bc650002c99cddfc_8O ano era o de dois mil e catorze e estávamos com uma dúzia de dias de abril. Era meio da tarde, o Sol a três quartos do arco. Meti o panfleto desdobrável no bolso e seguimos caminho. Parecia que a cidade se tinha inclinado para a baixa e que todas as pessoas tinham deslizado para os mesmos sítios. O resto dela estava deserto. A ilha tremera dois dias antes, e pensei: que bela promoção! Impulsionar um evento desta natureza não é tarefa fácil, mas orquestrar um Tremor a esse nível seria elevar a fasquia para a escala de Mercalli, atribuindo-lhe intensidade imensurável.

Parecia estar tudo a postos, e estava mesmo. Depois, fiquei zangado. Zanguei-me por não ser ubíquo, omnipresente. Queria ser mosca para ver e ouvir tudo. Compreendo e louvo o conceito do festival, mas desejei mesmo estar em todos os palcos. E não consegui. Algumas salas estavam completamente lotadas, não só com público, mas com bom gosto também. Tudo sinais de que havia vida na cidade.

O riquíssimo programa prometia: replays alternativos da guitarra apaixonada e os ecos inebriantes do bracarense Gonçalo no Hostel 3/4 e mais tarde na Travessa dos Artistas; a voz arrepiante da talentosa micaelense Sara Cruz a dar asas ao Cantinho dos Anjos; Nuno Rodrigues a dedicar moda à Duquesa na Londrina; os inconfundíveis Ricardo Reis, Paulo Bettencourt, Luís Senra, Luís Sousa e Ricardo Silva, que são o mundo de Lulu Monde, a jogar em casa, num jam jazzístico da Travessa dos Artistas; as harmonias do guitarrista portuense Jorge Coelho a incendiar o Ateneu Criativo; o one man show David Santos, multi-instrumental conhecido por Noiserv, a encher o Teatro Micaelense; os blues cada vez mais carismáticos dos micaelenses Self Assistance no Baía dos Anjos; o pop eletrónico indie lisboeta dos Sequin para fazer sonhar o Ateneu; a guitarra experimentalista de Rui Carvalho, o Filho da Mãe, a ecoar pela apaixonante e icónica Igreja de Santa Bárbara; a gentileza utópica dos sons de Teresa Gentil na Tasca; Miguel Nicolau e Marco Franco a darem reminiscência lisboeta à Memória de Peixe no Ateneu Criativo; o punk imparável dos The Glockenwise a agitar o Baía dos Anjos; o avant-rock do trio alternativo portuense Torto no Arco 8; o psicadelismo devocional de Óscar Silva a emprestar o folk nortenho a Jibóia e a transfigurar o mesmo Arco 8; e ainda Rui Maia a.k.a. Mirror People a trazer vida sintetizada ao Ateneu.

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Também se desenharam cenários improváveis: Jibóia da Mãe foi uma Jibóia misturada com um Filho da Mãe na Galeria Fonseca Machado; Miguel Nicolau aliou-se a Jorge Queijo para uma Tasca animada; o deejay micaelense NEX com o veejay argentino Federico Lamas no Ateneu Criativo; e ainda cinema, com “Música em Pó” de Eduardo Morais no Cineclube de Ponta Delgada.

10154396_642909849098098_8303259542936828049_nNuma coorganização da produtora Lovers & Lollypops e a Yuzin Agenda Cultural, de salientar foram as mais de trinta parcerias efetuadas com espaços comerciais do centro histórico da cidade e a quantidade diversificada de ambiências surpreendentes. Foi uma tremorização cultural. A perfeição é uma série de pequenas coisas bem feitas, e o Tremor esteve muito perto disso. Até as imperfeições foram perfeitas. Soube tão bem que devia ser proibido. Se o Tremor foi magia, deve existir um ilusionista. Ou vários. Nós sabemos que foram vários. A música esteve sempre a servir de pano de fundo, mas o Tremor estava por toda a parte. Desejam-se réplicas mais fortes desta experiência para daqui a um ano. Até lá, o Tremor fica na aurícula.

in Jornal Terra Nostra, 18 de abril de 2014

El Açor: e vão quinze!

