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O regresso da Atlântida

Decorria o mês de setembro de 2013, quando se anunciou a chegada do romance “Capítulo 41: A Redescoberta da Atlântida”. Pouco se sabia do eco que poderia provocar, mas cinco anos após o seu lançamento e consequente entrada para o Plano Regional de Leitura dos Açores, percebe-se agora que é algo mais do que um mero livro.

“Este Capítulo 41 (…) fica a constituir um marco na literatura de ficção dos Açores”, escreveu Santos Narciso, algo que nem todos compreendiam naquele momento.

Anunciando a sua 3ª edição, no próximo sábado, dia 22 de dezembro, entre as 10h00 e as 13h00 e as 14h00 e as 16h00, decorrerá uma sessão promocional no espaço da Feira do Livro, na Rua dos Mercadores, em Ponta Delgada, um convite da editora Publiçor / Letras Lavadas. A iniciativa contará com a presença do autor, Pedro Almeida Maia, que estará disponível para conversar com os leitores e para incluir dedicatórias nos livros, um toque personalizado naquela prenda especial para este Natal.

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Recorde-se que este trabalho do autor açoriano aborda os temas da localização da Atlântida perdida de Platão e a sua ligação ao que hoje são os Açores, revelando também descobertas arqueológicas que têm reacendido a polémica da passagem de outros navegadores pelos Açores antes dos portugueses.

Surfar na biblioteca

No passado dia 13, tive o prazer de comunicar com alunos da Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade. A distância que separa Coimbra de Angra do Heroísmo pareceu desaparecer durante a videoconferência que pretendia abordar a experiência da escrita nos tempos de hoje.

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A iniciativa “Aproveita a onda das TIC e vem surfar na Biblioteca”, além da cooperação da escola e do corpo docente, realizou-se após o convite da Associação Cultural Burra de Milho.

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O evento de apresentações nas escolas está enquadrado na Mostra LabJovem, Concurso Regional de Jovens Criadores dos Açores, cuja edição anterior selecionou a novela “Nove Estações”.

A espera de Edith Piaf

O Pico da Vara é o ponto mais elevado da ilha de São Miguel, onde, em outubro de 1949, uma aeronave Lockheed Constellation da Air France conheceu a sua última morada. Não deixou sobreviventes. O voo deveria fazer escala para reabastecimento no aeroporto de Santa Maria. Antes da hora prevista, o comandante informou estranhamente a torre de controlo de Vila do Porto que conseguia ver a pista. Entre a uma e as duas da manhã, recebeu permissão para aterragem. Não voltou a comunicar.

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Fonte: http://aviatechno.net/constellation/cerdan.php

Entre os onze tripulantes e os trinta e sete passageiros que seguiam de Paris para Nova Iorque, seguia o argelino Marcel Cerdan, campeão do mundo de boxe na categoria de pesos médios. Tinha perdido esse título pouco tempo antes da viagem fatídica. O ídolo do boxe, cuja morte foi muito chorada em França, seguia ao encontro do seu grande amor — a reconhecida diva Edith Piaf —, que o esperava na cidade americana. Também perdeu a vida a famosa violinista, Ginette Neveu, encontrada agarrada ao seu Stradivarius, diz o povo.

Grande parte da população circundante, tropa, artilharia, médicos e enfermeiros, acorreram ao local de difícil acesso para prestar a sua ajuda; até o Flores e o Madeira — patrulhas da Marinha de Guerra — zarpam do Porto de Ponta Delgada na direção do que parecia ter acontecido no mar.

O povo conta que joias, dinheiro e relógios foram trazidos como souvenirs por alguns ousados, que até recorreram a práticas desumanas para obter anéis, por exemplo, talhando a parte do corpo que os prendia. Diz-se que muitos desses artefactos ainda estão nas mãos de alguns colecionadores. Imensas casas chegaram a ser revistadas pela polícia francesa, representada por Deleves Mirapois, que se fez deslocar ao concelho de Nordeste. Depois, uma procissão de autoridades francesas e de restos mortais dos trinta e oito corpos resgatados caminhou até à Igreja de Algarvia, perante o olhar desolado da população.

A notícia chegou aos tabloides gálicos e gerou-se um atrito entre França e Portugal, mas também deu origem a outras repercussões internacionais. O corpo de Marcel Cerdan foi levado para o seu país de origem e esteve em câmara ardente em Sidi Bel Abdés. Durante os dias de luto, a guerra entre a resistência argelina e os militares de ocupação franceses foi suspensa.

Ilhéu Conimbricense

Mudança é vida. Fazer as malas e deixar para trás um arquipélago inteiro pode não parecer doloroso, mas as ilhas têm pessoas, e uma parte delas está no meu coração. A rotina diária tem imenso para me ocupar, mas a saudade está sempre presente, como se andasse na rua com um balão amarrado ao dedo, a esvoaçar por cima de mim. Sabe bem apreciar o movimento desta cidade a contradizer a pacatez do rio, mas há uma coisa que me faz falta nestas águas: o sal. Não é o do oceano, é o das lágrimas que enfeitam os meus sorrisos.

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Este foi e pode voltar a ser o meu discurso, mas a verdade é que as mudanças são essenciais à sobrevivência. Não me refiro à sobrevivência crua, aquela das necessidades básicas, mas sim à que alimenta a alma. Abracei o mote de que “um escritor que não viaja não escreve, circunscreve-se”, mas posso adaptar essa mesma premissa a qualquer âmbito da vida pessoal e profissional. Rasgar os horizontes é descobrir que somos capazes de fazer mais e melhor. O dia em que se abandona a zona de conforto é o dia em que se começa a viver. As águias constroem os ninhos à beira de precipícios, e as crias não têm outra hipótese senão aprenderem a voar.

Esta também é uma cidade com história, cultura, alma, fado, ciência e conhecimento. Mata-se a sede do saber e entra-se nos rituais académicos, para o bem e para o mal. Por aqui passou Antero de Quental e estas paisagens inspiraram outros poetas e escritores aclamados. Não procuro aclamação, mas admito ter cortado o cordão umbilical das letras. Foram-me colocados novos desafios, novas metas, e não tenho como dizer não. Só digo não se me pedirem para cortar as minhas raízes.

