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Filipe Frazão em Fast Forward

Há coisas que não se explicam, principalmente as que queremos mesmo explicar. Quando o conheci, ele era o baixista tímido e calado dos Anjos Negros. Tocava as notas certas, acertava no ritmo, agitava a anca moderadamente, mas mantinha-se acanhado, a um canto, quer na sala de ensaios, quer no palco. Pouco mais do que um sorriso e uma saudação obsequiosa se conseguia arrancar do rapaz.

Um dia, apesar de já ser noite, a meio de uma jantarada de amigos — que são mais do que família —, a vadiagem andava sorrateiramente na sala de estar, a remexer numa aparelhagem stereo, daquelas que ainda trazem o rótulo de hi-fi. No meio da alta fidelidade, mete disco, tira CD, e não é que me apercebo de que o rapaz acanhado tinha cantado para o microfone? Era uma gravação dele próprio, com uma voz vacilante, mas colocada, a reverberar pelas colunas e a encher a sala de carisma. Os colegas de grupo incentivavam-no, não imaginando que dali viria o projeto Lado Lunar e um dos mais recentes fenómenos da proatividade.

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Foto: Arnaldo Viveiros

Filipe Frazão não tem descansado desde então. Lembro-me de ouvir Straight Up e de ver ali um bom motor de arranque, embora ainda faltasse um pó de instrumentalização. Depois chegou Vai Ser Feliz, que evidenciou a sua primeira capacidade de diversificar o estilo. Também conquistou aqueles ouvintes sequiosos por mensagens positivas. A seguir, o Café da Saudade veio trazer a aura nostálgica e melíflua da composição ébria de Frazão. Como se não bastasse, encheu a alma dos seus seguidores com o caloroso Já Chegou o Sol, lembrando que “lá fora há um mundo para sentir”. As mensagens tornavam-se mais recheadas de significado, e é isso que se quer da música: uma boa mensagem. O sucesso seguinte foi Deixo a Cidade, e ele afirmou que “tudo vai ficar bem”. Eu concordei. Mas, melhor do que ficar bem, é ficar melhor, e Filipe Frazão sabia disso, quando escreveu É Tão Bom. É o seu mais recente êxito, mas não duvido que estejam outros a caminho.

Filipe Frazão conquistou os tops das rádios locais e prepara-se para fazer o mais difícil: conquistar outros tons em territórios mais alargados. Cuidem-se, porque ele está a caminho. Filipe Frazão tem no nome as iniciais para Fast Forward, e é assim que ele trabalha, em alta velocidade. O rapaz tímido já não o é. Ficou no ouvido, na aurícula. Abram alas.

in Jornal Terra Nostra, 06 de junho de 2014

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El Açor: e vão quinze!

O éfe-erre-á ouviu-se várias vezes naquelas duas primeiras noites de primavera, em alusão ao acrónimo original conimbricense — F-R-A: Frente Revolucionária Académica. Em 1938 o grito tinha índole político, mas agora serve propósitos comemorativos, embora muitos ainda precisassem de um bom chiribitatatata. Foi com espírito revolucionário, mas pacífico, que as tunas invadiram o palco do Coliseu Micaelense para o XV Festival Internacional de Tunas “El Açor”, nos dias 21 e 22 de Março de 2014. Desde o último ano do século passado que a Tuna Masculina da Universidade dos Açores, conhecida intimamente por Tunídeos, organiza o evento icónico, que conta com a apresentação originalmente imprevisível dos hilariantes Tunalhos. O público duvidava para onde dirigir a atenção, sem saber se aplaudia mais os intervalos divertidos ou as atuações memoráveis.

xv_elaorEsta comemoração tunificadora do espírito académico já passou pelo Teatro Micaelense e pela Aula Magna, mas o coliseu é o mais recente epicentro do contágio da cidade com humor, música e solenidade. A cultura regional açoriana já não passa sem este convívio tunante de cardumes escombrídeos desenlatados. Os tunadores vêm de todo o país e arredores, com os seus contrabaixos, guitarras, bandolins, cavaquinhos, violas da terra, violinos, acordeões, flautas, tambores, pandeiretas, estandartes e bandeiras. A festa é arrojada, a arte do pandeiretismo deixa boquiaberta a audiência e as bandeiras esvoaçantes elevam o espírito estudantil.

A palavra tuna provém do francês tune, “hospício de mendigos”, e do castelhano tuna, “vadiagem”. Talvez sejam esses os ingredientes fulcrais à tunantaria, aquele calor que passa dos palcos diretamente para os corações da assistência. E assim conseguiram encher a alma e lotar a sala, com tunantagem e sem chantagem. O recinto repleto bombeava entusiasmo, numa mescla universitária festiva, com direito a camarote para a nobre psicossaurologia. Se aquelas noites fossem uma praxe, todos quereriam ser praxados.

