Fragmentos muito bem coNNectados

Capa do “Fragmentos”

O décimo mês do ano de 2011 teve um primeiro dia histórico. O projecto de renome CONNECTION lançou um trabalho discográfico: Fragmentos é o nome escolhido para uma colecção de sensações e vibrações reunida numa esbranquiçada bolacha de cd. Desde os temas de Rebirth – que tanto me aguçaram o apetite, em 2008 – que se esperavam novidades da dupla indissolúvel; e cá estão elas! O álbum promete malhar nas rádios; está recheado de brindes, surpresas, desproporções saudáveis, valências emotivas, palavras tocantes e músicos magos na sua arte. Enfim… reune todos os ingredientes para um prato verdadeiramente principal, a servir com os 5 sentidos bem abertos, mas com a audição completamente escancarada!

1. E eis que o pano sobe… Ouvem-se aplausos; e também as primeiras sensações que Clue – o primeiro tema – nos presenteia. Indubitavelmente que Mário George Cabral e Sílvio Ferreira não mostram reasons to be ashamed, antes pelo contrário. Conseguimos perceber a elegância da música electrónica e, mesmo assim, sentir a batida da bateria acústica de João Freitas. O frenesim do wah-wah das guitarras de Tiago Franco e a sumptuosidade dos solos da viola-baixo de Zica hipnotizam-nos e colocam-nos nos ombros da opulência.

Mário George Cabral ao piano.

2. Acto contínuo, entramos num paraíso privado. A feitiçaria das guitarras de Luís Tavares Sousa, Tiago Franco e de Eduardo Botelho fazem-nos viajar num tapete voador. Luís H. Bettencourt escreveu as palavras de Private Paradise que, unidas à força das melodias dos refrões bem conseguidas, nos deixam down to our hands and knees. E já que falamos em posições constrangedoras, não podem deixar de gozar das sensações lascivas que o minuto 2:45 nos oferece. Recomendo.

3. Se já se ouviam louvores no início do álbum, agora há direito a uma ovação de pé: Seres o Meu Amor é algo mágico, viciante, causa mesmo dependência. Não pelo amor propriamente dito, primorosamente espalhado pelos versos de Aníbal Raposo, como se “vaga sobre a vaga” se tratasse – e que bom seria saber a “cor do perfume” –, mas pela amálgama jovial e quase ilusionista da combinação da sua própria voz com a de Sílvio. Outra excelente combinação: os solos patriotas de Eduardo Botelho na guitarra portuguesa seguidos do seu slide gracioso na guitarra eléctrica.

4. Hélder Machado dá as primeiras bordoadas certeiras na bateria – como na maior parte dos temas deste disco –, e abre caminho para a voz irreal e prodigiosa de Vânia Câmara, em As Your Soul Too. Uma nota muito positiva a favor desta intérprete, não que ela precise (já tem provas mais que dadas), mas para os mais distraídos do nosso panorama. Tema deliciosamente escolhido para uma voz cheia de soul!

Sílvio Ferreira

5. Varandas de S. Jorge assenta num concentrado poema de Sidónio Bettencourt. A voz apaixonadamente entorpecedora de São Pontes não precisa de apresentações, e tem aqui mais uma prova da sua singularidade. A inconformidade e a veemência das guitarras de Paulo Bettencourt deixam-nos suspensos. Ao contrário da maioria dos temas deste trabalho, em que António Feijó está muito bem extasiado na viola-baixo, neste tema podemos ouvi-lo no contra-baixo.

6. Temos ritmo, temos paixão e energia… Estamos vivos! Alive arranca com o furor do didgeridoo de Paulo Simão, seguido das energéticas incitações de move around & dance tonight de Paulo Melo.

7. A sentida voz de Sílvio quer poder voar e dançar perdidamente em Quero. Luís H. Bettencourt dá o elegante e distinto mote na guitarra eléctrica que serve de base para o aprimorado poema de António Melo Sousa. Combinação perfeita de sons de orquestra com a electrónica dos sons de Mário George.

Hélder Machado

8. Rather Be In Love esconde mais uma apetitosa letra de António Melo Sousa. Eduardo Botelho dá o seu contributo na guitarra eléctrica; os seus solos de assinatura não passam inobservados: enchem o tema de alma e virtude. Destaque para os arranjos exemplares de outro masterpiece da nossa música: Mário Jorge Raposo. Parece-me que os Super-Mário’s da nossa terra nasceram para nos surpreender – na prática, eles já não nos surpreendem; só nos surpreenderiam se nos deixassem de surpreender! Fui claro?

9. O chill-out de Alma Breve merece um louvor duplo. António Melo Sousa mostra-nos o seu lado de silêncios, tanto na escrita do poema como na sua oração penetrante. Deixa-nos “desflorar o terreno fértil dos seus próprios sentidos, reinventa as notas da pauta inacabada de uma balada onde se revê. Frágil, mas inteiro”. Encontrar “trevos com 4 folhas nas trevas” é exactamente o que fazemos quando encontramos este tema. Uma outra óptima sensação é o stereo conseguido no xilofone.

Tentei esmiuçar o trabalho para poder apontar pontos negativos, algo que primo em fazer em todos os meus juízos de valor, mas apenas consigo destacar a enorme necessidade que este disco tinha de ser promovido por uma major label. Este trabalho precisa de ser ouvido no mundo inteiro.

Muitos pontos positivos do trabalho já foram avivados, e passam pela aposta certeira em vários temas na nossa língua, além da inteligência emocional de Mário George Cabral nos arranjos; mas o mais importante, no meu entender, diz respeito às participações de grande qualidade de vários artistas. Os Connection conseguem o que muitos já tentaram: a união de gerações, a junção de estilos, sem preconceitos nem superstições. Este projecto faz uma soma de valores ímpares sem dar lugar à divisão nem a raízes quadradas.

Paulo Bettencourt no seu melhor.

Mais que tudo, as cantigas ficam na aurícula!

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8 comentários a “Fragmentos muito bem coNNectados”

  1. Parabéns ! Pedro só te posso dizer que fiquei surpreendida …pela positiva claro! Continua o bom trabalho e a escrever assim ninguém te para! muito muito bom

    Bjs

    1. Obrigado por passares por aqui, acho que juntar as duas artes é um bom caminho a percorrer.
      Fico muito feliz pela tua aprovação. Boa música!

  2. Obrigada pela descrição, emoção e sentir das tuas palavras, neste trabalho “Fragmentos”.
    Que bom quando a critica é um louvor!
    Parabéns

    1. Mais uma vez, obrigado! Fico muito satisfeito por conseguir que as palavras ecoem por aí, e os ecos já são considerados formas musicais. Nestes tempos em que preferimos imagens às palavras, é sempre bom conseguir que as nossas sejam lidas. 🙂

  3. Muito obrigado! Realmente, as palavras só acabam a viagem quando chegam ao outro lado! O trabalho é mesmo muito bom, e todos os elogios são sinceros e merecidos. Um abraço musical!

    1. Acho que este escrito deveria ser divulgado também, pelo menos na imprensa açoriana e da diáspora norte-americana (Açoriano Oriental, Diário Insular/Angra, Incentivo/Horta e Portuguese Times/Mass. -USA). Se o Pedro estiver interessado tenho os contactos certos para lhe dar para que a divulgação abranja mais gente. Colaborarei nisso com todo o gosto. Abraço e viva a música sempre.

  4. Extrordinária: muito sentida e inteligente escrita. Um verdadeiro consolo! Pela parte que me cabe, um obrigado do ❤ pela generosidade das palavras.

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