O éfe-erre-á ouviu-se várias vezes naquelas duas primeiras noites de primavera, em alusão ao acrónimo original conimbricense — F-R-A: Frente Revolucionária Académica. Em 1938 o grito tinha índole político, mas agora serve propósitos comemorativos, embora muitos ainda precisassem de um bom chiribitatatata. Foi com espírito revolucionário, mas pacífico, que as tunas invadiram o palco do Coliseu Micaelense para o XV Festival Internacional de Tunas “El Açor”, nos dias 21 e 22 de Março de 2014. Desde o último ano do século passado que a Tuna Masculina da Universidade dos Açores, conhecida intimamente por Tunídeos, organiza o evento icónico, que conta com a apresentação originalmente imprevisível dos hilariantes Tunalhos. O público duvidava para onde dirigir a atenção, sem saber se aplaudia mais os intervalos divertidos ou as atuações memoráveis.

xv_elaorEsta comemoração tunificadora do espírito académico já passou pelo Teatro Micaelense e pela Aula Magna, mas o coliseu é o mais recente epicentro do contágio da cidade com humor, música e solenidade. A cultura regional açoriana já não passa sem este convívio tunante de cardumes escombrídeos desenlatados. Os tunadores vêm de todo o país e arredores, com os seus contrabaixos, guitarras, bandolins, cavaquinhos, violas da terra, violinos, acordeões, flautas, tambores, pandeiretas, estandartes e bandeiras. A festa é arrojada, a arte do pandeiretismo deixa boquiaberta a audiência e as bandeiras esvoaçantes elevam o espírito estudantil.

A palavra tuna provém do francês tune, “hospício de mendigos”, e do castelhano tuna, “vadiagem”. Talvez sejam esses os ingredientes fulcrais à tunantaria, aquele calor que passa dos palcos diretamente para os corações da assistência. E assim conseguiram encher a alma e lotar a sala, com tunantagem e sem chantagem. O recinto repleto bombeava entusiasmo, numa mescla universitária festiva, com direito a camarote para a nobre psicossaurologia. Se aquelas noites fossem uma praxe, todos quereriam ser praxados.

Foram convidados especiais os Brass Band, mas também subiram ao palco da primeira noite a mui nobre Tuna Académica da Universidade dos Açores (TAUA); a fantástica Tuna de Tecnologias da Saúde do Porto (Tuna TS), depois de três saudosos anos de interregno; a ilustre “mais jovem e mais velha” tuna açoriana, Real Extudantina dos Açores (RExA); e ainda a galardoadíssima Tuna Universitária de Trás-os-Montes e Alto Douro (Transmontuna). O dia dois prendou a audiência com a sempre glamorosa e encantadora Tuna Feminina da Associação Académica da Universidade dos Açores (Tuna com Elas); a Tuna Académica do Instituto Superior de Engenharia do Porto (TAISEP), cujo lema é “diverte-te a ti mesmo e só depois os outros”; a Tuna do Distrito Universitário do Porto (TDUP), que dá o prazer da visita ao festival pelo segundo ano consecutivo; e a Tuna Mista da Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (Enf’ In Tuna), que tão musicalmente cuidará de nós nas enfermidades.

Foi com a já imprescindível e inimitável curta-metragem de qualidade tunal que se deu o início do fim, o encerramento com chave de ouro pelos anfitriões do evento. Depois, o aguardado momento da distribuição dos prémios: Melhor Estandarte: TAISEP; Melhor Pandeireta: Tuna TS; Melhor Solista: TDUP; Melhor Original: Tuna TS; Melhor Instrumental: RExA; Tuna mais Tuna: Transmontuna; 3.ª Melhor Tuna: TAISEP; 2.ª Melhor Tuna: Tuna TS; Melhor Tuna: RExA.