IMG_4409É a sede pelo conhecimento que me move, o querer perceber, entender e depois transbordar. É esta psicologia misturada com trabalho que me começa a entrar no sangue e a mover-me em direções excitantes. Em qualquer mar que se navegue, alguma coisa tem de ficar para trás para que se chegue mais adiante. Seja para um futuro melhor, para nós ou para os nossos filhos, para os nossos ou para os vossos, para os próximos ou não tão distantes, quer seja pela crise, pela escassez ou pela fraqueza, um homem não pode ficar só a olhar. Tem de agir.

O majestoso Mondego não tem sal nas suas águas, mas tem agora um ilhéu que o admira, longe da casa que o viu nascer, longe do mar que o viu crescer. E esse ilhéu está a renascer.

Encontro de Escritores “Pedras Negras”

10411953_929937310400812_967047217096821261_nQue o Azores Fringe Festival coloca os Açores no mapa-múndi das artes, já todos sabem. O que alguns desconhecem é a energia que emana das partilhas que este acontecimento internacional proporciona. Com o epicentro na ilha do Pico, e réplicas por outras ilhas açorianas, os eventos diários transformam o mês de junho num bouquet artístico de renome.

Depois do efervescente espetáculo de abertura, na sexta-feira, que trouxe encenações de música, dança e até cuspidores de fogo, tinha chegado a hora da literatura. O encontro de escritores “Pedras Negras” revelou-se pela magnitude das emoções e experiências partilhadas através da visão de cada qual, tal como se define o mundo dos livros e da palavra escrita. Naquele primeiro momento, Pedro Paulo Câmara e Carolina Cordeiro traçaram uma admirável antologia de escritores açorianos de outros tempos, Gabriela Silva apresentou entusiasticamente “Os Três Florentinos”, acerca dos autores idos da sua ilha, e Manuel Tomás contou estórias deliciosas dos seus tempos de convivência com o escritor picoense Dias de Melo.

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Mas as maiores surpresas aconteceram no sábado, fora dos auditórios e longe dos holofotes. A primeira foi a visita informal à residência de Dias de Melo, em Calheta de Nesquim. Depois de se falar da obra e vida do escritor, no dia anterior, zarpou-se à descoberta de outros pedaços da sua existência. Desde que partiu deste mundo, em 2008, que a casa onde passou os seus últimos dias está entregue a si mesma. É triste ver ao abandono os alicerces do que resta da vida de um grande homem. O segundo momento recompensador foi o generoso convite para conhecer o escritor Ermelindo Ávila na sua própria casa. O ambiente enriquecido pelas coloridas paredes vestidas de livros e de fotografias deixou o grupo de alma cheia. A figura inspiradora do autor picoense, que celebra o centenário ainda este ano, reavivou a paixão dos presentes.

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Durante a tarde, partilharam-se experiências literárias entre os escritores convidados. Tive o prazer de falar do caminho já trilhado e de ficar a conhecer melhor os percursos de Carolina Cordeiro, Cátia Martins, Gabriela Silva, Helena Pereira, Lucília Gonçalves, Malvina Sousa, Nuno Cabral e Pedro Paulo Câmara. Ilda Silva trouxe as obras de Amélia Meireles e de Patrícia Carreiro. Conhecer estas pessoas e as suas histórias foi uma lufada de ar fresco! Terry Costa, diretor da MiratecArts, anunciou também Nuno Rafael Costa como o vencedor do Prémio Discover Azores 2015, com o seu texto Amor-Basalto. Ao final do dia, presenciámos a cerimónia de lançamento do livro O Pintor Excessivo, de Manuel Tomás. Os eventos decorreram sempre debaixo da objetiva atenta de Mário Lino e com a companhia da artista Verónica Melo.

11252243_832555380169871_7303501761994773272_nA vertente gastronómica do Azores Fringe Festival não pode ser posta de parte. Depois de várias incursões nas especialidades da culinária picoense, o encontro terminou no domingo com o “Brunch de Letras”, mais uma oportunidade para ligar a literatura ao prato. Declamou-se poesia de uns e de outros, para outros e para todos. Terry Costa, além de responsável por colocar o local de Mirateca num pedestal, está mais uma vez de parabéns, por proporcionar a união dos açorianos através das artes. Um exemplo de empreendedorismo que quebra fronteiras e trilha novos caminhos, mesmo com recursos limitados. Imagine-se o que poderia ser feito com os cordões da bolsa desapertados.

Batéis de Lava

A minha torre de controlo fica do lado dos Mosteiros. A vista é amorosa. Demasiado ventoso, no entanto. Os rebocadores vão na frente, arrastando São Miguel e Santa Maria. Esta manhã, avistei a Terceira e comuniquei com a torre deles. Murmuraram que aquilo era histórico. Li o manifesto de carga, autorizei-o com uma impressão digital e avisei a coitada da Mafalda que ia descansar. Via-se o quebranto na cara dela, naquele sorriso esmorecido, mas o balançar estava a nausear-me. Fui egoísta e recolhi-me aos meus aposentos.

O quarto está cada vez mais nojento, cheio de embalagens de comida e latas vazias de cerveja sintética. Afastei um par de calças e um blusão, para poder esticar as pernas na cama. Dizem que eu devia viver noutro lugar do mundo, mas acho que o melhor está para chegar. Desde aquele dia histórico, em que o primeiro voo de baixo custo pisou solo micaelense, que ando à espera. Já lá vão vinte anos. Sou paciente.

Quando começou a era low-cost, pensaram que o turista de bilhete económico só andava de mochila e de chinelo no dedo. Esqueceram-se de que, quando se poupa na viagem, gasta-se no destino. E quando se pode gastar mais, exige-se mais. Seis anos depois, deu-se o clique. Esta geração começou a mostrar o que valia. Foi quando recebi o telefonema que mudou a minha vida: “Francisco, querem contratar-te para liderar a Operação Batéis de Lava”.