Foram convidados especiais os Brass Band, mas também subiram ao palco da primeira noite a mui nobre Tuna Académica da Universidade dos Açores (TAUA); a fantástica Tuna de Tecnologias da Saúde do Porto (Tuna TS), depois de três saudosos anos de interregno; a ilustre “mais jovem e mais velha” tuna açoriana, Real Extudantina dos Açores (RExA); e ainda a galardoadíssima Tuna Universitária de Trás-os-Montes e Alto Douro (Transmontuna). O dia dois prendou a audiência com a sempre glamorosa e encantadora Tuna Feminina da Associação Académica da Universidade dos Açores (Tuna com Elas); a Tuna Académica do Instituto Superior de Engenharia do Porto (TAISEP), cujo lema é “diverte-te a ti mesmo e só depois os outros”; a Tuna do Distrito Universitário do Porto (TDUP), que dá o prazer da visita ao festival pelo segundo ano consecutivo; e a Tuna Mista da Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (Enf’ In Tuna), que tão musicalmente cuidará de nós nas enfermidades.

Foi com a já imprescindível e inimitável curta-metragem de qualidade tunal que se deu o início do fim, o encerramento com chave de ouro pelos anfitriões do evento. Depois, o aguardado momento da distribuição dos prémios: Melhor Estandarte: TAISEP; Melhor Pandeireta: Tuna TS; Melhor Solista: TDUP; Melhor Original: Tuna TS; Melhor Instrumental: RExA; Tuna mais Tuna: Transmontuna; 3.ª Melhor Tuna: TAISEP; 2.ª Melhor Tuna: Tuna TS; Melhor Tuna: RExA.

Os Tunídeos são de parabenizar, não só pelas atuações de grande nível, por juntar no palco a multidão dos antigos elementos ou pela originalidade do jocoso sketch musicovideográfico, mas também pela organização e dinamização deste evento marcante. Um apontamento para a inovação deste ano: os elementos transversais a toda a encenação, Super Mário et al., que interrompiam e intercalavam inteligentemente as performances. Outra vénia vai para a iniciativa da oferta de uma cadeira de rodas a quem muito precisava. É em tempos difíceis que as grandes mentes emergem.

Na festa depois da festa, para não inglesar afterparty, o campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores pareceu iluminado, animado e recheado de vida. Tal e qual um dia de aulas normal, passo o sarcasmo. Nesta grande festa do “El Açor” ficou tudo bem impregnado na retina, no palato…. e na aurícula. Venham mais quinze!

in Jornal Terra Nostra, 4 de abril de 2014

Mariana, a soberana

A soberania é um conceito difícil de alcançar. Há quem acredite que tal patamar não existe, sequer. Os egípcios falavam em faraós, os gregos em supremos governos, os romanos em imperadores, os plebeus em reis e rainhas, os portugueses em Camões e os açorianos em Pauleta e Nelly Furtado. O poder de um soberano é a soberania propriamente dita, mas é uma autoridade insípida. Usar uma coroa pode parecer imponente, mas pode ser um peso incómodo; a não ser que se seja uma princesa, porque as tiaras aparentam leveza e graciosidade. As coroas de papelão das festas de aniversário, que toda a gente já usou, são mais fáceis de descrever: se descontarmos a comichão que provocam no pescoço, leveza maior não pode existir. Uma coroa de espinhos também não soa a dominância, mas muita tinta e sangue na Bíblia deu a derramar. Já uma coroa de flores significa ocupar o primeiro lugar, subir ao pódio e fazer uma vénia para receber a medalha.

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© Todos os direitos reservados.

Foi para isso que Mariana Rocha fez a mala: para subir ao palanquim e ganhar uma medalha de um tal de factor xis. Mesmo que fosse o factor ípsilon, ou , ela estaria lá. O motivo é simples: Mariana, a soberana, tem os três. Ou mais: Mariana Rocha reúne todas as características de uma stage woman, todas as qualidades de uma protagonista, todos os atributos de uma grande intérprete, todos os fatores inerentes a uma verdadeira artista.

16 anos. Quem é que tem 16 anos e canta assim? Ninguém. Assim, como ela, só ela própria, só a Mariana Rocha em pessoa. Não interessa até onde ela pode chegar — que vai ser muito longe —, não interessa se assina contratos com multinacionais, se vai gravar em Abbey Road, se lança uma dúzia de discos, com direito a quádrupla platina dourada com rebordo em diamante, se ganha os próximos Emmys ou os MTV Awards. Não interessa, porque Mariana, a soberana, já ganhou. Ganhou fãs, aplausos, ovações de pé, sorrisos, abraços, alegrias e palcos. Sim, porque os palcos também se ganham. Melhor ainda: merecem-se! Mariana merece os palcos.

Mariana-2Este domingo, enquanto uma parte adormecida deste País em pantanas vai ressonar em frente ao escrutínio de segredos, o lado acordado da sociedade vai aplaudir e votar na soberana: na Mariana. Porque sabem que ela tem aquele ingrediente especial. Mariana contagia com a sua simplicidade, o sotaque indisfarçado, a ousadia e o à-vontade de uma verdadeira entertainer. Enche as salas com energia positiva, sem falsos protagonismos, e leva a voz colocada, controlada, cheia de spring e calor de veraneio.

E que orgulho tem esta terra numa jovem tão promissora, tão cheia de energia e alegria? A força deste povo consegue concentrar-se numa única pessoa, e talvez seja isso que vai acabar por acontecer. Mariana vai carregar a força de gente que quer singrar, vencer, chegar longe! A voz dela será o somatório das nossas.