Os Tunídeos são de parabenizar, não só pelas atuações de grande nível, por juntar no palco a multidão dos antigos elementos ou pela originalidade do jocoso sketch musicovideográfico, mas também pela organização e dinamização deste evento marcante. Um apontamento para a inovação deste ano: os elementos transversais a toda a encenação, Super Mário et al., que interrompiam e intercalavam inteligentemente as performances. Outra vénia vai para a iniciativa da oferta de uma cadeira de rodas a quem muito precisava. É em tempos difíceis que as grandes mentes emergem.

Na festa depois da festa, para não inglesar afterparty, o campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores pareceu iluminado, animado e recheado de vida. Tal e qual um dia de aulas normal, passo o sarcasmo. Nesta grande festa do “El Açor” ficou tudo bem impregnado na retina, no palato…. e na aurícula. Venham mais quinze!

in Jornal Terra Nostra, 4 de abril de 2014

Mariana, a soberana

A soberania é um conceito difícil de alcançar. Há quem acredite que tal patamar não existe, sequer. Os egípcios falavam em faraós, os gregos em supremos governos, os romanos em imperadores, os plebeus em reis e rainhas, os portugueses em Camões e os açorianos em Pauleta e Nelly Furtado. O poder de um soberano é a soberania propriamente dita, mas é uma autoridade insípida. Usar uma coroa pode parecer imponente, mas pode ser um peso incómodo; a não ser que se seja uma princesa, porque as tiaras aparentam leveza e graciosidade. As coroas de papelão das festas de aniversário, que toda a gente já usou, são mais fáceis de descrever: se descontarmos a comichão que provocam no pescoço, leveza maior não pode existir. Uma coroa de espinhos também não soa a dominância, mas muita tinta e sangue na Bíblia deu a derramar. Já uma coroa de flores significa ocupar o primeiro lugar, subir ao pódio e fazer uma vénia para receber a medalha.

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Foi para isso que Mariana Rocha fez a mala: para subir ao palanquim e ganhar uma medalha de um tal de factor xis. Mesmo que fosse o factor ípsilon, ou , ela estaria lá. O motivo é simples: Mariana, a soberana, tem os três. Ou mais: Mariana Rocha reúne todas as características de uma stage woman, todas as qualidades de uma protagonista, todos os atributos de uma grande intérprete, todos os fatores inerentes a uma verdadeira artista.

16 anos. Quem é que tem 16 anos e canta assim? Ninguém. Assim, como ela, só ela própria, só a Mariana Rocha em pessoa. Não interessa até onde ela pode chegar — que vai ser muito longe —, não interessa se assina contratos com multinacionais, se vai gravar em Abbey Road, se lança uma dúzia de discos, com direito a quádrupla platina dourada com rebordo em diamante, se ganha os próximos Emmys ou os MTV Awards. Não interessa, porque Mariana, a soberana, já ganhou. Ganhou fãs, aplausos, ovações de pé, sorrisos, abraços, alegrias e palcos. Sim, porque os palcos também se ganham. Melhor ainda: merecem-se! Mariana merece os palcos.

Mariana-2Este domingo, enquanto uma parte adormecida deste País em pantanas vai ressonar em frente ao escrutínio de segredos, o lado acordado da sociedade vai aplaudir e votar na soberana: na Mariana. Porque sabem que ela tem aquele ingrediente especial. Mariana contagia com a sua simplicidade, o sotaque indisfarçado, a ousadia e o à-vontade de uma verdadeira entertainer. Enche as salas com energia positiva, sem falsos protagonismos, e leva a voz colocada, controlada, cheia de spring e calor de veraneio.

E que orgulho tem esta terra numa jovem tão promissora, tão cheia de energia e alegria? A força deste povo consegue concentrar-se numa única pessoa, e talvez seja isso que vai acabar por acontecer. Mariana vai carregar a força de gente que quer singrar, vencer, chegar longe! A voz dela será o somatório das nossas.

Os Açores podem ser insularidade e desunião geográfica, mas não há povo igual no que toca a dar as mãos. Quando o chão treme e os vulcões se agitam, os açorenhos cerram os punhos e chamam os problemas a si, desafiam-se à união. Mesmo quando as brumas se espalham sobre águas agitadas, pelos tufões, tempestades e mau tempo, este povo une as vozes e sopra bem alto para limpar o céu, para trazer bom tempo, para abrir canais.

