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Capítulo 41 inspira espetáculo de dança

Qualquer autor anseia pela materialização das suas histórias, dos seus livros, quer seja nos palcos ou nas telas de cinema.  Foi com enorme prazer que soube, há cerca de um ano, que o livro Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida era suficientemente sugestivo para inspirar um espetáculo de dança.

Cartaz do espetáculo "Atlântida"
Cartaz do espetáculo “Atlântida”

É já no próximo dia 9 de Junho que sobe ao palco do Coliseu Micaelense o espetáculo de dança aeróbica Atlântida, uma produção Corpore liderada por Alexandra Barroso, a quem deixo uma vénia, não só pelo dinamismo que a caracteriza, mas também pelo que tem ofertado ao nosso desporto nos últimos anos.

A representação teatral da mítica sociedade do passado passará por uma alucinante viagem ao Oceano Atlântico, mostrará o estilo de vida do povo atlante, a expansão do território, a luxúria e o castigo de Poseidon, o deus dos mares. Veremos o afundar da ilha-continente e o despontar dos seus píncaros: os Açores. Um evento a não perder.

Confortável maledicência

"Tongue Tied", por Boris Rasin
“Tongue Tied”, por Boris Rasin

Apontar defeitos é fácil, difícil é apresentar soluções. A crítica comum recorre à maledicência: qualidade do maledicente, ou maldizente, que tem por hábito difamar. O blasfemador não critica comportamentos nem denuncia práticas ou atividades, atinge diretamente o outro. Em vez de “ele fez isto”, diz “ele é aquilo”. Passa a vida a dizer mal dos outros, ferindo-lhes a integridade e desrespeitando o direito à diferença. Na vida em sociedade, somos bombardeados com maledicências: ofendem-se e acusam-se na praça pública. Há tanta rivalidade que até andam com bonecos voodoo. Esquecem-se de que, ao apontar um dedo a alguém, os restantes dedos da mão apontam de volta para si.

Que não haja mal-interpretação, sou contra o laissez faire, é crucial que se deem a conhecer os podres da fruta. Para isso, dar à língua é indispensável, e quem se propõe a deixar de lado a participação cívica é um cidadão hipnotizado. Não calem as vozes, podem ser tudo o que nos resta! No entanto, a censura deve ser praticada de forma construtiva. Uma das máximas de Abraham Lincoln afirmava que “só tem o direito de criticar aquele que pretende ajudar”. Bem, na prática estou a falar mal de quem maldiz. Por isso, também eu posso — e devo — ser acusado de maledicência. Mas eu não sou um ser humano, sou só um humano, sendo.

in Jornal Fazendo, n.º 92, maio de 2014

O barco vai de saída

jantar-nau1Não é uma analogia faustiana, até porque não vamos por este rio acima nem nos limitamos ao cais de Alfama, será antes uma viagem inaugural com uma tripulação reduzida, mas resiliente. Não te levamos connosco, ó cana verde, mas trazemos páginas e páginas que resistirão às maiores tormentas do trono das águas.

E assim se unem as vozes do Cole©tivo NAU, num uníssono reverberante, em estilos únicos, desiguais; juntaram-se à esquina de uma tasca lisboeta, o Sardinha, menos um — eu — que chegarei depois, mas estavam lá os livros. Os nossos. E a paixão por eles também.

É com orgulho e prazer que faço a ponte atlântica, desde aqui, com estes marujos das letras, editados no cont’nente que se diz ser portuga e agora com uma costela açoriana. Somos nós: Ana Saragoça, Carla M. Soares, Cristina Drios, João Rebocho Pais, Paulo M. Morais, Pedro Almeida Maia, Raquel Serejo Martins e Sónia Alcaso.

Depois das iscas e alheiras alfacinhas do primeiro convívio, ainda provarão morcela da nossa, uma queijada da vila ou uma alcatra à maneira. Até breve.