Os especialistas em geologia, vulcanologia, oceanografia, sismologia, e de tudo o que acabava em ia, queriam uma coisa inédita: unir as nove ilhas. Fisicamente. Na altura, gargalhei, mas são eles que agora me pagam. Primeiro, apareceram as lanchas rápidas, táxis marítimos interinsulares com viagens frequentes, incluindo ligações a Lisboa e à Madeira. Depois, queriam pontes, mas eram muito caras. Um tal arquiteto desenhou uma rede tubular subaquática, comboios magnéticos de alta velocidade em túneis submersos, mas foi a loucura que venceu: “vamos partir os alicerces das ilhas e rebocá-las”, disseram-me. Seríamos uma só ilha, um só povo. Seríamos?

Desconfiei de estarem sob o efeito de alucinogénios ou a ler A Jangada de Pedra. O certo é que Saramago tinha antevisto que a Europa se desmantelaria, e a União Europeia acabou por se transformar na União do Norte. Os países do sul, que eles carinhosamente tratavam por PIGS, foram mesmo chafurdar para a pocilga, e o euro para a numismática que os pariu.

“Juntemos as ilhas!”, apregoavam. Na televisão e na hipernet só se falou disso, durante anos. Foram debates mais acesos do que quando a companhia aérea regional também se tornou barata, mesmo para as Américas — aquilo é que foi uma briga de comadres, com os podres todos a brotar!

O Pico era intocável, porque era uma ilha pesada e dava uma boa âncora. A Horta estava montada na Madalena, Velas de São Jorge colada a São Roque do Pico, e a Graciosa encaixada entre o norte do Faial e a Ponta dos Rosais. O Grupo Ocidental já terminava a viagem, com a Vila do Corvo encravada na Ponta Delgada florentina. Estavam a encanar Santa Cruz das Flores pela Ponta dos Capelinhos adentro. Os jorgenses não queriam ficar sem a Fajã de Santo Cristo, por isso, o Monte Brasil ficou ao lado. Comigo nos comandos, o norte de Santa Maria enfileirou-se na baía da Povoação, e as duas ilhas do Grupo Oriental flutuam, agora, de braço dado, com o Ilhéu da Vila e as Formigas a reboque. Estamos a caminho da Terceira. A marina de Ponta Delgada ficará defronte dos Biscoitos e Vila Franca do Campo vai fazer baía com a Praia da Vitória.

Tenho visto muita coisa: a população a aumentar, a escassez da água, os hotéis espaciais, o aumento das temperaturas, a queda dos drones, as migrações para norte, as próteses biónicas, a cura para a doença de Alzheimer, os desportos para a quarta idade e a extinção dos rinocerontes. Diziam que a tecnologia ia ultrapassar todas as barreiras. A hipernet liga os computadores, eletrodomésticos, robôs e candeeiros de mesa. Fez ruir empresas e deu voz aos pacóvios. Só quando todos se fartaram de ler mediocridades nas redes sociais é que se começou a construir um mundo novo.

Lembro-me de sonhar com esse mundo, quando era jovem. Tinha o sangue na guelra e muitas ideias, mas poucos as ouviam, e ainda menos as valorizavam. Era difícil vingar rodeado de fatos cinzentos e gravatas escarlate, mas cada um sabe do que percebe. É preciso trincar-lhes os calcanhares para se meterem no seu lugar. Sim, porque nem todos são filhos ou cunhados de peixe graúdo. É preciso valorizar o saber-fazer, mais do que o politicamente elegante. E há tanta gente que sabe fazer! Eu sei fazer tanta coisa, mas nunca me pareceu que precisassem disso, aqui.

Não se vive só de ideias, mas o amanhã aproxima-se, um dia de cada vez. Além disso, para mudar o futuro de uma sociedade, primeiro temos que imaginá-lo. As coisas mudaram. Admiro as máquinas de lavar vacas, que tocam música clássica e tratam-nas pelo nome, enquanto lhes esfregam o coiro. Aumenta-lhes a produção. Os agroturistas pagam fortunas para lhes tirar o leite — sem quotas —, conduzir tratores, apanhar batata e dormir à lareira. Como é que ninguém se tinha lembrado disso? Valorizamos o que produzimos e o que temos, e o produto daqui é melhor do que o de fora. E o mar é a nossa casa. Sempre foi, mas agora é mais. Tantas milhas de território, que quase perdemos, por causa das gravatas escarlate. As modas são a maricultura e a extração de minerais que curam doenças e valem fortunas. O fundo oceânico é nosso e somos líderes na oceanografia. É muita coisa nova a acontecer.

Convidei a Mafalda para uma ida ao refeitório. Enquanto comíamos uma queijada de maracujá e bebíamos Kima de beterraba, falámos de como seria a vida numa ilha só. Continuavam a ser nove, disse-me ela, mas num território unificado, que juntaria culturas, políticas, recursos e uma educação que abriria as mentes. E também juntaria as vacas. “E as pessoas?”, perguntei-lhe, mas ela não respondeu.

in Açoriano Oriental, 18 de abril de 2015
(edição comemorativa do 180º aniversário)

“Nove Estações” em Lisboa

No primeiro de novembro, dia de prantos aos já idos, a cidade de Lisboa abriu as portas aos Açores. O espaço do Studio Teambox aperaltou-se para a Mostra LabJovem 2014, que incluiu nas prateleiras a tímida edição de bolso do Nove Estações. Este texto, que muito me aprazeu escrever, marca o final de mais um ciclo de amadurecimento, em que a variação estilística desvenda mais um pouco do que sou e não sou, mas também uma viagem à descoberta de outros tesouros para o futuro.

Fotografia da autoria de Tiago Maia.
Fotografia da autoria de Tiago Maia.

A passagem pela capital reacendeu antigos desejos de expansão, de quebrar fronteiras, como se tudo estivesse ao alcance da moeda atirada ao poço. Apesar da mesma língua — a de Camões —, na metrópole tudo se desprendeu, e os abraços souberam a verdadeira lusitanidade. Depois deste episódio, para a posteridade fica o momento marcado do virar da página, do novo capítulo, da partida para o futuro utópico que aí vem. O inverno trará o recolhimento e a colocação no papel desta maturação, tal receita que precisa de fermentar.