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E agora há uma explicação para quando a terra treme e os vulcões se agitam: é porque a Mariana está a cantar. E quando os céus trovejam? É porque os deuses estão a lançar os dados… e a apostar na soberana.

Os palcos são teus, Mariana. Vais ficar definitivamente na aurícula. E este povo está contigo!

in jornal Correio dos Açores, 28 de Novembro de 2013

O filho da Rocha da Relva

Abro a capa cartonada, com o perfil escurecido de um homem iluminado. Revela-se a foto de um lençol de rocha rolada, mar até se perder de vista, e ele de chapéu de palha. Desdobro outra vez e recebo dois presentes: um livro com letras, poemas e um disco compacto esbranquiçado. O tempo do vinyl já se foi, mas não me apetece desfrutar de uma obra-prima destas num vulgarizado leitor digital. Ligo a estereofonia, abro o tabuleiro e pouso a rodela de acrílico inventada em 1979. Fecho a bandeja, aumento o volume, agarro o pequeno livro e recosto-me. Andava ansioso, à espera deste momento, mas “quem espera sempre alcança, foi sempre o que ouvi dizer”.

Já ouvira zunzuns, quando o mestre preparava o novo trabalho. Escutei uns acordes aqui e ali, mas nada como apreciar a magia das palavras do grandioso poet’autor no recolhimento usurpado à azáfama do dia-a-dia. Os sons voam dos altifalantes, numa mescla acústica que me desenfada. Aníbal Raposo prepara-se para cantar, enquanto os sons da Rocha da Relva convidam-me à viagem. Chamei-te Linda, Engraçada apresenta o solo alegre da guitarra de Eduardo Botelho, antecipado à percussão compassada de Paulo Rosa, ao violino mavioso de Lídia Medeiros, ao cavaquinho irrequieto de Pedro Alvim Pinheiro e ao baixo cadenciado de Williams Maninho Nascimento. A doçura da voz de Marta Pereira mistura-se com a do mestre, numa declaração amorosa às flores de um jardim, às rosas de um roseiral, que Aníbal junta ao mais puro desejo. Paulo Vicente acaricia o teclado gentilmente, antes de Mário Jorge Raposo encher Uma Estrela no Sul com solenes strings, e enquanto Williams vibra baixinho e Paulo Rosa afaga a bateria. O mestre declama: “Ai meu amor, escuta a minha voz. Pensando bem, quem está como nós?”. Sim, quem está como nós? “E era roxa a saudade”, “os olhos rasos em águas de recordações”.

A exímia Patrícia Perpétuo eterniza uma noite de lua cheia nas flautas de Fases da Lua, como se o seu sopro alimentasse as velas de um batel ao largo da Rocha da Relva, e onde Aníbal diz “quem diria lua cheia, que à tua luz fiz um filho”. E esse filho só pode ser a unicidade da sua música. Paulo Andrade repercute o andamento certeiro, Zica eleva o baixo a outro patamar e a guitarra solo de Eduardo Botelho embala. E embala com tal jeito que nos solta para a Dança com o sopro do trompete de Hugo Araújo. “Dança comigo amada, que eu já estou na escada que me leva ao céu”, acompanha a concertina atrevida de Paulo Pimentel e o cavaquinho afinado de Hélio David. Alfredo Molina dá os batuques com “leveza de pena” a par com Zica. E esta dança “solta-me a alegria de quem nada deve”.