Os Açores podem ser insularidade e desunião geográfica, mas não há povo igual no que toca a dar as mãos. Quando o chão treme e os vulcões se agitam, os açorenhos cerram os punhos e chamam os problemas a si, desafiam-se à união. Mesmo quando as brumas se espalham sobre águas agitadas, pelos tufões, tempestades e mau tempo, este povo une as vozes e sopra bem alto para limpar o céu, para trazer bom tempo, para abrir canais.

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E agora há uma explicação para quando a terra treme e os vulcões se agitam: é porque a Mariana está a cantar. E quando os céus trovejam? É porque os deuses estão a lançar os dados… e a apostar na soberana.

Os palcos são teus, Mariana. Vais ficar definitivamente na aurícula. E este povo está contigo!

in jornal Correio dos Açores, 28 de Novembro de 2013

O terceiro coração da Viola da Terra

Fui questionado uma vez acerca da forma como anuncio as datas nos textos das crónicas: “mas, podias escrever a data, pura e simplesmente… para quê escrever ‘vinte dias e mais um’, quando ‘21’ diria o mesmo?” É uma questão pertinente, mas a resposta é simples: convida o leitor a exercitar a mente. Enquanto faz as contas para chegar ao veredicto, fomenta mais uma dúzia de sinapses e ligações neuronais. Vai lembrar-se dos pormenores com mais facilidade, senão vejamos….

Coração MúsicaEstávamos no nono mês do ano zero da década de oitenta, quando a freguesia de Ribeira Quente festejava o segundo dia após o vigésimo – digam lá se não vos aguça! Mesmo que não se recordem amanhã de manhãzinha, esse vigésimo segundo dia terá seguramente honras de feriado – no amanhã colectivo. Porquê? Simples: para homenagear um rapaz, que agora é homem, e que graúdo será certamente. Mas não um homem qualquer: um daqueles com um agá grande!

Em conversa com uma tertúlia de poetas da nossa praça, foi PENA termos chegado à conclusão de que o sucesso e reconhecimento artístico acontece – por inúmeras vezes – depois da partida do artista. Sou inequívoco advogado do oposto: se há mérito, tem de ser reconhecido, enquanto ainda há um reconhecido a reconhecer. Não é possível descrever o perfume de uma flor sem a farejarmos. Adiante.

Quantas vezes tem este tal homem marcado a diferença? Incontáveis. Será possível quantificar o seu contributo para a cultura das ilhas de bruma? Começa a ser difícil. Teve o pai como mentor no violão e Carlos Quental como professor nos corações. Juntou-se a Ricardo Melo e Ana Medeiros para fazer nascer Música Nostra e brotar Cantos da Terra; os mesmos cantos que percorreram quase todas as ilhas açóricas, Fnac’s do continente e Bruxelas! Levou o nome verde maduro dos Açores a Castro Verde, partilhando os palcos com Pedro Mestre da Viola Campaniça, José Barros da Viola Braguesa e Vítor Sardinha da Viola de Arame Madeirense. Não satisfeito, ainda experimentou a bravura de nos trazer Chico Lobo da Viola Brasileira! Ainda a procissão estava no adro, e esta criatura já juntava o tradicional com o electrónico: chamavam-lhe o Projecto Azorecombo, definido como um concerto de transmutações, onde partilhou as sonoridades com a dupla Miguel Carvalhais/Pedro Tudela e ainda Vítor Joaquim. As actuações sucedem-se, por exemplo, em aventuras museológicas por Vila Franca do Campo, ao lado dos grandes tocadores Dinis Raposo (uma vénia ao fadista!), e Carlos Estrela, a convite do grande e dinâmico antropólogo Professor Doutor Rui de Sousa Martins; e até por grutas carvoeiras, a sua mais recente dinâmica. Sim, a Gruta do Carvão é um espaço dinâmico, acusticamente falando e não só – parabéns pela iniciativa!

Rafael Carvalho

E eis que o pano se abre, e se descortina que o tema central de toda esta azáfama é a Viola da Terra. Alguns também a tratam por Viola de Arame, ou “aquela dos dois corações, o que parte e o que fica”, mesmo que se ponham frente a frente a micaelense e a terceirense. A sua alma já ganhou vida por lendários – e muitos vivos – literários, mestres da palavra que me recuso a imitar, declino a responsabilidade de enumerar os seus simbolismos, de falar da lágrima da saudade, do açor oculto, do cordão umbilical, das plantas, do trigo, do ás de oiros

Estamos aqui a celebrar os feitos, as Conversas à Viola, o enaltecimento da arte, nua e crua, e da passagem da palavra. Sim, porque Rafael Carvalho não tem apenas conseguido fazer. Rafael Carvalho é também um pregador, um missionário, um apóstolo! Divulga, difunde e ensina a Viola da Terra. Contribuiu largamente para evitar a extinção de uma tradição, que se adivinhava próxima. Quer seja pelo dinamismo empregue na Escola de Viola da Terra e Violão da Ribeira Quente, pela entrega conseguida junto à Escola de Viola da Terra do Grupo Folclórico da Fajã de Baixo, pelo exemplar desempenho no Conservatório Regional de Ponta Delgada e pela comemoração do Dia da Viola da Terra, pela irrepreensível direcção musical da Orquestra de Violas da Terra, ou mesmo pelo empreendedorismo semeado na Associação de Juventude Viola da Terra.