À cidade, digo adeus, com sabor a “até já”, porque é cada vez maior o número — e a qualidade — das pessoas e coisas, que por mim acenam, daquele lado do mar.

Filipe Frazão em Fast Forward

Há coisas que não se explicam, principalmente as que queremos mesmo explicar. Quando o conheci, ele era o baixista tímido e calado dos Anjos Negros. Tocava as notas certas, acertava no ritmo, agitava a anca moderadamente, mas mantinha-se acanhado, a um canto, quer na sala de ensaios, quer no palco. Pouco mais do que um sorriso e uma saudação obsequiosa se conseguia arrancar do rapaz.

Um dia, apesar de já ser noite, a meio de uma jantarada de amigos — que são mais do que família —, a vadiagem andava sorrateiramente na sala de estar, a remexer numa aparelhagem stereo, daquelas que ainda trazem o rótulo de hi-fi. No meio da alta fidelidade, mete disco, tira CD, e não é que me apercebo de que o rapaz acanhado tinha cantado para o microfone? Era uma gravação dele próprio, com uma voz vacilante, mas colocada, a reverberar pelas colunas e a encher a sala de carisma. Os colegas de grupo incentivavam-no, não imaginando que dali viria o projeto Lado Lunar e um dos mais recentes fenómenos da proatividade.

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Foto: Arnaldo Viveiros

Filipe Frazão não tem descansado desde então. Lembro-me de ouvir Straight Up e de ver ali um bom motor de arranque, embora ainda faltasse um pó de instrumentalização. Depois chegou Vai Ser Feliz, que evidenciou a sua primeira capacidade de diversificar o estilo. Também conquistou aqueles ouvintes sequiosos por mensagens positivas. A seguir, o Café da Saudade veio trazer a aura nostálgica e melíflua da composição ébria de Frazão. Como se não bastasse, encheu a alma dos seus seguidores com o caloroso Já Chegou o Sol, lembrando que “lá fora há um mundo para sentir”. As mensagens tornavam-se mais recheadas de significado, e é isso que se quer da música: uma boa mensagem. O sucesso seguinte foi Deixo a Cidade, e ele afirmou que “tudo vai ficar bem”. Eu concordei. Mas, melhor do que ficar bem, é ficar melhor, e Filipe Frazão sabia disso, quando escreveu É Tão Bom. É o seu mais recente êxito, mas não duvido que estejam outros a caminho.

Filipe Frazão conquistou os tops das rádios locais e prepara-se para fazer o mais difícil: conquistar outros tons em territórios mais alargados. Cuidem-se, porque ele está a caminho. Filipe Frazão tem no nome as iniciais para Fast Forward, e é assim que ele trabalha, em alta velocidade. O rapaz tímido já não o é. Ficou no ouvido, na aurícula. Abram alas.

in Jornal Terra Nostra, 06 de junho de 2014

El Açor: e vão quinze!

O éfe-erre-á ouviu-se várias vezes naquelas duas primeiras noites de primavera, em alusão ao acrónimo original conimbricense — F-R-A: Frente Revolucionária Académica. Em 1938 o grito tinha índole político, mas agora serve propósitos comemorativos, embora muitos ainda precisassem de um bom chiribitatatata. Foi com espírito revolucionário, mas pacífico, que as tunas invadiram o palco do Coliseu Micaelense para o XV Festival Internacional de Tunas “El Açor”, nos dias 21 e 22 de Março de 2014. Desde o último ano do século passado que a Tuna Masculina da Universidade dos Açores, conhecida intimamente por Tunídeos, organiza o evento icónico, que conta com a apresentação originalmente imprevisível dos hilariantes Tunalhos. O público duvidava para onde dirigir a atenção, sem saber se aplaudia mais os intervalos divertidos ou as atuações memoráveis.

xv_elaorEsta comemoração tunificadora do espírito académico já passou pelo Teatro Micaelense e pela Aula Magna, mas o coliseu é o mais recente epicentro do contágio da cidade com humor, música e solenidade. A cultura regional açoriana já não passa sem este convívio tunante de cardumes escombrídeos desenlatados. Os tunadores vêm de todo o país e arredores, com os seus contrabaixos, guitarras, bandolins, cavaquinhos, violas da terra, violinos, acordeões, flautas, tambores, pandeiretas, estandartes e bandeiras. A festa é arrojada, a arte do pandeiretismo deixa boquiaberta a audiência e as bandeiras esvoaçantes elevam o espírito estudantil.

A palavra tuna provém do francês tune, “hospício de mendigos”, e do castelhano tuna, “vadiagem”. Talvez sejam esses os ingredientes fulcrais à tunantaria, aquele calor que passa dos palcos diretamente para os corações da assistência. E assim conseguiram encher a alma e lotar a sala, com tunantagem e sem chantagem. O recinto repleto bombeava entusiasmo, numa mescla universitária festiva, com direito a camarote para a nobre psicossaurologia. Se aquelas noites fossem uma praxe, todos quereriam ser praxados.

Foram convidados especiais os Brass Band, mas também subiram ao palco da primeira noite a mui nobre Tuna Académica da Universidade dos Açores (TAUA); a fantástica Tuna de Tecnologias da Saúde do Porto (Tuna TS), depois de três saudosos anos de interregno; a ilustre “mais jovem e mais velha” tuna açoriana, Real Extudantina dos Açores (RExA); e ainda a galardoadíssima Tuna Universitária de Trás-os-Montes e Alto Douro (Transmontuna). O dia dois prendou a audiência com a sempre glamorosa e encantadora Tuna Feminina da Associação Académica da Universidade dos Açores (Tuna com Elas); a Tuna Académica do Instituto Superior de Engenharia do Porto (TAISEP), cujo lema é “diverte-te a ti mesmo e só depois os outros”; a Tuna do Distrito Universitário do Porto (TDUP), que dá o prazer da visita ao festival pelo segundo ano consecutivo; e a Tuna Mista da Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (Enf’ In Tuna), que tão musicalmente cuidará de nós nas enfermidades.