Aníbal Raposo ordena “marrecos para a água” no engenhoso poema de Acorda Mulher, acompanhado pelo acordeão ritmado de Álvaro Melo e pelos repetentes Eduardo Botelho, Paulo Rosa e Zica. Nesta Maré Cheia, diferente da que nos brindou em ’99, há uma mensagem ao Sidónio e a pesca é uma sinfonia ao “som dos cagarros”, uma autêntica faina bafejada pelo “vento do sul”. Ernesto Sousa abraça apaixonadamente o acordeão e fá-lo respirar a aura de uma declaração de amor, uma “coisa bonita, cheirosa flor” que nos faz sorrir e elevar as sobrancelhas. A dupla Eduardo Botelho e Mário Jorge Raposo está de volta nesta Minha Metade, que só se completa com a grandiosidade do contra-baixo do grande Mike Ross, um “meu talismã”. Cara Perfeita é quase uma utopia do agreste, com solos de guitarra com sotaque, um baixo verdadeiramente brasiliense e percussões “à luz do luar” da bossa-nova. “Ninguém vai estragar a nossa alegria”, nascida da fotografia de Maria Helena de Sousa Ferreira.

Aníbal já deu a volta ao mundo e ao medo, tem paixão pela vida e deixa-se sonhar por esta terra e por este mar. A musicalidade de Já Dei a Volta enaltece “um mundo de emoção que me faz derreter o coração”, tal como faz a rouquidão dos fôlegos romanescos do sax de Carlos Mendes. Eduardo surpreende na Viola da Terra e Raúl Damásio alia-se na harmonia das vozes em Se És Bom Companheiro, enquanto Lídia Medeiros ajuda à serenata com os perfeitos violinos e Paulo Andrade retumba na percussão. Enquanto Raúl Resendes dá vida ao som dos remos “pelo mar fora”, André Jorge e Odilardo Rodrigues embalam a “lanchinha” deste final genial. De olhos cerrados, Rema guia-nos a alma “p’ró alto mar”, como só Aníbal sabe fazer. E depois brindou-nos, renovando a sua musicalidade, num concerto com os Connection, Mário George Cabral, Vânia Dilac, Paulo Bettencourt, António Feijó e Hélder Machado, com sonoridade renovada, mente aberta e espírito de navegador de mares desconhecidos!

Aníbal Raposo é um dos pilares da música popular e poesia deste século, não só dos Açores, mas do mundo. Cresci a ouvi-lo nos Rimanço, ao lado da geração mais inspiradora de sempre, a cantar temas como Nascer de Novo, No Vapor da Madrugada, Cantigas da Terra e até a Lira, que ainda faz bater os corações açorianos. E como é que um aprendiz fala do seu mestre? Dedicando-lhe uma vénia. Obrigado, Aníbal!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Outubro de 2013
in Portuguese Times, 23 de Outubro de 2013

Deolinda = trindade + divindade

A suis generis Ana Bacalhau trazia um vestido às florinhas e uns saltos à maneira, quando pisou o palanque, tal e qual uma fadista tradicional, para receber palmas do lotadíssimo Teatro Micaelense. Minutos antes, os quatro músicos trajados de negro tinham abraçado os instrumentos e arrecadado uma dose de boas-vindas. Instrumentos afinados, sons harmonizados…. Mas, esperem. Quatro músicos?! Os Deolinda não eram uma trindade atrás de uma divindade? Sempre ouvira dizer que, em 2006, os irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, outrora fundadores de um “Bicho de 7 Cabeças”, haviam usurpado a prima Ana Bacalhau dos Lupanar para cantar umas cançonetas. A coisa correra bem e ela chamara também o marido, José Pedro Leitão. Deve ter dito: “Traz lá o contrabaixo, amori, e junta-te à festa”.

ag_deolinda2Bem, e que festa! A sala estava a meia-luz e os primeiros acordes tilintaram. Revolucionaram o bichinho da audiência, que não teve outra hipótese senão dar início ao bate-o-pé inconsciente e ao bater palmas a compasso: logo nas primeiras músicas! Começava assim uma actuação memorável que terminaria, não com um encore, mas com três! Aquilo a que eu sabiamente chamo de trois-core!

Dizem que Pedro Martins só escreveu quatro canções, nos primórdios dos Deolinda, mas que depois catadupejaram para a ribalta de hoje em dia. Sentado no extremo esquerdo, manuseava o braço da guitarra como quem conduz uma donzela numa valsa. Escrever para televisão só lhe pode ter aguçado o espírito cinematográfico, com direito a assobiadelas quando despiu o casaco. Certo é que escrevinhar o Desfado valeu-lhe uma visita da SPA. Bateram-lhe à porta e disseram: “É só para entregar um galardão, o da Melhor Canção do Ano de 2012”. Mas não ficou por aí, teve mais fados. Foi só esperar por Maio de 2013, quando a SIC e a Caras premiaram-no com um Globo de Ouro. O grupo já alcançou várias platinas, um “Prémio Amália Rodrigues” e um “Songlines Music Award”.