Rafael Carvalho é dono do terceiro coração da Viola da Terra! Aqui fica o reconhecimento. Aqui fica um bem haja! Despeço-me ao som do seu registo “Origens”, que fica certamente na aurícula…. e na História da cultura açoriana!

in Jornal Terra Nostra, 08 de Fevereiro de 2013

Sonasfly, o pseudónimo voador

Sonasfly WingsNum enorme regozijo de crescentes manifestações nas artes açorianas, não restam dúvidas – até para os mais cépticos – da galopante aparição de talentos, até agora ocultados pelas névoas das quase dez ilhas. No entanto, alguns sobressaem, brilham, evidenciam-se. Sílvia Torres é uma graciosa intérprete açórica que viu a luz do dia em 1981 e que arranhou o primeiro conjunto de seis cordas amarradas a um corpo de violão treze anos depois. O Grupo Folclórico do Porto Formoso acolheu-a com um impulso das lides tradicionais. Desde então, não tem parado.

Foi com um feeling de mistério que o Auditório Luís de Camões abriu portas no primeiro dia deste último mês. A perfeição acústica da sala recebeu espectadores suficientes para acalorar uma actuação que se previa mais concorrida, não fosse a excelência da organização da manager Cláudia Chaves Neves, e a expectativa criada em torno do projecto nos tempos precedentes: parabéns à promoção! Depois do convívio no exterior, atravessei o corredor e aproximei-me de um lugar sentado: satisfeito, apercebi-me da presença da rádio aliada do projecto, na pessoa do incansável Miguel Valério. São essas parcerias que eliminam os obstáculos do mar que separa os artistas!

Eis que baixam as luzes e o espectáculo é inaugurado: Vasco Pernes provou mais uma vez porque é considerado um perito da comunicação, ao recomendar com intermilhas toda a iniciativa. Os pés desnudos de Sonasfly tomaram conta do palanque e o público aplaudiu para o espectáculo que usurpou o nome ao disco: “O Outro Lado de Mim”. Não faltava absolutamente nada: a gravação vídeo para a posteridade por uma equipa de anfíbios, a captação áudio a cargo do calejado (faça-se uma vénia) Raúl Resendes, boa malta preparada para fazer ruído, e até a direcção musical – diga-se, excelentíssimo senhor produtor executivo! – orquestrada com os dedos vibrantes colados à viola-baixo dançante de Williams Maninho Nascimento.

Sonasfly AlignmentO alignment ficou muito bem posicionado – embora a ideia original de sentar os músicos em aconchegados divãs deixasse a audiência invejosa. Paulo Vicente fartou-se de nos brindar com os seus já reconhecidos e aprimorados dotes teclísticos, Paulo Rosa Martins mostrou-nos o que era a exactidão na percussão, Vasco Cabral trasladou os solos na guitarra eléctrica, e Dinis Geraldes fez o favor de ritmar os afoitos dedilhados na guitarra acústica. Como se não bastasse, irrompeu a meio do show, o saxofone feiticeiro de Michael Smith!

Sonasfly brindou o público – todos eles Talvez Ilhéus – com aquilo que eu considero uma feroz actuação, tal Carousel. A artista demonstra ter uma qualidade intrínseca, difícil de encontrar em tamanha dose: expressividade! A faculdade de conseguir exteriorizar, espelhado no rosto e corpo, o que cada palavra falada e cantada a faz sentir. Enfim, mostrou o Why de ser Guilty e que sabe ser uma Bitchy Girl quando é preciso Make it Through, independentemente de God lhe querer cantar uma Lullaby n’Um Segundo por Ti.

A fechar com chave de ouro, Bárbara Azevedo sentou-se em frente ao teclado e vez vibrar a sala com o som apaixonante do piano. Como se não bastasse, fez um dueto imprevisível com Sílvia Torres, no que eu agora considero ter sido sine qua non! Um apontamento bastante positivo vai para as duas back vocals escolhidas; além de Bárbara, a já conceituada Marina Pimentel brindou-nos com a doçura e segurança das suas cordas verbais.

O disco apresentado foi gravado em estúdio pelo audacioso Eduardo Botelho, emparelhado com os graciosos arranjos ilusionistas de Mário Jorge Raposo. Deram corpo às letras sentidas de Sílvia Torres e aos pré-arranjos de Tó Moreira. Este álbum tonifica-se com o single Carousel, cujo vídeo foi vencedor do prémio internacional da RightOutTV para o “Best Video DIY”. Está recheado de simbolismo e faz o favor de nos deixar a pensar. Life can be a carousel, diz ela. Tell me: are you ready?, estão prontos para comprar o cd?

Já para o final do evento, a falha sonora do lado direito quase passou despercebida, embora corrigida com afinco. Apesar da exímia promoção do espectáculo de lançamento, é pena o auditório não ter abarrotado: esperava-se uma enchente e é preciso saber o porquê para afinar a organização do próximo concerto – sim, porque o público pediu encore.