Foi com a já imprescindível e inimitável curta-metragem de qualidade tunal que se deu o início do fim, o encerramento com chave de ouro pelos anfitriões do evento. Depois, o aguardado momento da distribuição dos prémios: Melhor Estandarte: TAISEP; Melhor Pandeireta: Tuna TS; Melhor Solista: TDUP; Melhor Original: Tuna TS; Melhor Instrumental: RExA; Tuna mais Tuna: Transmontuna; 3.ª Melhor Tuna: TAISEP; 2.ª Melhor Tuna: Tuna TS; Melhor Tuna: RExA.

Os Tunídeos são de parabenizar, não só pelas atuações de grande nível, por juntar no palco a multidão dos antigos elementos ou pela originalidade do jocoso sketch musicovideográfico, mas também pela organização e dinamização deste evento marcante. Um apontamento para a inovação deste ano: os elementos transversais a toda a encenação, Super Mário et al., que interrompiam e intercalavam inteligentemente as performances. Outra vénia vai para a iniciativa da oferta de uma cadeira de rodas a quem muito precisava. É em tempos difíceis que as grandes mentes emergem.

Na festa depois da festa, para não inglesar afterparty, o campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores pareceu iluminado, animado e recheado de vida. Tal e qual um dia de aulas normal, passo o sarcasmo. Nesta grande festa do “El Açor” ficou tudo bem impregnado na retina, no palato…. e na aurícula. Venham mais quinze!

in Jornal Terra Nostra, 4 de abril de 2014

Açorianos em destaque nacional

A literatura açoriana está de parabéns. O escritor e ensaísta Miguel Real acaba de destacar, na sua crónica do quinzenário Jornal de Letras de 22 de janeiro a 4 de fevereiro de 2014, nomes da nossa praça. Segundo o crítico literário, “nos Açores, sobressai a continuidade de estilo e de tema nos novos romances de Pedro Almeida Maia, Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida, e Paula de Sousa Lima, Mas Deus não dá licença que partamos, autores cuja arte de escrita abre novos horizontes ao romance açoriano, especialmente, sobretudo o primeiro autor, na superação do labirinto de tristeza, saudade e melancolia de que a literatura açoriana tem vivido”.

20140122_JLNeste resumo do melhor que se fez no ano transacto, intitulado “2013: evolução na continuidade”, Miguel Real coloca a literatura regional lado a lado com grandes nomes do panorama nacional. Nas revelações, destaca autores como Ana Margarida de Carvalho, Raquel Freire, Bruno Vieira Amaral, Hugo Gonçalves, Paulo M. Morais, Filipe Homem Fonseca, Rodrigo Magalhães e Pedro Eiras, mas também com outros relevos, como Valério Romão, Manuel da Silva Ramos, Nuno Júdice, Rui Zink, Rui Vieira, António Cabrita, Carlos Alberto Machado e Afonso Cruz. Enfatiza igualmente as obras de Joana Bértholo, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Francisco Camacho, Carlos Campaniço (Prémio Cidade de Almada), Nuno Camarneiro (Prémio Leya 2012), Luís Carmelo, Manuel Dias Duarte, Fernando Esteves Pinto e Nuno Figueiredo. No romance histórico, o enfoque vai para Fernando Campos e Sérgio Luís de Carvalho. Também na Madeira, e além de Helena Marques, “surgiu um novo escritor, António Breda Carvalho, com o romance histórico O Fotógrafo da Madeira“.

Em jeito de resumo, Miguel Real afirma que, aos “autores veteranos (chamemos-lhes assim)” Rui Nunes, Mário de Carvalho, António Lobo Antunes, Rentes de Carvalho, Manuel Alegre, Agustina Bessa-Luís e Inês Pedrosa, entre outros, “aplica-se em perfeição o título deste artigo”. Na escrita romanesca, “continuam iguais a si próprios” Mário Zambujal, Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, enquanto a surpresa maior vai para a estreia de Teresa Martins Marques no romance A Mulher que Venceu D. Juan, sobre a violência doméstica, o primeiro romance escrito no Facebook.

Mariana, a soberana

A soberania é um conceito difícil de alcançar. Há quem acredite que tal patamar não existe, sequer. Os egípcios falavam em faraós, os gregos em supremos governos, os romanos em imperadores, os plebeus em reis e rainhas, os portugueses em Camões e os açorianos em Pauleta e Nelly Furtado. O poder de um soberano é a soberania propriamente dita, mas é uma autoridade insípida. Usar uma coroa pode parecer imponente, mas pode ser um peso incómodo; a não ser que se seja uma princesa, porque as tiaras aparentam leveza e graciosidade. As coroas de papelão das festas de aniversário, que toda a gente já usou, são mais fáceis de descrever: se descontarmos a comichão que provocam no pescoço, leveza maior não pode existir. Uma coroa de espinhos também não soa a dominância, mas muita tinta e sangue na Bíblia deu a derramar. Já uma coroa de flores significa ocupar o primeiro lugar, subir ao pódio e fazer uma vénia para receber a medalha.

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Foi para isso que Mariana Rocha fez a mala: para subir ao palanquim e ganhar uma medalha de um tal de factor xis. Mesmo que fosse o factor ípsilon, ou , ela estaria lá. O motivo é simples: Mariana, a soberana, tem os três. Ou mais: Mariana Rocha reúne todas as características de uma stage woman, todas as qualidades de uma protagonista, todos os atributos de uma grande intérprete, todos os fatores inerentes a uma verdadeira artista.

16 anos. Quem é que tem 16 anos e canta assim? Ninguém. Assim, como ela, só ela própria, só a Mariana Rocha em pessoa. Não interessa até onde ela pode chegar — que vai ser muito longe —, não interessa se assina contratos com multinacionais, se vai gravar em Abbey Road, se lança uma dúzia de discos, com direito a quádrupla platina dourada com rebordo em diamante, se ganha os próximos Emmys ou os MTV Awards. Não interessa, porque Mariana, a soberana, já ganhou. Ganhou fãs, aplausos, ovações de pé, sorrisos, abraços, alegrias e palcos. Sim, porque os palcos também se ganham. Melhor ainda: merecem-se! Mariana merece os palcos.