1044188_516742681729890_1398094456_nNo extremo oposto do palco estava o mano mais novo, Luís José Martins. O Conservatório Nacional de Lisboa pariu-o, para terras gaulesas. Em Castelo Branco, licenciou-se em Música, o que proporcionou uma carreira de professor em vários conservatórios portugueses. Só depois vieram os projectos musicais. Interessante, a forma como ele dialogava com as cordas da guitarra. Era como se elas percebessem a linguagem dos dedos afoitos e audazes. E quando ligou a distorção? Sim, distorção! Bem, fale-se em como o melhor timing permite as mais incríveis imprevisibilidades! Mas o músico também fez magia em pequenas dimensões, não dominasse ele também a viola braguesa, o ukelele, o guitalele e o cavaquinho. Nos dias que correm, não é fácil encontrar quem domine cavacos.

A percussão foi simplesmente serginal! A inclusão das cadências de Sérgio Nascimento deu renascimento ao fado, se é que alguma vez foi outra coisa que não pulsante. Aliás, nunca tinha visto tamanha inteligência num colectivo português, tamanho brilho e perspicácia em marcar mensagens, ora apimentadas, ora anedóticas. Nunca havia percebido que a ironia conseguia criar analogias tão fortes como quando ouvi o Fiscal do Fado. É incrível como este grupo, num “Mundo Pequenino” como o nosso, enfia Portugal inteiro em cada compasso.

O contrabaixista aveirense José Pedro Leitão tem grandes qualidades, sendo a principal ter nascido em ’79. Continuo a defender que foi um ano de grandes colheitas, e ele é só mais uma prova disso! O Engenheiro Civil, que ajudou a dar música nos Lupanar e nos Tricotismo, manobrou as notas graves do colectivo com tal preciosismo e cadência, que hipnotizou a hipófise de muita gente naquela sala. Mais difícil ainda é percorrer as longas cordas sem a aliança de casamento prender. Ah, não sabiam? O homem é casado. E tem a sorte de viajar com a mulher, mantendo-a sempre debaixo de olho, sempre diante de si. Ela canta e dá pelo nome de Ana Bacalhau.

A moça lisboeta dá sempre cartas aos que a julgam como mera cantadeira. Ana domina os dotes vocais com distinção, tanto nas qualidades a que o fado tanto obriga, como em apontamentos líricos magnificentes. Controla amplitude, abertura e dicção como raramente se vê. Além disso, teatraliza de forma exemplar as personagens que as canções muito bem desvendam, acrescentando-lhes movimentos de anca irreplicáveis e passos de dança contagiantes! Torce o sobrolho em Pois, grande castiça em Fon Fon Fon, teatral no Fado Toninho e magistral no restante repertório riquíssimo, merecedora de “Ah, fadista!” e “Bravo!” por várias vezes.

Deolinda é Fado. Fado é Portugal. Portugal é Bacalhau. Bacalhau é Ana, e Ana é Deolinda. Ou seja, Ana Bacalhau é Fado e os Deolinda são Portugal! Sim, os Deolinda são uma trindade atrás de uma divindade.

E ficaram inquestionavelmente na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 26 de Julho de 2013

Haja saúde com lágrimas

— Haja saúde! — disse-me o Luís, à entrada. — Home’, vocês que entrem e estejam à vontade! ­— ele recebia os convidados como se estivesse à porta de sua casa. De certa forma, estava: era “uma casa portuguesa, com certeza”, mas eu diria “uma casa açoriana e não engana”. A casa arcana, a que o Luís tão carinhosamente apelidou de “tasquinha”, era o Teatro Ribeiragrandense.

