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Poesia na Montanha

Lá fora, o nevoeiro perseguia o vento e as brumas escalavam a montanha, mas havia chá e biscoitos para os corajosos. Estávamos salvos. Foi no passado domingo que tive o prazer de apresentar o e-book “A Escalada de um Manco” na Casa da Montanha, rodeado de amigos, leitores e curiosos. A par com os livros da Carla Veríssimo e do Enric Enrich Jr., a festa da literatura ganhou asas e voou. Abracei também Manoel Costa e Helena Amaral.

Manoel Costa, Helena Amaral e Pedro Almeida Maia

No primeiro dia, havia massa sovada e torta de bacalhau, entre outras iguarias de divino sabor. A receção convidou os artistas a falarem do seu trabalho e das suas paixões. Estava lançado o mote para a celebração da arte no Pico. O fim de semana preencheu-se com o programa Climb Every Mountain, numa volta à ilha pelas artes. No final, terminei com o queijo do Alfredo e o mel de trevo que trouxe na mala.

A ilha do Pico recebe-me cada vez melhor e este Montanha Festival é outra aposta ganha pela MiratecArts, que recebeu um reconhecimento oficial merecido, anunciado publicamente durante o festival.

Terry Costa e Pedro Almeida Maia.

Terry Costa continua a fazer um trabalho inigualável no arquipélago, colocando a arte açoriana no mapa. Um dia, haverá uma estátua e uma avenida com o nome dele.

Para os interessados, o novo texto está disponível aqui.

É poesia

Comemora-se o regresso à poesia do autor Almeida Maia com a edição de “A Escalada de um Manco”. Ao longo de onze cantos, o autor figura a persistência humana perante o erro e a adversidade. O novo texto está disponível aqui.

As edições e-manuscrito® resultam da iniciativa conjunta da APE (Associação Portuguesa de Escritores) e da plataforma escritores.online. O conceito remete para obras em formato digital, sem intervenção de terceiros, que passa diretamente do escritor para o leitor através de uma plataforma eletrónica.

 

“Vinhas e Epigeus” vence Descobrir Açores 2014

CANTO PRIMOGÉNITO

madrugada

O doce marulhar sussurrava, distante, hesitante,
por entre acervos de lava negra, estendidos, abertos,
como cabelos de uma ninfa, garras de um tal Deus.
E a luz subiu, para aquecer as vinhas e epigeus.
A encosta reluziu, espelhou o amor de Apolo,
e as criaturas acordaram na verdade do seu colo.

A vinha baixa, rastejante, salivava toda a linfa,
Os muros soltos, alinhados, cujas pedras refulgiam,
agasalhavam os mistérios, os preciosos bagos.
E as uvas vacilaram naqueles cachos vagos.
Acalente a brisa os lagos, seus despidos alunos,
do frio, da tempestade e dos azares importunos.

CANTO SEGUNDO

manhã

A faina rasgou o chão, os suores lavaram os regos,
e as botas deslustradas caminharam para os cestos.
Madrugadores do labor, em sorrisos com sabor,
afundaram mãos de calor nas ramagens do amor.
E os cortes rasgaram os caules, a seiva debutante,
e os cachos tombaram, soltos, naquele instante.

Transbordados, subiram os vimes aos ombros,
o peso para as costas. O sumo virgem e fecundo
era diamante por lascar, bago de ouro por moldar.
Gemas ou preciosidades, granjearam novo lar.
E revolutearam todos, palpitaram em jubileu,
na descida para o lagar, na apoteose de Morfeu.

CANTO TERCEIRO

tarde

Ó ócio breve, Diabo da fadiga, do quebranto,
vai p’ra longe, ou p’ra mais perto do Inferno!
Deixa os homens trabalhar, despertos, atentos,
dai-lhes alma, alento, e libertai esses tormentos!
E a labuta regressou, alegrou os vinhateiros,
o alimento contagiou e libertou os adegueiros.

Eram todos iguais, quase irmãos, como se feitos
do mesmo barro, ou até vinho do mesmo jarro.
Prematuros de boa pinga que destilavam bagaço,
fortes como aço, mais do que um grande abraço.
E as lides regressaram, mas tão rápido passaram,
que a noite e os astros do céu negro se apossaram.

CANTO QUARTO

noite

Rara paz no amolar das navalhas, entre muralhas.
Até ao lavar dos cestos se vindima, vê-se a uva.
Por entre pipas gigantes, marcham, ao centro,
sem levar a boca às bicas, invadem, adega dentro.
Chegava a hora das pegadas no lagar, recheado,
regado pelos risos de um momento encantado.

“Este vai ser reserva!”, diz o da primeira pegada.
Conhecia cada sabor, cada licor, qualquer vinho
e aguardente. Ficava dormente, mas contente.
Calcaram os bagos, riram, bailaram alegremente.
E o suco precioso jorrou ali, verdadeiro, eis!
Tirado o vinho, há que bebê-lo! Bebeis?

in Jornal Fazendo, n.º 93, junho de 2014

Pepitas misteriosas

Nas pepitas misteriosas da noite
Danças com um velame de seda;
Alumias o caminho escondido,
Reluzente, de tanto alarido,
Que me arrasta até à labareda,
Até um imenso Sol que nos afoite.

Nas pepitas joviais dos teus olhos,
Vejo o rosto eternamente vidrado.
Aquele que nunca o rumo mudará,
E que desde — e para sempre — ficará,
Para os lados deste lado revirado,
Sem a brisa nos oferecer restolhos.

Nas pepitas nebulosas do escuro,
Vens com mágoa e tristeza eclipsada;
Guias o cio a cada época despida,
Forjas a força!, e a maré fica perdida.
No granjeio, mostras lei fertilizada,
Dás o gérmen ao homem mais maduro.

“Le voyage dans la lune”, por Georges Méliès (1902)

Nas pepitas tresloucadas do mar,
Onde encontras esse reflectido teu,
Derramas a brancura dessa chama,
Irradias o rubor de quem te ama.
Ao girar, mudas o sentimento meu:
Ora sorrio, ora agora vou chorar…

Sou revolto! Estou indignado, irado!
Oh, tu!, não influis mais no meu sentimento!
E mais não reges esse meu pensamento…
Tomai coragem de ver o que estou a viver,
Olhai p’ra mim e enfrentai o meu sofrer!

Nas pepitas da acalmaria tua,
Trazes luz e energia do arcaico;
Vibras — erma — com alvura retratada.
Sou fiel! Rodo a teu lado, desgraçada!
Porque não decifro eu, esse mosaico?
O labirinto que és tu: estranha Lua!