Tremorização cultural

2c319810c2b111e3bc650002c99cddfc_8O ano era o de dois mil e catorze e estávamos com uma dúzia de dias de abril. Era meio da tarde, o Sol a três quartos do arco. Meti o panfleto desdobrável no bolso e seguimos caminho. Parecia que a cidade se tinha inclinado para a baixa e que todas as pessoas tinham deslizado para os mesmos sítios. O resto dela estava deserto. A ilha tremera dois dias antes, e pensei: que bela promoção! Impulsionar um evento desta natureza não é tarefa fácil, mas orquestrar um Tremor a esse nível seria elevar a fasquia para a escala de Mercalli, atribuindo-lhe intensidade imensurável.

Parecia estar tudo a postos, e estava mesmo. Depois, fiquei zangado. Zanguei-me por não ser ubíquo, omnipresente. Queria ser mosca para ver e ouvir tudo. Compreendo e louvo o conceito do festival, mas desejei mesmo estar em todos os palcos. E não consegui. Algumas salas estavam completamente lotadas, não só com público, mas com bom gosto também. Tudo sinais de que havia vida na cidade.

O riquíssimo programa prometia: replays alternativos da guitarra apaixonada e os ecos inebriantes do bracarense Gonçalo no Hostel 3/4 e mais tarde na Travessa dos Artistas; a voz arrepiante da talentosa micaelense Sara Cruz a dar asas ao Cantinho dos Anjos; Nuno Rodrigues a dedicar moda à Duquesa na Londrina; os inconfundíveis Ricardo Reis, Paulo Bettencourt, Luís Senra, Luís Sousa e Ricardo Silva, que são o mundo de Lulu Monde, a jogar em casa, num jam jazzístico da Travessa dos Artistas; as harmonias do guitarrista portuense Jorge Coelho a incendiar o Ateneu Criativo; o one man show David Santos, multi-instrumental conhecido por Noiserv, a encher o Teatro Micaelense; os blues cada vez mais carismáticos dos micaelenses Self Assistance no Baía dos Anjos; o pop eletrónico indie lisboeta dos Sequin para fazer sonhar o Ateneu; a guitarra experimentalista de Rui Carvalho, o Filho da Mãe, a ecoar pela apaixonante e icónica Igreja de Santa Bárbara; a gentileza utópica dos sons de Teresa Gentil na Tasca; Miguel Nicolau e Marco Franco a darem reminiscência lisboeta à Memória de Peixe no Ateneu Criativo; o punk imparável dos The Glockenwise a agitar o Baía dos Anjos; o avant-rock do trio alternativo portuense Torto no Arco 8; o psicadelismo devocional de Óscar Silva a emprestar o folk nortenho a Jibóia e a transfigurar o mesmo Arco 8; e ainda Rui Maia a.k.a. Mirror People a trazer vida sintetizada ao Ateneu.

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Também se desenharam cenários improváveis: Jibóia da Mãe foi uma Jibóia misturada com um Filho da Mãe na Galeria Fonseca Machado; Miguel Nicolau aliou-se a Jorge Queijo para uma Tasca animada; o deejay micaelense NEX com o veejay argentino Federico Lamas no Ateneu Criativo; e ainda cinema, com “Música em Pó” de Eduardo Morais no Cineclube de Ponta Delgada.

10154396_642909849098098_8303259542936828049_nNuma coorganização da produtora Lovers & Lollypops e a Yuzin Agenda Cultural, de salientar foram as mais de trinta parcerias efetuadas com espaços comerciais do centro histórico da cidade e a quantidade diversificada de ambiências surpreendentes. Foi uma tremorização cultural. A perfeição é uma série de pequenas coisas bem feitas, e o Tremor esteve muito perto disso. Até as imperfeições foram perfeitas. Soube tão bem que devia ser proibido. Se o Tremor foi magia, deve existir um ilusionista. Ou vários. Nós sabemos que foram vários. A música esteve sempre a servir de pano de fundo, mas o Tremor estava por toda a parte. Desejam-se réplicas mais fortes desta experiência para daqui a um ano. Até lá, o Tremor fica na aurícula.