Mariana-2Este domingo, enquanto uma parte adormecida deste País em pantanas vai ressonar em frente ao escrutínio de segredos, o lado acordado da sociedade vai aplaudir e votar na soberana: na Mariana. Porque sabem que ela tem aquele ingrediente especial. Mariana contagia com a sua simplicidade, o sotaque indisfarçado, a ousadia e o à-vontade de uma verdadeira entertainer. Enche as salas com energia positiva, sem falsos protagonismos, e leva a voz colocada, controlada, cheia de spring e calor de veraneio.

E que orgulho tem esta terra numa jovem tão promissora, tão cheia de energia e alegria? A força deste povo consegue concentrar-se numa única pessoa, e talvez seja isso que vai acabar por acontecer. Mariana vai carregar a força de gente que quer singrar, vencer, chegar longe! A voz dela será o somatório das nossas.

Os Açores podem ser insularidade e desunião geográfica, mas não há povo igual no que toca a dar as mãos. Quando o chão treme e os vulcões se agitam, os açorenhos cerram os punhos e chamam os problemas a si, desafiam-se à união. Mesmo quando as brumas se espalham sobre águas agitadas, pelos tufões, tempestades e mau tempo, este povo une as vozes e sopra bem alto para limpar o céu, para trazer bom tempo, para abrir canais.

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E agora há uma explicação para quando a terra treme e os vulcões se agitam: é porque a Mariana está a cantar. E quando os céus trovejam? É porque os deuses estão a lançar os dados… e a apostar na soberana.

Os palcos são teus, Mariana. Vais ficar definitivamente na aurícula. E este povo está contigo!

in jornal Correio dos Açores, 28 de Novembro de 2013

O regresso a casa

Há viagens com significado, mas os regressos podem ter sabores especiais. Este teve, depois do convite de Vasco Pernes para mais uma noite bastante sentida.

Na companhia da dinâmica mulher das letras, Patrícia Carreiro, que também apresentou o seu Fio Perdido, recapitulou-se a experiência nas lojas FNAC, as apresentações de Joaquim Fernandes e Miguel Real e a organização exímia de Terry Costa da MiratecArts na ilha do Pico, nas mais recentes aventuras literárias. Mas também falámos de futuro, de utopias, de Vamos Sentir com o Necas e de outros projetos vindouros.

Neste programa, Vasco Pernes também convida os músicos André Jorge e Luís H. Bettencourt, a Escola Profissional de Vila Franca do Campo e a Tertúlia do Petisco. Para ver o episódio completo, clique aqui.

O capítulo viajante

Para não correr o risco de ficar circunscrito, o tubo metálico azul e branco da companhia aérea arquipelágica contrariou a gravidade e permeou as nuvens. Deixou a ilha verde, rumo ao território da metrópole, sedento de mares atlânticos, talvez nunca dantes navegados. Se publicar e ver reconhecido um pequeno percurso literário tem sido uma escalada prazerosa, a ida às lojas FNAC foi um bungee jumping invertido.

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Na cidade invicta, o professor universitário e autor Joaquim Fernandes brindou a audiência com extratos da prodigiosa História deste país à beira-mar plantado. Depois, falou da lenda, tão bem narrada por ele próprio, do Cavaleiro da Ilha do Corvo, obra que também inspirou o Capítulo 41.

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Já por terras lisboetas, Alfragide destacou o evento e recebeu de braços abertos as letras açorianas.

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A loja FNAC do Centro Comercial Colombo encerrou a odisseia da melhor maneira possível, com uma palestra motivadora e enriquecedora do grande Miguel Real.

Capítulos com bom tempo

10 de Setembro passou e deixou boas recordações. Amigos, família, entidades  e leitores anónimos juntaram-se na mesma sala e beberam do mesmo entusiasmo que esta aventura tem trazido.

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Uma experiência sensacional, cheia de momentos emotivos e de palavras sentidas. Discursos impactantes e recheados de energia positiva para o futuro.

Desde os anfitriões da acolhedora Biblioteca Púbica e Arquivo Regional de Ponta Delgada até aos ilustres convidados, tudo pareceu estar alinhado para uma noite memorável. E assim foi.

Emoções que prometem repetir-se brevemente. Os eventos e as oportunidades sucedem-se, cada vez com maior significado. Aproximam-se novos desafios, e alguns deles requerem mais dedicação, mais empenho, mais trabalho. Estou grato a todos os que têm acompanhado este curto percurso, e reconhecido a quem se tem colocado ao meu lado. Obrigado.

Porquê Açores?

Quando questionado pelos motivos que me levam a escrever sobre os Açores, não surge propriamente uma explicação que vá muito além da fervorosa paixão nutrida pela Terra-Mãe. Apesar de considerada uma Região Periférica — e abusivamente rotulada de ultraperiférica —, a visão que tenho destes nove territórios unidos pelo mar é de centralidade. Em vez de nos considerarmos periferia, aplaudo quem se consiga olhar como centralidade daqui por diante.

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Com duas das 7 Maravilhas Naturais de Portugal — eleitas de entre um total de cinco candidatas —, incluídos na lista dos dez melhores locais para observação de cetáceos a nível mundial, nos melhores cinco destinos vulcânicos, no Top 10 dos destinos Budget Travel, destacados como os melhores locais para férias por publicações como a Visão e a Forbes, no Top 25 dos guias turísticos da Fodor´s Travel Intelligence, no topo das “bagatelas” do The Independent, considerados o melhor destino turístico “verde” de toda a Europa pela Quality Coast Gold desde Maio de 2012, o melhor destino ecológico 2012 e 2013 pela European Coastal and Marine Union, e detentores de um engrandecedor 2º lugar da lista das mais belas ilhas do mundo pela National Geographic, porque não aproveitar e dar lugar a uma perspectiva mais enriquecedora? Os Açores estão no umbigo do oceano, na crista da cordilheira Atlântica, no centro do mundo, num ponto triplo da tectónica de placas, a meia-distância das maiores potências mundiais, e faço questão de elevar esse paradigma pela literatura, pelo menos enquanto tiver forças! E quem quiser acompanhar será sempre bem-vindo.