Como apologista de promoção, tenho que oferecer uma ovação de pé a Cláudia Neves, indubitavelmente uma revelação talentosa com prodígio suficiente para por de pé um concerto desta natureza. É preciso dispor de muita coragem, tempo e dinamismo para o fazer – sim, porque o dinamismo vale guita, a meu ver: e nada se faz sem ela. Parcerias inteligentes, contactos bem orquestrados, promoção bem na mouche e destreza de movimento! Parabéns, ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Dezembro de 2012

Um código para decifrar

Sou indubitavelmente suspeito, por motivos diversos e incontáveis, mas há projectos que temos mesmo que apregoar. Por mérito próprio! Os critérios de selecção são normalmente simples: basta terem um pé nos Açores – mesmo que o outro estacione noutro lugarejo qualquer. Seria suficiente para mim que a qualidade pautasse as condutas musicais do colectivo, ou mesmo que a aurícula retivesse as frequências emitidas pelos instrumentos musicais deles. Posso até acrescentar que me daria por satisfeito se alguma harmonia e consistência fosse suficientemente generalizada num artista ou grupo! Pois é, mas…. esperem! E se num só embrulho me fossem entregues todos estes predicados? E se uma mescla de músicos criativos e melodiosamente inteligentes me fossem apresentados e assim anunciados à saída do cinema? Simplesmente não acreditaria. Teria que ver para crer ou, no nosso caso – ouvintes e consumidores de notas musicais –, “ouvir para crer”! Assim o fiz: naveguei esperançado na “Hope Song” e não me arrependi. Vamos então começar a decifrar o código dos “THE CODE”  (sim, porque isto ainda agora começou!).

Félix Medeiros, guitarrista já conhecido das nossas lides regionais – e que se prepara para “pular a cerca” com a sua formação musical, – surge com uma execução de ritmo em guitarra acústica irrepreensível. Normalmente é preciso avisar “take it easy, play gently!”, mas ele já tem a lição estudada. Como se isso não bastasse, enclausura-se também na guitarra eléctrica e faz tremer as cordas com veemência e fervor. Demonstra impavidez e uma evolução bastante significativa, não só em termos de execução como de maturidade. Além disso, relança a sua índole inconfundível de compositor.

Agora passa a ser preciso fazer continência a João Bettencourt. Já estávamos habituados à sua fluidez nas baquetas, à sua paixão areada nas peles da bateria, mas desta vez acrescentou uma qualidade: rigor na execução. Exímio!

André Ferreira confessa que o estúdio foi uma experiência nova, mas essa sensatez e cuidado transpareceram para a viola-baixo que ele tanto abraçou. Está na senda certa!

As oitenta e oito teclas brancas e pretas do piano olharam para cima com êxtase: era Hugo Medeiros que se preparava para lhes deitar as mãos, literalmente. As falanges delicadas e cuidadosas do pianista fizeram ecoar a acusticidade de um piano que surge muito bem enquadrado.

Da mesma forma que se deixa a cereja do bolo para a última garfada – e eu até nem gosto de cerejas, mas a frase fica bem aqui –, deixei para o final a rapariga que conheci de olhos vendados na capa de um livro de ficção que anda por aí. De olhos tapados andávamos todos, e por tempo demasiado. Então porque foi a Marisa Oliveira ocultar um talento tão evidente com tanta procrastinação? Por onde andou esta piquena? O grasp inquietante da sua voz andou escondido. O feel energético e potente das intérpretes gospel foi muito bem revelado na “Hope Song”! Mas ainda a vejo – ou melhor, oiço – num registo que evidencie mais essas características do seu instrumento musical: um estilo que não deixe de destacar as notas altas, mas que enfatize os seus graves enriquecidos com aquele vibrato inquietante!

Félix e Marisa
Félix Medeiros e Marisa Oliveira

E vós perguntais: mas onde vês – ou ouves – isso tudo, quando a moça apenas cantou uma cançoneta? E a vossemecês mesmos eu respondo: já vi e ouvi isso algures, talvez num futuro aproximado, talvez em delírios, maybe in a place, far, far away! Mentira, porque isto vai acontecer aqui mesmo, debaixo dos nossos narizes. Porque os “The Code” são um projecto regional, mas não foram concebidos “à regional”!

Uma das muitas provas disso mesmo é a imagem que passa cá para fora. Se algum senso comum for dirigido ao design empregue na imagem deste projecto, a conclusão a que se chega é que não estão a brincar em serviço. Miguel Maia demonstra que tem o toque especial que é fulcral para se destacar dos demais. Sorrateiramente, este designer – que também é brother in arms – vai deixando marcas relevantes no panorama editorial e de imagem de marca do nosso mercado e além-fronteiras. Quando derem por si, estarão rodeados da sua simbologia mágica, cativante e original: um profissional a seguir com muita atenção!