in Jornal Terra Nostra, 18 de abril de 2014

Definindo conceitos crónicos

"Le Corbeau", por Édouard Manet.
“Le Corbeau”, por Édouard Manet

A definição de crónica provém do Latim chronica e do Grego khroniká. Sugere uma narrativa cronologicamente organizada de factos, embora também se aplique a um texto de estilo jornalístico com cunha pessoal. A liberdade de opinião também é um pressuposto, mas o conceito mais comum é o de narração curta, para imprensa, seja revista ou jornal. Segundo o que reza a história, foi em 1799 que a publicação parisiense Journal des Débats imprimiu a primeira.

Outras definições atribuem-lhe a função de narrar a vida de um rei, ou mesmo uma biografia injuriosa. Apesar de poder ser dissertativa, poética, descritiva, narrativa, lírica, humorística, jornalística ou histórica, a crónica do cronicista vai ser uma mescla, com uma pitada de cada ingrediente, indefinível pelos padrões atuais. No entanto, a ofensa não fará parte do tom eleito, a política não será tema de preferência e os defeitos apontados não aparecerão confortavelmente.

Crónicas podem ser coisas

“Dois frascos de tinta usada”, por Luana Minucci

Admito que a palavra cronicista não esteja muito dicionarizada, mas como insisto em compilar vocábulos, não há que ter medo. Afinal de contas, as línguas estão sempre em transformação, tirando o Latim e alguns dialetos. Depois do percurso do Pavilhão Auricular, procurei afincadamente formas de expressão que transcendessem as artes. Não é porque as artes já não me seduzem, mas porque a sedução não é só arte.

Assim nasce o cronicista: um ajudante de escaparate a cientificar pela crónica, embora nunca cronicando; um crónico que rabisca croniquetices sem respeitar as leis cronísticas; um imoral corrupto da croniqueta que se enraíza nos anais da história breve; um homem que nem é cronista nem ensaísta, muito menos trocista; ou um adepto da cronicidade das coisas. Sim, porque as crónicas podem ser coisas.

El Açor: e vão quinze!

O éfe-erre-á ouviu-se várias vezes naquelas duas primeiras noites de primavera, em alusão ao acrónimo original conimbricense — F-R-A: Frente Revolucionária Académica. Em 1938 o grito tinha índole político, mas agora serve propósitos comemorativos, embora muitos ainda precisassem de um bom chiribitatatata. Foi com espírito revolucionário, mas pacífico, que as tunas invadiram o palco do Coliseu Micaelense para o XV Festival Internacional de Tunas “El Açor”, nos dias 21 e 22 de Março de 2014. Desde o último ano do século passado que a Tuna Masculina da Universidade dos Açores, conhecida intimamente por Tunídeos, organiza o evento icónico, que conta com a apresentação originalmente imprevisível dos hilariantes Tunalhos. O público duvidava para onde dirigir a atenção, sem saber se aplaudia mais os intervalos divertidos ou as atuações memoráveis.

xv_elaorEsta comemoração tunificadora do espírito académico já passou pelo Teatro Micaelense e pela Aula Magna, mas o coliseu é o mais recente epicentro do contágio da cidade com humor, música e solenidade. A cultura regional açoriana já não passa sem este convívio tunante de cardumes escombrídeos desenlatados. Os tunadores vêm de todo o país e arredores, com os seus contrabaixos, guitarras, bandolins, cavaquinhos, violas da terra, violinos, acordeões, flautas, tambores, pandeiretas, estandartes e bandeiras. A festa é arrojada, a arte do pandeiretismo deixa boquiaberta a audiência e as bandeiras esvoaçantes elevam o espírito estudantil.

A palavra tuna provém do francês tune, “hospício de mendigos”, e do castelhano tuna, “vadiagem”. Talvez sejam esses os ingredientes fulcrais à tunantaria, aquele calor que passa dos palcos diretamente para os corações da assistência. E assim conseguiram encher a alma e lotar a sala, com tunantagem e sem chantagem. O recinto repleto bombeava entusiasmo, numa mescla universitária festiva, com direito a camarote para a nobre psicossaurologia. Se aquelas noites fossem uma praxe, todos quereriam ser praxados.