A brasileira açoriana

Faltava cerca de hora e meia para comemorarmos quarenta anos menos um da passagem do hino histórico de Zeca Afonso “Grândola Vila Morena” na rádio, em sinal de início de revolução, e já o Teatro Micaelense estava revolucionado. Na segunda sessão consecutiva de casa cheia, Adriana da Cunha Calcanhotto subiu ao palco e recebeu o caloroso aplauso de boas-vindas.

Monumento aos Açorianos
Monumento aos Açorianos

A aclamada cantora e compositora brasileira, também conhecida por Adriana Partimpim, falou da particularidade emocional de actuar nos Açores, principalmente devido às suas origens: Porto Alegre é a cidade-capital do estado de Rio Grande do Sul, fundada por casais açorianos no século XVIII, na sequência do Tratado de Madrid e por ordem do rei português: o “Largo dos Açorianos” ostenta o monumento onde se pode ler “jamais sonhariam aqueles casais açorianos, que da semente que lançavam ao solo nasceria o esplendor desta cidade”. Hoje em dia com quase um milhão e meio de habitantes, a metrópole fundiu-se novamente com as suas origens, desta feita através da música emblemática de Calcanhotto, que confessou ter finalmente percebido o porquê de os açorianos terem escolhido Porto Alegre para viver — “um lugar onde também faz quatro estações num dia”, disse ela.

Filha de um baterista de jazz e de uma bailarina, recebe um violão quando chega à meia dúzia de primaveras e deixa-se influenciar pela música popular brasileira. Enquanto cresce, actua em alguns bares da cidade-natal, no seu estilo inconfundível de “uma mulher e o seu violão”. Lançou “Enguiço” em 1990 e não mais parou, os discos de estúdio seguiram-se: “Senhas” (1992); “A Fábrica do Poema” (1994); “Maritmo” (1998); “Público” (2000); “Cantada” (2002); “Maré” (2008); e “O Micróbio do Samba” (2011). Nos álbuns infantis, iniciou-se com o badalado “Adriana Partimpim” (2004), vencedor do Grammy Latino 2006. Depois, “Partimpim Dois” (2009) e recentemente “Partimpim Tlês” (2012).

Foto de: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)
Foto: Fernando Resendes (Teatro Micaelense)

O encore trouxe “Fico Assim Sem Você”, depois da enormidade de êxitos que desfilaram entre a doce voz e os dedos teimosos no violão. É incrível como a simplicidade enche recintos! Outro dom que o povo brasileiro tem, além da sonoridade cadenciada do sotaque, é a partilha. Sim, devíamos aprender com eles. Muito banalmente trocam letras, melodias e composições, interpretam-se uns aos outros sem preconceitos.

Enfim, Adriana fica na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 3 de Maio de 2013
in Jornal Paper.li #MPB (Brasil), 3 de Maio de 2013
in Revista Arepa Salsa Jazz (Brasil), 6 de Junho de 2013

Próximo capítulo: 41

Em recente conversa com Vasco Pernes, no talk-show da estação açoriana “Noite dos Sentidos”, levantou-se o véu do romance número dois. A entrevista foi para o ar no dia 20 de Abril de 2013, e presenteou os espectadores com novidades acerca do livro que vai suceder Bom Tempo no Canal – A Conspiração da Energia, galardoado com o Prémio Letras em Movimento em 2010.

A ficção policial estreada em Junho de 2012 já teve lugar à 2ª edição: a apresentação decorreu no dia 26 de Abril de 2013 no Teatro Ribeiragrandense, durante a semana cultural PRIMARTE e a convite da Câmara Municipal da Ribeira Grande.

A história que tem John Mello como personagem principal (um drilling engineer da empresa que gere a energia geotérmica nas ilhas, e que vê sabotada a nova perfuração da ilha do Pico) deixa uma ponta solta, além de um capítulo oculto.

Em estilo policial, a sequela intitulada Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida convida o leitor a visitar recentes locais e achados arqueológicos sugestivos à passagem de outros povos pelos Açores antes dos portugueses. Além disso, faz igualmente desfilar informação pertinente acerca da localização da Atlântida perdida de Platão.

O vídeo acima foi editado. Para ver o episódio completo, visite:
http://videos.sapo.pt/6AjwOhzYgK2dnmMRbAAN

Ribeira Grande com bom tempo

O EVENTO

É com enorme regozijo que se apregoa: John Mello regressa à Ribeira Grande! Em conjunto com a Câmara Municipal da CMRG LOGO 2011_12Ribeira Grande e a Universidade Aberta, e inserido no evento cultural PRIMARTE – que liga a Primavera à Arte – o autor Almeida Maia transpõe o livro Bom Tempo no Canal – A Conspiração da Energia para o concelho onde existe a maior expressão da energia geotérmica nos Açores, desta vez na vida real. O evento está marcado para o dia 26 de Março de 2013, data em que se comemora igualmente o DIA DO LIVRO PORTUGUÊS, a ter lugar às 20h00 na Sala Azul do Teatro Ribeiragrandense.

A apresentação ficará a cargo da Dr.ª Patrícia Carreiro, Coordenadora do Projecto EscreVIVER (n)os Açores e membro activo da Associação Ilhas em Movimento. Em representação oficial da Publiçor, poderemos contar com o Sr.º Ernesto Resendes. A mesa incluirá também o Dr.º Luís Almeida, director da Bertrand Ponta Delgada e júri no concurso “Letras em Movimento 2010”.

O CONTEXTO

Green EnergyEsta apresentação assume um significado especial, tanto para o autor – por ser um regresso às origens genealógicas – como para as entidades promotoras, tendo em conta que uma boa parte da acção de Bom Tempo no Canal se desenrola nas encostas da Lagoa do Fogo, concelho de Ribeira Grande. Como é sabido, esta ficção aborda questões relacionadas com a liberalização dos mercados energéticos, e com as Energias Renováveis, com ênfase especial para a geotermia nos Açores. Igualmente de salutar é esta apresentação englobar também o lançamento da 2ª edição por parte da editora Letras Lavadas, ou seja, todos os ingredientes necessários para que seja um momento emocionante estão reunidos.