Bom, mas toca a trabalhar, rapazes (e rapariga)! E não se esqueçam de continuar a divulgar. Promoção, promoção – só depois vem a emoção! E o mais importante? A canção ficou na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 9 de Novembro de 2012

Na baía com…. Bárbara Azevedo

Estávamos no fim de tarde do vigésimo nono dia do sexto mês deste ano de dois mil e uma dúzia. As luzes do confortável Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada baixaram a sua agudeza para deixar brilhar uma ainda mais forte: Bárbara Azevedo. O sopro do piano encheu a sala de forma hipnótica e a voz afectuosa da oriunda da ilha cinzenta encheu a alma dos presentes com as letras de Torna Viagem, do nosso grande Zeca Medeiros. No final, ao se dirigir algumas palavras a esse homem notável da cultura dos nossos ilhéus, que assistiu à actuação, confessou ter admirado a prestação e a forma como o tema foi adaptado pela cantora.

Bárbara Azevedo, ao vivo no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.

Alguns dias mais tarde, numa esplanada da baía das Portas do Mar – onde os Anjos se passeiam –, estava eu sentado nas cadeiras escuras, patrocinadas por uma bebida qualquer. Assinalei com o indicador direito ao empregado para me trazer um descafeinado cheio e olhei a marina. Apreciei o movimento sereno de uma embarcação à vela que irrompia pelo porto da cidade e respirei fundo aquele bom tempo na baía. Era um dia soalheiro e perfeito para uma conversa informal com Bárbara. Tínhamos combinado falar um pouco acerca do seu percurso, e eu estava bastante curioso quanto ao que ela teria para dizer. O empregado trouxe a bebida quente desprovida de cafeína, que consumi em quatro ou cinco sorvos. Olhei o visor do telemóvel: “Estou a chegar”. E chegou mesmo.

Bárbara tem muitas qualidades, mas a sua humildade e simpatia deixam qualquer pessoa empática logo num primeiro contacto. Depois dos cumprimentos da praxe, dos beijinhos e do “como tens andado?”, olhei o gravador.
— Importas-te que grave a nossa conversa? — perguntei.
— Não, claro que não — respondeu ela, sem cerimónias.
Pressionei o botão que tem uma circunferência rubra inscrita e deixei o dispositivo pousado ao centro da mesa da esplanada.

Bárbara Azevedo, vencedora do Festival “Baleia de Marfim” nas Lajes do Pico no ano de 2000.

— Em relação ao teu percurso na música, para percebermos onde se enquadra na tua vida, queria entender um pouco do teu passado. De onde vens, o que trazes contigo na bagagem….
— Eu sou natural do Pico. Toda a minha família está lá, as minhas raízes. Quanto à música, os meus pais dizem que até antes de falar, comecei a cantar primeiro! — riu-se. — Comecei no Pico, a participar no Festival Baleia de Marfim. Com cinco anos, primeiro fui para o Corvo; depois, com sete anos, comecei a participar como concorrente e, em 2002, fui vencedora no Festival Baleia de Marfim. Vim à Caravela de Ouro, na Povoação, e também fui vencedora; fui à Figueira da Foz e também ganhei os prémios todos que haviam a nível nacional — mais risos.
— Fantástico! — ainda agora tínhamos começado, e já eu estava impressionado.

— Ainda fui à Madeira com essa música (Quando Eu For Grande), só como participação especial. Depois, quase que já passava da validade — deixou escapar mais risadas —, da idade mínima para participar no festival. Participei só mais um ano, fiquei em segundo lugar, e vim como participação especial aqui a São Miguel. Após isso, fiz uma primeira actuação aos onze anos lá na minha freguesia (sorrisos). Ainda não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo, foi só uma actuação “tocada” (risos). O meu pai ajuda-me a fazer o repertório, e é uma das minhas grandes influências nas escolhas, porque desde pequena que convivo com música lá em casa: o meu pai toca viola, a minha mãe também canta e toca viola.

— As letras que tu interpretaste nesses concursos eram escritas….?
— Foram escritas pela minha mãe — interpelou a cantora.
— Pela tua mãe? — a retórica só significava que eu estava perante apenas um dos membros de uma família talentosa.
— Pela minha mãe — repetiu Bárbara, com orgulho nos olhos.
— Então tens, tanto do lado do teu pai como do lado da tua mãe, influências a esse nível? — questionei.
— É, é — confirmou ela. — Tanto eu como a minha irmã, concorríamos com músicas em que as letras eram escritas pela minha mãe — pois é: a irmã também canta!
— E como é que vieste parar aqui, a São Miguel?
— Fiz o secundário lá, fiz até ao décimo primeiro ano…. depois resolvemos vir todos numa aventura. Estive a fazer o décimo segundo ano, quando decidi entrar para a Globalpoint Music. Já tinha feito até ao quinto grau de conservatório no Pico, no curso de piano; depois de chegar aqui não quis ir logo para o conservatório. Já era um ambiente novo, professores novos, escola nova…. era muita coisa nova, e ter mais a responsabilidade do conservatório…. então, decidi tirar um ano para me divertir, na Globalpoint…. (sorrisos).

— Mas tens planos para ingressar no conservatório, aqui?
— Eu continuo lá, vou agora para o oitavo grau, mas penso que…. não vou seguir a área clássica. A única coisa que vou fazer é tirar algumas bases importantes, que são precisas para depois adaptar para as minhas músicas.

Participação especial no Festival da Madeira 2001.