Foram convidados especiais os Brass Band, mas também subiram ao palco da primeira noite a mui nobre Tuna Académica da Universidade dos Açores (TAUA); a fantástica Tuna de Tecnologias da Saúde do Porto (Tuna TS), depois de três saudosos anos de interregno; a ilustre “mais jovem e mais velha” tuna açoriana, Real Extudantina dos Açores (RExA); e ainda a galardoadíssima Tuna Universitária de Trás-os-Montes e Alto Douro (Transmontuna). O dia dois prendou a audiência com a sempre glamorosa e encantadora Tuna Feminina da Associação Académica da Universidade dos Açores (Tuna com Elas); a Tuna Académica do Instituto Superior de Engenharia do Porto (TAISEP), cujo lema é “diverte-te a ti mesmo e só depois os outros”; a Tuna do Distrito Universitário do Porto (TDUP), que dá o prazer da visita ao festival pelo segundo ano consecutivo; e a Tuna Mista da Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (Enf’ In Tuna), que tão musicalmente cuidará de nós nas enfermidades.

Foi com a já imprescindível e inimitável curta-metragem de qualidade tunal que se deu o início do fim, o encerramento com chave de ouro pelos anfitriões do evento. Depois, o aguardado momento da distribuição dos prémios: Melhor Estandarte: TAISEP; Melhor Pandeireta: Tuna TS; Melhor Solista: TDUP; Melhor Original: Tuna TS; Melhor Instrumental: RExA; Tuna mais Tuna: Transmontuna; 3.ª Melhor Tuna: TAISEP; 2.ª Melhor Tuna: Tuna TS; Melhor Tuna: RExA.

Os Tunídeos são de parabenizar, não só pelas atuações de grande nível, por juntar no palco a multidão dos antigos elementos ou pela originalidade do jocoso sketch musicovideográfico, mas também pela organização e dinamização deste evento marcante. Um apontamento para a inovação deste ano: os elementos transversais a toda a encenação, Super Mário et al., que interrompiam e intercalavam inteligentemente as performances. Outra vénia vai para a iniciativa da oferta de uma cadeira de rodas a quem muito precisava. É em tempos difíceis que as grandes mentes emergem.

Na festa depois da festa, para não inglesar afterparty, o campus de Ponta Delgada da Universidade dos Açores pareceu iluminado, animado e recheado de vida. Tal e qual um dia de aulas normal, passo o sarcasmo. Nesta grande festa do “El Açor” ficou tudo bem impregnado na retina, no palato…. e na aurícula. Venham mais quinze!

in Jornal Terra Nostra, 4 de abril de 2014

Novas aventuras

Foi no ambiente académico que surgiram os primeiros contactos acerca do Necas, por parte das professoras Dr.ª Célia Barreto Carvalho e Dr.ª Suzana Nunes Caldeira. Aceitei sem qualquer tipo de hesitação. Mas não me vou desligar da prosa, podem ficar descansados os leitores mais graúdos.

Capa do primeiro volume, ilustração de Ana Correia
Capa do primeiro volume, ilustração de Ana Correia

O convite era irrecusável. Escrever na área da Psicologia já era um desejo meu, experimentar públicos-alvo diferentes também e a minha condição de pai também contribuiu, mas é preciso admitir que não teria legitimidade suficiente para fazê-lo sozinho. Se juntarmos o privilégio que é trabalhar com profissionais de experiência reconhecida, temos a combinação perfeita.

Assim, a 14 de março de 2014, a Biblioteca e Arquivo Regional de Ponta Delgada será o palco para o lançamento do livro “Os Vencedores do Medo”, o primeiro volume da coleção de livros infantis “Vamos Sentir com o Necas”, escrito em co-autoria com Célia Barreto Carvalho e Suzana Nunes Caldeira, com ilustrações de Ana Correia. Além da presença de inúmeras individualidades, a apresentação ficará a cargo da Dr.ª Natália Almeida. O projeto tem a chancela da Letras Lavadas edições, grupo Publiçor, a quem dirijo mais um reconhecimento.

