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Queixume do queixoso

"Old Guy", por enVide neFelibata
“Old Guy”, por enVide neFelibata

No tempo de Homero a raça humana já era decadente: “hoje a terra só alimenta homens perversos e atrofiados”. Continuamos a não admitir que o estado de espírito da nação está abalado. Cabeças baixas na rua, ineficiência nos postos de trabalho, arrogância nos serviços públicos e desmotivação dos mercados. O queixume é a defesa mais usada. Se não há nada que possa ser usado na lástima, estranha-se. Ou inventa-se. Perguntar se “está tudo bem” raramente obtém a resposta do não-podia-estar-melhor.

Mas não são os mercados que destroem a motivação, as economias não afocinham sozinhas, e os países nunca devassam os ratings no solipsismo: são as pessoas. Os mercados, a economia e os países são feitos de pessoas. Se o mal engoda o pérfido, e se o bom atrai o ainda melhor, por que se mantém a carranca? Que se mostrem os sorrisos. Daremos de beber a quem ainda vê sumo num limão podre e seco, a quem acha que este palheiro tem muitas agulhas para encontrar. Há sempre coisas boas a acontecer, nem que seja concluir isso mesmo.

in Jornal Fazendo, n.º 93, junho de 2014

Liberalização dos céus

Nunca pensei no espaço aéreo como um território liberalizável. Quando se é dono de um palmo de terra, faz-se um sulco no chão com uma cana verde ou erguem-se muros para dividir fronteiras. Quando se tem dinheiro, o destino é a conta bancária ou o miolo do colchão de palha. Se há um bem móvel – daqueles com rodas – arranja-se maneira de o trancar à chave. Então, como é que se passa um ferrolho no céu?

"Patterns", por Laura Barnard
“Patterns”, por Laura Barnard

Se não considerarmos o habitual capacete de nuvens cinzentas, enviado com amor pelo anticiclone, também ele emigrado para terras de Sua Majestade, só podemos fronteirar o céu com papel e tinta. Com uma lei, escrita por advogados – e para advogados –, que permita que alguém se levante e explique: “ah, isto aqui diz que este céu só pode ser navegado por aviões azuis-e-brancos”.

Se um avião cruza o nosso espaço aéreo, não paga portagens, como os automóveis nas autoestradas? Não daria para encher tanques de aviões, pelo menos para as viagens só de ida? É porque os residentes adoram viver isolados do mundo, adoram só poder sair do celibato por mais do que um parisiense paga por um espetáculo no Moulin Rouge.

Mas talvez não seja bom que um açorenho se cultive e viaje muito: corre-se o risco de ele ficar mais inteligente. Talvez não seja bom que venham mais turistas: há sempre o perigo de se embebedarem e destruírem as paragens de autocarros. Além disso, um espetáculo de cabaret não passa de um desfile de modelos seminus dançantes, não se aprende nada ali. Mas um lisboeta pode ir a Paris vê-lo e regressar com mais dinheiro no bolso do que se viesse aos Açores ver uma tourada à corda.

Aliás, basta um mariense querer ver uma tourada à corda: ou é jovem e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos jovens que vão de barco; é idoso e tem um cartão daqueles que só dão descontos aos idosos que vão de barco; é trabalhador e vai de barco; ou é poupado e abdica das milhas acumuladas por uma vida inteira e vai num tubo metálico voador azul-e-branco. Também se pode ir de iate ou de jato particular, mas isso é só para quem consegue parir companhias aéreas.

in Diário Insular, 14 de maio de 2014

Confortável maledicência

"Tongue Tied", por Boris Rasin
“Tongue Tied”, por Boris Rasin

Apontar defeitos é fácil, difícil é apresentar soluções. A crítica comum recorre à maledicência: qualidade do maledicente, ou maldizente, que tem por hábito difamar. O blasfemador não critica comportamentos nem denuncia práticas ou atividades, atinge diretamente o outro. Em vez de “ele fez isto”, diz “ele é aquilo”. Passa a vida a dizer mal dos outros, ferindo-lhes a integridade e desrespeitando o direito à diferença. Na vida em sociedade, somos bombardeados com maledicências: ofendem-se e acusam-se na praça pública. Há tanta rivalidade que até andam com bonecos voodoo. Esquecem-se de que, ao apontar um dedo a alguém, os restantes dedos da mão apontam de volta para si.

Que não haja mal-interpretação, sou contra o laissez faire, é crucial que se deem a conhecer os podres da fruta. Para isso, dar à língua é indispensável, e quem se propõe a deixar de lado a participação cívica é um cidadão hipnotizado. Não calem as vozes, podem ser tudo o que nos resta! No entanto, a censura deve ser praticada de forma construtiva. Uma das máximas de Abraham Lincoln afirmava que “só tem o direito de criticar aquele que pretende ajudar”. Bem, na prática estou a falar mal de quem maldiz. Por isso, também eu posso — e devo — ser acusado de maledicência. Mas eu não sou um ser humano, sou só um humano, sendo.

in Jornal Fazendo, n.º 92, maio de 2014

Definindo conceitos crónicos

"Le Corbeau", por Édouard Manet.
“Le Corbeau”, por Édouard Manet

A definição de crónica provém do Latim chronica e do Grego khroniká. Sugere uma narrativa cronologicamente organizada de factos, embora também se aplique a um texto de estilo jornalístico com cunha pessoal. A liberdade de opinião também é um pressuposto, mas o conceito mais comum é o de narração curta, para imprensa, seja revista ou jornal. Segundo o que reza a história, foi em 1799 que a publicação parisiense Journal des Débats imprimiu a primeira.

Outras definições atribuem-lhe a função de narrar a vida de um rei, ou mesmo uma biografia injuriosa. Apesar de poder ser dissertativa, poética, descritiva, narrativa, lírica, humorística, jornalística ou histórica, a crónica do cronicista vai ser uma mescla, com uma pitada de cada ingrediente, indefinível pelos padrões atuais. No entanto, a ofensa não fará parte do tom eleito, a política não será tema de preferência e os defeitos apontados não aparecerão confortavelmente.

Crónicas podem ser coisas

“Dois frascos de tinta usada”, por Luana Minucci

Admito que a palavra cronicista não esteja muito dicionarizada, mas como insisto em compilar vocábulos, não há que ter medo. Afinal de contas, as línguas estão sempre em transformação, tirando o Latim e alguns dialetos. Depois do percurso do Pavilhão Auricular, procurei afincadamente formas de expressão que transcendessem as artes. Não é porque as artes já não me seduzem, mas porque a sedução não é só arte.

Assim nasce o cronicista: um ajudante de escaparate a cientificar pela crónica, embora nunca cronicando; um crónico que rabisca croniquetices sem respeitar as leis cronísticas; um imoral corrupto da croniqueta que se enraíza nos anais da história breve; um homem que nem é cronista nem ensaísta, muito menos trocista; ou um adepto da cronicidade das coisas. Sim, porque as crónicas podem ser coisas.