A PRIMARTE

Desde 2008 que a PRIMARTE é um evento que se realiza no advento da Primavera, organizado em parceria entre a Universidade Aberta NovoCÂMARA MUNICIPAL DA RIBEIRA GRANDE e a UNIVERSIDADE ABERTA. É um acontecimento que tem como objectivo principal celebrar a PRIMAVERA em união com a ARTE. Nesse sentido, congrega lançamentos de livros, concertos musicais, formações, palestras, Feira do Livro e outros momentos de descontracção, como a rubrica “Tomar Café com…”. Todos os anos, entre os dias 21 de Março e 1 de Abril, a Ribeira Grande veste-se de Primavera e celebra-a com as mais variadas demonstrações de Arte.

O LIVRO

O romance Bom Tempo no Canal – A Conspiração da Energia foi vencedor do Prémio Letras em Movimento, organizado pela Associação Ilhas em Movimento em 2010. É uma edição de Junho de 2012 da Publiçor – Letras Lavadas. Surge numa altura em que o planeta necessita de medidas emergentes na gestão das fontes de energia. Anunciado o fim das possibilidades fósseis, como o petróleo – o ouro negro –, quais são os desafios das sociedades modernas? Quais são as alternativas energéticas ao nosso alcance? Como pode a energia geotérmica contribuir para um futuro mais sustentado?

A MÚSICA

Após a breve cerimónia, terá lugar um momento musical com Raquel Dutra, com o seu mais recente trabalho Cantos do Mar e da Terra. O projecto musical nasceu em meados de Janeiro de 2007, fruto de uma proposta endereçada aos seus elementos para, em conjunto, animarem serões a interpretar fado. Reunidos pelo amor à música e partilhando do gosto pela sua terra, entre os três músicos amadores, naturalmente brotou a vontade de tocar, também, temas de origem tradicional açoriana. Adílio Soares, Jorge Dutra e Raquel Dutra, compõem o alinhamento.

O terceiro coração da Viola da Terra

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Cantos de Dutra

E eis que somos presenteados com mais um ano, novinho em folha! Depois de cinquenta e duas semanas de labuta e total entrega – com trunfos e metas alcançadas em alguns casos, expectativas e sonhos defraudados noutros –, cá estamos com outras trezentas e sessenta e cinco oportunidades que nos são oferecidas, de bandeja. É com esse espírito de positividade que o Pavilhão Auricular saúda os seus leitores, e dirige um enorme agradecimento pelo interesse demonstrado em mais um ano de resenhas musicais: muito obrigado!

Raquel DutraTambém passível de ser consagrado numa bandeja – excluindo um bom prato culinário, que desperta os sentidos mais intrínsecos do ser –, é o mais recente trabalho da jovem micaelense Raquel Dutra. No trigésimo dia do undécimo mês de dois mil e doze, as portas vidradas do nosso sublime Teatro Micaelense escancararam-se para deixar passar os ares da música popular açoriana. A apresentação do trabalho “Cantos do Mar e da Terra”, que se previa decorrer inicialmente no Salão Nobre daquela casa emblemática, acabou por se transcrever para o palco principal, tal foi o ajuntamento ao nobre evento. Uma azáfama de povo excitado com o que iria advir inundou o átrio e foi presenteada com uma ainda maior roda-viva: folclore, cantado e dançado de forma distinta, declarada e regada com alegria e boa disposição. A efervescência dos aplausos migrou então para a sala principal, onde nos aguardavam uma guitarra clássica, uma viola da terra e um microfone para a artista intérprete, ermos em cima do palco.

“Teremos espectáculo com tão pouco?”, retumbavam alguns comentários arrojados. Não faziam a menor ideia do que dali viria, certamente. As luzes diminuíram lentamente a sua intensidade, no mesmo compasso em que o tom da conversa reduziu, como se o operador baixasse um fader de volume ao mesmo tempo que o da iluminação. Os músicos tomaram os seus lugares, e a entrada de Raquel Dutra – acompanhada pelo seu característico Bandolim – fez o público vibrar num caloroso aplauso. Depois de uma dúzia de entusiásticos acordes, uma pausa foi orquestrada para a apresentação de Teresa Tomé. Saudou o público com palavras sentidas, calmantes e verdadeiras; falou do projecto e da música açoriana com verdadeiro ardor e paixão.

A viagem que se seguiu foi de puro encantamento e magia. A Viola da Terra mostrou estar em perfeita sintonia com a destreza de Adílio Soares; os dedos do pai, Jorge Dutra, dançaram ritmados e certeiros pelo braço e pelas cordas da Guitarra Acústica; até Raquel conseguiu provar que é possível adicionar a esta amálgama – de si própria, muito rica –, mais um conjunto de cordas: as do Bandolim. E como se não bastasse, como se a magnificência deste trio de cordas não nos embalasse o suficiente, surge a voz. Como descrevê-la? Pela sua polidez, brandura e harmonia? Sim. Pela elegância, distinção e classe? Também. Mas talvez seja melhor o leitor ouvir com a sua própria aurícula para depois dizer se não concorda.

Numa panóplia sentida de música lírica açoriana, esta passa a ser uma obra de referência. Assim o é, não só pela qualidade impressa em todo o trabalho – desde o grafismo digno e incensurável de um maestro das artes desenhadoras, até à produção e edição impecáveis e imaculadas, passando pela execução primorosa dos músicos e da afinação de Raquel –, mas também pelo critério da escolha do repertório. Em vez de compilar temas sobejamente conhecidos da tradição açoriana – o que não faria mal a ninguém –, este projecto tem a ousadia e originalidade de dar corpo a músicas praticamente desconhecidas do quotidiano regional.

O disco presenteia-nos com doze faixas deliciosamente sine qua non do ponto de vista lírico, com origens nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial, Pico e São Jorge. Os arranjos são da autoria dos próprios, mas respeitam as particularidades de cada música, e até a história que a acompanha. Isto merece uma ovação de pé! É um sinal de que ainda há muito boa gente – boa gente, mesmo! – interessada nas nossas raízes. Um grande motivo para que…. a cançoneta fique na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Janeiro de 2013