A coleção é um projeto fundamentado na Psicologia que trabalha as emoções nas crianças para favorecer a auto estima, fomentar a sã convivência e facilitar o sucesso escolar. 
Em cada livro, o leitor, seja a criança ou o educador, pai/mãe ou professor, irá encontrar uma história atrativa, em que os protagonistas são um grupo de crianças e o seu amigo especial, o golfinho Necas. Cada história é seguida de uma secção interativa de estratégias que correspondem a um conjunto de ferramentas simplificadas para ajudar a criança a lidar com as suas emoções e, assim, sair-se melhor no dia-a-dia, quer seja na escola, em casa ou com os amigos.

Não é fácil explicar a uma criança a diferença entre os medos falsos e os que são realmente necessários à sobrevivência, ou como distinguir os pensamentos importantes dos descartáveis, mas, com uma linguagem acessível e uma boa dose de criatividade, queremos mostrar que é possível. Para já, estão previstos dez livros e um manual. Os restantes volumes tratarão outras emoções, como a alegria, a tristeza, o nojo e a raiva, entre outras. As crianças das histórias, o António, a Rita, a Luana, a Maria, o Li e a Mariana, sofrem das mesmas dúvidas e têm as mesmas ansiedades das crianças dos nossos dias. Cada história pode ser lida isoladamente, dando aos educadores a possibilidade de agirem com mais rigor, mas os diferentes temas vão complementar-se. O manual será uma ferramenta adicional para os profissionais da área, uma coleção de exercícios e técnicas que podem contribuir para uma intervenção mais eficaz.

Açorianos em destaque nacional

A literatura açoriana está de parabéns. O escritor e ensaísta Miguel Real acaba de destacar, na sua crónica do quinzenário Jornal de Letras de 22 de janeiro a 4 de fevereiro de 2014, nomes da nossa praça. Segundo o crítico literário, “nos Açores, sobressai a continuidade de estilo e de tema nos novos romances de Pedro Almeida Maia, Capítulo 41 – A Redescoberta da Atlântida, e Paula de Sousa Lima, Mas Deus não dá licença que partamos, autores cuja arte de escrita abre novos horizontes ao romance açoriano, especialmente, sobretudo o primeiro autor, na superação do labirinto de tristeza, saudade e melancolia de que a literatura açoriana tem vivido”.

20140122_JLNeste resumo do melhor que se fez no ano transacto, intitulado “2013: evolução na continuidade”, Miguel Real coloca a literatura regional lado a lado com grandes nomes do panorama nacional. Nas revelações, destaca autores como Ana Margarida de Carvalho, Raquel Freire, Bruno Vieira Amaral, Hugo Gonçalves, Paulo M. Morais, Filipe Homem Fonseca, Rodrigo Magalhães e Pedro Eiras, mas também com outros relevos, como Valério Romão, Manuel da Silva Ramos, Nuno Júdice, Rui Zink, Rui Vieira, António Cabrita, Carlos Alberto Machado e Afonso Cruz. Enfatiza igualmente as obras de Joana Bértholo, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Francisco Camacho, Carlos Campaniço (Prémio Cidade de Almada), Nuno Camarneiro (Prémio Leya 2012), Luís Carmelo, Manuel Dias Duarte, Fernando Esteves Pinto e Nuno Figueiredo. No romance histórico, o enfoque vai para Fernando Campos e Sérgio Luís de Carvalho. Também na Madeira, e além de Helena Marques, “surgiu um novo escritor, António Breda Carvalho, com o romance histórico O Fotógrafo da Madeira“.