— No ensino secundário, qual foi a área que seguiste, só por curiosidade?
— Foi a área de ciências. E agora estou a tirar enfermagem, aqui em São Miguel. Vou agora para o terceiro ano. Já sou metade enfermeira — deixou escapar um sorriso.
— Como achas que vais conseguir tratar melhor as pessoas: como enfermeira ou como artista ligada à música? — não pude resistir em lançar a pergunta.
— Não sei, tenho essa dúvida…. (risos) às vezes penso que se juntasse a parte de enfermagem com a musicoterapia, as coisas davam certo! (risos) — e eu também concordei!

— Agora, a Bárbara Azevedo aparece em São Miguel…. um pouco mais madura, não é? Já não são aqueles festivais em que participa malta mais jovem…. Começas a aparecer junto dos grandes. Qual é a sensação?

— É uma sensação muito boa, porque isto aconteceu tudo muito depressa: comecei a compor algumas coisas em Setembro do ano passado, algumas letras…. comecei a arranjar algumas melodias, e as coisas parecem-me que sairam mais ou menos (risos)…. — cá estava a Bárbara a ser modesta. — No Natal dos Hospitais, fui convidada a ir apresentar um dos meus temas e o feedback foi muito bom! Apresentei só um original com piano e voz, que depois começou a passar na rádio! Após isso, fui à Globalpoint gravar um outro original, também para circular, mas numa vertente diferente: uma banda completa para também dar um pouco mais de mim, como artista. Começou também a passar na rádio e comecei a ser convidada para algumas entrevistas.

Actuação ao vivo no dia 25 de Abril de 2012 nas Portas da Cidade, em Ponta Delgada.

— Qual é a diferença entre tocar sozinha e tocar numa banda? — uma das perguntas da praxe.
— É completamente diferente. Dá-me agora outra perspectiva de como é que eu posso agora compor as músicas, porque quando compus a Old Picture, foi só em piano e voz, nunca pensei que pudesse ter aquele resultado. Fiquei muito satisfeita!
— Mas notas uma diferença só em termos de composição e orquestração, ou também em termos do produto final?
— Em termos do produto final também! — confessou. — E penso que o feedback também é diferente, porque já tive várias perspectivas: até mesmo o cover de Pedro Abrunhosa; pessoas que gostam mais de me ver na vertente da Old Picture do que numa vertente mais acústica. Isso também é importante para mim: ver o feedback das pessoas nesses vários estilos.
— E em qual das perspectivas te sentes mais à vontade?
— Nas duas — assentiu com a cabeça, confiante. — Sinto-me à vontade nas duas.

— E a tua relação com o piano, qual é? — a relação de um músico com o seu instrumento é sempre única.
— Ah!, a minha relação com o piano é…. eu digo que…. se passo um dia sem tocar piano, acho que fico com sinais de privação! — soltou uma gargalhada. — Não, eu tenho uma relação muito boa com o meu piano!
— Muito bem. Já percebi isso, já vi que és uma aficcionada das teclas, mas também tocas outros intrumentos, ou não?
— O meu pai ensinou-me a tocar viola, também arranho qualquer coisa nessa área. Mas o que eu gosto mais é do piano e da voz: o tocar e cantar é…. é quase como a cereja em cima do bolo!

— O teu percurso neste momento é: compor, escrever…. e a seguir? — vamos lá a falar do futuro.
— Isto está tudo num processo de maturação. Para além dos dois originais que já lancei, tenho cerca de mais nove ou dez. Quero que eles amadureçam e que eu também amadureça mais um bocadinho; tenho também o sonho de lançar um trabalho meu: talvez daqui a dois anos…. vamos ver como as coisas correm! Estou a ver se consigo encontrar alguns patrocínios; de momento, os originais estão a ser patrocinados pelo pai e pela mãe! (risos)…. e a divulgação destas músicas tem também esse fim: ver se alguém se interessa pelo meu trabalho, e que queira patrocinar parte dele.
— Quando falas em gravar, noto esse obstáculo que é o mesmo da grande maioria: o financeiro!
— Em relação ao financeiro…. eu também não gosto de gravar como se fosse “ao metro”; gosto de fazer um trabalho, limar arestas e quando vejo que está pronto, tenho a preocupação de o mostrar primeiro aos meus pais e amigos mais chegados, para me darem mais algumas dicas. Com esses originais, consigo também receber o feedback das pessoas; se estão a gostar realmente e se vale a pena ir para a frente com o trabalho.

Bárbara Azevedo em actuação.