4081367514194A cidade da “grande ribeira”, cada vez mais capital cultural da açorianidade, exalava nostalgia naquele quinze de Junho. A arena do teatro estava diferente: tresandava a talento, fado e saudade. No meio das cadeiras em tecido cor-de-sangue, corria nas veias dos presentes um calor alterado. Sim, viam-se sorrisos, abraços e boa disposição; nada disso era novidade, sempre que aquele homem estava por perto, mas o sabor agridoce tinha também entrado no salão.

E eis que se baixam as luzes. Depois de cavaquear com um e com outro pela plateia, Luís Gil Mendes Bettencourt sobe ao palco pela frente. Senta-se ao microfone e rejeita modestamente o caloroso aplauso que lhe é dedicado.
— Não é preciso nada disso — disse ele. Explicou que queria momentos de à-vontade e convidou os presentes a recolher um dos imensos copos de Angelica que aguardavam na berma do palanque. Antigamente, era comum acenderem-se isqueiros durante as baladas. Agora, imaginem uma plateia inteira a erguer copos de licor.
— Haja saúde! — brindou ele. O público correspondeu. E bebeu talento. Até pouco antes das doze badaladas, Luís conduziu-nos por uma viagem no tempo. Atrás dele, três tímpanos imponentes. Ao lado, um segundo microfone. Rodeado de guitarras clássicas, de folk, uma guitarra eléctrica e uma Viola da Terra, fez rodopiar emoções num trajecto que emocionou.

Foi com o tema “Dreams” que abriu as hostilidades daquela noite magnífica, ao que ele chamou de “teledisco foleiro”, mas que marcou uma geração que via a RTP Açores e que repetia: at the end of the road I see hope. A moda “luisbettencourtista” continuara com “If There’s a Reason”, cujo vídeo era “uma espécie de Avatar da altura” — palavras do próprio —, o que só vem provar o seu lado visionário.

Luís confessou que vai apoiar a carreira da filha. Maria subiu ao palco e desbravou o seu timbre doce e com um grasp cada vez mais controlado. O duo também brindou o público com “More Than Words”, ao que Luís sublinhou que “aquela pancadinha é minha”, referindo-se ao abafar as cordas com os nós dos dedos que se tornou mundialmente célebre. São coisas das quais não se conseguem registar direitos de autor. É difícil esquecer o que acontece quando Luís Gil Bettencourt agarra numa guitarra, qualquer que seja. As dedadas frenéticas e os strums prestidigitadores magnetizam qualquer apreciador, e são o símbolo do que eu gostaria de chamar a “bettencourtização” da música.

Neste “Antes que a Voz me Falte”, Luís mostrou um lado saudosista, mas a voz não lhe faltou.
— Vocês vêm ao meu funeral e aplaudem? — desabafou ele, contrariando o sabor a despedida. Falou com ironia do problema que lhe alterou os planos para o futuro.
— Na Terceira, a gente chama de tosse. Vocês sabem o que é tosse? — arrancou gargalhadas da plateia.

Na que foi considerada a última grande actuação “cantada”, falou de um novo disco “Coisas Alheias”, ou seja, não se vai desligar da música. Não acreditamos e não queremos que o faça. Uma das provas de que isso não pode acontecer foi o momento mágico em que pegou na Viola da Terra. Com a sala iluminada q.b., um holofote descia directamente sobre ele; embatia no espelho no cimo da “viola dos dois corações” e produzia um efeito deslumbrante: o delicado feixe luminoso derramava-se pela sala, como um farol que nos guia a bom porto. No final, ouviram-se os tímpanos e a trompa a acompanhá-lo. Depois, desabafou acerca de nem sempre sentir que pertence aos palcos:
— Vocês fizeram-me sentir como se eu pertencesse aqui! — e as lágrimas humedeceram a sala.

A ovação de pé foi interrompida por ele. Diz não gostar de palmas. Se assim não fosse, o aplauso merecia durar até ao dia seguinte.

Luís Gil Bettencourt não ficou na aurícula: já vivia lá! E queremos continuar a ver o nome dele nos cartazes!

Haja saúde!