Em jeito de resumo, Miguel Real afirma que, aos “autores veteranos (chamemos-lhes assim)” Rui Nunes, Mário de Carvalho, António Lobo Antunes, Rentes de Carvalho, Manuel Alegre, Agustina Bessa-Luís e Inês Pedrosa, entre outros, “aplica-se em perfeição o título deste artigo”. Na escrita romanesca, “continuam iguais a si próprios” Mário Zambujal, Miguel Sousa Tavares e José Rodrigues dos Santos, enquanto a surpresa maior vai para a estreia de Teresa Martins Marques no romance A Mulher que Venceu D. Juan, sobre a violência doméstica, o primeiro romance escrito no Facebook.

Mariana, a soberana

A soberania é um conceito difícil de alcançar. Há quem acredite que tal patamar não existe, sequer. Os egípcios falavam em faraós, os gregos em supremos governos, os romanos em imperadores, os plebeus em reis e rainhas, os portugueses em Camões e os açorianos em Pauleta e Nelly Furtado. O poder de um soberano é a soberania propriamente dita, mas é uma autoridade insípida. Usar uma coroa pode parecer imponente, mas pode ser um peso incómodo; a não ser que se seja uma princesa, porque as tiaras aparentam leveza e graciosidade. As coroas de papelão das festas de aniversário, que toda a gente já usou, são mais fáceis de descrever: se descontarmos a comichão que provocam no pescoço, leveza maior não pode existir. Uma coroa de espinhos também não soa a dominância, mas muita tinta e sangue na Bíblia deu a derramar. Já uma coroa de flores significa ocupar o primeiro lugar, subir ao pódio e fazer uma vénia para receber a medalha.

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Foi para isso que Mariana Rocha fez a mala: para subir ao palanquim e ganhar uma medalha de um tal de factor xis. Mesmo que fosse o factor ípsilon, ou , ela estaria lá. O motivo é simples: Mariana, a soberana, tem os três. Ou mais: Mariana Rocha reúne todas as características de uma stage woman, todas as qualidades de uma protagonista, todos os atributos de uma grande intérprete, todos os fatores inerentes a uma verdadeira artista.

16 anos. Quem é que tem 16 anos e canta assim? Ninguém. Assim, como ela, só ela própria, só a Mariana Rocha em pessoa. Não interessa até onde ela pode chegar — que vai ser muito longe —, não interessa se assina contratos com multinacionais, se vai gravar em Abbey Road, se lança uma dúzia de discos, com direito a quádrupla platina dourada com rebordo em diamante, se ganha os próximos Emmys ou os MTV Awards. Não interessa, porque Mariana, a soberana, já ganhou. Ganhou fãs, aplausos, ovações de pé, sorrisos, abraços, alegrias e palcos. Sim, porque os palcos também se ganham. Melhor ainda: merecem-se! Mariana merece os palcos.

Mariana-2Este domingo, enquanto uma parte adormecida deste País em pantanas vai ressonar em frente ao escrutínio de segredos, o lado acordado da sociedade vai aplaudir e votar na soberana: na Mariana. Porque sabem que ela tem aquele ingrediente especial. Mariana contagia com a sua simplicidade, o sotaque indisfarçado, a ousadia e o à-vontade de uma verdadeira entertainer. Enche as salas com energia positiva, sem falsos protagonismos, e leva a voz colocada, controlada, cheia de spring e calor de veraneio.

E que orgulho tem esta terra numa jovem tão promissora, tão cheia de energia e alegria? A força deste povo consegue concentrar-se numa única pessoa, e talvez seja isso que vai acabar por acontecer. Mariana vai carregar a força de gente que quer singrar, vencer, chegar longe! A voz dela será o somatório das nossas.

Os Açores podem ser insularidade e desunião geográfica, mas não há povo igual no que toca a dar as mãos. Quando o chão treme e os vulcões se agitam, os açorenhos cerram os punhos e chamam os problemas a si, desafiam-se à união. Mesmo quando as brumas se espalham sobre águas agitadas, pelos tufões, tempestades e mau tempo, este povo une as vozes e sopra bem alto para limpar o céu, para trazer bom tempo, para abrir canais.