— A experiência em estúdio?
— Ah!, a experiência em estúdio! Foi…. — o rosto de Bárbara iluminou-se com um enorme sorriso. — Eu estava maravilhada naqueles dias em que fui gravar para o estúdio (mais risos), gostei imenso daquela experiência! Nunca tinha ouvido a minha voz gravada….
— Não?!  — admito que fiquei surpreso.
— Não, nunca tinha ouvido a minha voz gravada.
— Mas com tantas actuações, com tantas participações em concursos….?!
— Nunca tinha ouvido assim…. a minha voz! A primeira vez foi com Luís H. Bettencourt, que foi excelente nesse aspecto; gravámos o tema The Truth, que apresentei no Natal dos Hospitais, e fiquei maravilhada com tudo…. Depois, na Globalpoint, também com a gravação em estúdio…. E para a próxima semana vou gravar mais um tema lá.
— Então, mas preferes ver um tema acabado para depois começar outro, é assim?
— Sim, exacto. E vou também divulgando mais alguns covers; agora, não vou lançar mais originais. Lancei estes dois em vertentes diferentes; vou lançar alguns novos no meu canal do YouTube, penso que são esses que dão mais projecção…. músicas conhecidas na minha própria versão. Os originais que eu for gravando, vou guardando para depois, para o lançamento do trabalho.
— E por falar em covers, qual foi a sensação de tocar em frente ao grande Zeca Medeiros?
— Ih!, (risos)….
— E como se isso não bastasse, um tema dele?
— Foi uma sensação muito boa! É claro que é mais responsabilidade, estar a tocar para o compositor daquele tema, mas foi uma sensação muito boa!
— Ele manda-te um abraço e transmitiu-me que adorou a tua versão! Acho que isso quer dizer alguma coisa, e estás de parabéns!
— Obrigada! É esse feedback que uma pessoa procura sempre quando faz as actuações, e fico muito contente por ele ter gostado da minha versão e da minha voz, mesmo estando constipada como estava naquele dia.
— Mas saíste-te muito bem! — saíu-se mesmo!
— Obrigada!

— A tua ambição, como açoriana, independentemente de seres picoense ou não, é chegar onde?
— Bom, costuma-se dizer que o céu é o limite, não é? Vamos tentar chegar o mais alto possível, mas com os pés bem assentes no chão, e tudo o que vier é bom! Não vou estar com ilusões, que quero ser um êxito a nível mundial, não é?
— Estás a conseguir equilibrar as tuas prioridades? Estudos, família e música?
— Estou a conseguir conciliar. É claro que, às vezes, é um pouco difícil, com a responsabilidade do curso de enfermagem, e com o conservatório, e ainda pôr algumas composições pelo meio, mas penso que tenho conseguido gerir bem as coisas, e sinto-me bem a fazer ambas as coisas: a enfermagem e a música.

— Sabes que nós, açorianos, temos uma certa tendência para as artes…. Há uma grande fatia de gente que se dedica a todo o tipo de artes. O que achas que o açoriano tem que os outros não têm para seguir por essas áreas?
— Se calhar esta vida em arquipélago…. E notei muita diferença quando vim aqui para São Miguel, porque lá no Pico temos muito mais proximidade com as outras ilhas. Acho que a nossa ideia de arquipélago no grupo central é diferente da ideia de arquipélago aqui em São Miguel.
— Achas que aqui, apesar de ser uma ilha maior, existe uma distância maior entre as pessoas?
— Parece-me que sim, mas não quero fazer juízos de valor….
— Mas já te sentes em casa?
— Sinto-me. E quando me perguntam de onde sou…. quando digo que sou do Pico, apetece-me dizer que já sou metade micaelense (risos). Sinto-me muito bem aqui, em São Miguel.
— Continuando nos teus objectivos: não ponderas a hipótese de pôr um pé fora dos Açores? Nem que seja para promover o teu trabalho ou para algum tipo de formação mais específica….
— Por acaso, tenho pensado nisso ultimamente, porque aqui em Portugal, ou se é muito bom para se vingar no mundo da música, ou se tem muita sorte. É claro que tenho noção de que, se for para outro meio, vai ser muito mais agressivo e a exigência vai ser maior. Vou ver com o tempo o que se vai fazer. Por enquanto vou ficar cá.
— Um passo de cada vez.
— Exactamente.
— Muito bem. Muito boa sorte, Bárbara!
— Obrigada!

A ilha do Pico já nos presenteou com muitas obras de arte, mas esta é especial. Bárbara Azevedo está a marcar um novo fôlego nesta geração de ouro da música açoriana e portuguesa; não apenas pelo dom natural que a sua voz tem, mas também pelo percurso invejável conseguido até agora, tanto em termos de formação, como de reconhecimento obtido. Bárbara controla a respiração muito bem, de forma natural, e tem um vibrato bem dominado e mavioso! No tema cujo vídeo está acima, Old Picture, a ligação com os metais parece ser um dos caminhos a seguir. Vejo também alguns apontamentos do estilo da Broadway interpretados por ela, mas tudo dependerá de onde melhor ela se sentir.

Apesar do seu percurso, Bárbara Azevedo ainda tem alguns obstáculos a ultrapassar. A sua juventude retira-lhe um pouco de mérito — embora eu discorde, é assim na nossa sociedade —, mas esta compositora e excelente intérprete precisa de obter reconhecimento e de se afirmar, mais ainda! Seria também muito interessante para a artista uma experiência fora destes nove ilhéus: vejo-a numa jornada de um mês em Londres, Sydney, ou mesmo Nova Iorque (quem sabe com umas dicas da nossa associada Melissa Cross?). Não devemos ter medo de explorar os mares nunca dantes navegados, até porque, no caso de Bárbara Azevedo, ela conhece bem o seu porto seguro!

E não há dúvida que esta voz ficou-me mesmo…. no Pavilhão Auricular!

in Jornal Terra Nostra, 10 de Agosto de 2012