Liberalização dos céus

Nunca pensei no espaço aéreo como um território liberalizável. Quando se é dono de um palmo de terra, faz-se um sulco no chão com uma cana verde ou erguem-se muros para dividir fronteiras. Quando se tem dinheiro, o destino é a conta bancária ou o miolo do colchão de palha. Se há um bem móvel – daqueles com rodas – arranja-se maneira de o trancar à chave. Então, como é que se passa um ferrolho no céu?

"Patterns", por Laura Barnard
“Patterns”, por Laura Barnard

Se não considerarmos o habitual capacete de nuvens cinzentas, enviado com amor pelo anticiclone, também ele emigrado para terras de Sua Majestade, só podemos fronteirar o céu com papel e tinta. Com uma lei, escrita por advogados – e para advogados –, que permita que alguém se levante e explique: “ah, isto aqui diz que este céu só pode ser navegado por aviões azuis-e-brancos”.

Se um avião cruza o nosso espaço aéreo, não paga portagens, como os automóveis nas autoestradas? Não daria para encher tanques de aviões, pelo menos para as viagens só de ida? É porque os residentes adoram viver isolados do mundo, adoram só poder sair do celibato por mais do que um parisiense paga por um espetáculo no Moulin Rouge.

Mas talvez não seja bom que um açorenho se cultive e viaje muito: corre-se o risco de ele ficar mais inteligente. Talvez não seja bom que venham mais turistas: há sempre o perigo de se embebedarem e destruírem as paragens de autocarros. Além disso, um espetáculo de cabaret não passa de um desfile de modelos seminus dançantes, não se aprende nada ali. Mas um lisboeta pode ir a Paris vê-lo e regressar com mais dinheiro no bolso do que se viesse aos Açores ver uma tourada à corda.

Aliás, basta um mariense querer ver uma tourada à corda: ou é jovem e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos jovens que vão de barco; é idoso e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos idosos que vão de barco; é trabalhador e vai de barco; ou é poupado e abdica das milhas acumuladas por uma vida inteira e vai num tubo metálico voador azul-e-branco. Também se pode ir de iate ou de jato particular, mas isso é só para quem consegue parir companhias aéreas.

in Diário Insular, 14 de maio de 2014

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