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E agora há uma explicação para quando a terra treme e os vulcões se agitam: é porque a Mariana está a cantar. E quando os céus trovejam? É porque os deuses estão a lançar os dados… e a apostar na soberana.

Os palcos são teus, Mariana. Vais ficar definitivamente na aurícula. E este povo está contigo!

in jornal Correio dos Açores, 28 de Novembro de 2013

O regresso a casa

Há viagens com significado, mas os regressos podem ter sabores especiais. Este teve, depois do convite de Vasco Pernes para mais uma noite bastante sentida.

Na companhia da dinâmica mulher das letras, Patrícia Carreiro, que também apresentou o seu Fio Perdido, recapitulou-se a experiência nas lojas FNAC, as apresentações de Joaquim Fernandes e Miguel Real e a organização exímia de Terry Costa da MiratecArts na ilha do Pico, nas mais recentes aventuras literárias. Mas também falámos de futuro, de utopias, de Vamos Sentir com o Necas e de outros projetos vindouros.

Neste programa, Vasco Pernes também convida os músicos André Jorge e Luís H. Bettencourt, a Escola Profissional de Vila Franca do Campo e a Tertúlia do Petisco. Para ver o episódio completo, clique aqui.

A magia do Pico

Não era um sábado muito sedutor. Nem sequer convidava ao passeio, muito menos para um local mais “cinzento” do que a própria ilha. Mas as cores pardacentas estavam somente ao que os olhos distinguiam, porque os picoenses coloriram a Gruta das Torres com sorrisos, música e hospitalidade.

Terry Costa e os Atlantis Brass Ensemble | Fotografia de Jaime Debrum
Terry Costa e os Atlantis Brass Ensemble | Fotografia de Jaime Debrum

A ilha do Pico surpreende mais uma vez, numa apresentação que abarrotou de significado, não só porque é onde começa a história de Bom Tempo no Canal e por onde se divaga nos Maroiços do Capítulo 41, mas também pela inspiração que o “canal” oferece e pela arte de bem receber destas nossas gentes.

Seguiu-se a descida. “Fiquem sempre do vosso lado esquerdo”, alertava Maria João, a amável e experiente guia. Ligaram-se as lanternas e desceram-se os degraus escorregadios. A caverna inundou-se de luz e de mistério e, além dos pingos que caíam aqui e ali, o som de um saxofone ecoou pela vastidão do espaço.

Fotografia de Jaime Debrum
Sofia Sousa e Daniel Pena | Fotografia de Jaime Debrum

O grupo desceu até um novo patamar e embasbacou-se com a visão: a bailarina Sofia Sousa, trajando um arrojado vestido rubro, com os pés desnudos sobre a pedra basáltica, fazia rodopiar suavemente o corpo ao som do sax de Daniel Pena. Um momento arrepiante.

Como se não bastasse, depois de conquistados mais alguns metros em profundidade, numa câmara imensa e imensamente escura, iluminada apenas pelos ténues feixes de luz das lanternas, esperavam-nos outros sons. Catarina Paixão deslizava magistralmente o arco pelas cordas do violino e oferecia mais um momento de pura magia.

Aplausos | Fotografia de Jaime Debrum
Aplausos | Fotografia de Jaime Debrum

Terry Costa, o irrepreensível organizador do evento e promotor da Mirateca Arts, juntou-se ao palco improvisado na rocha vulcânica e declamou excertos da Redescoberta da Atlântida, enquanto Sofia Sousa voltava a mostrar passos de bailado inebriantes. Os aplausos pareceram ecoar teimosamente nas paredes gélidas, num misto de emoções que incluía a admiração. Depois da subida, falou-se de livros, de Açores, de histórias e de aventuras.

Depois, um convívio mais próximo, muito mais pessoal. Um a um, os convidados usaram da palavra e partilharam as suas visões, os seus ideais. Biscoitos, uma bebida licorosa, dedicatórias, risos e abraços. Muitos abraços! Quem me dera ser um gigante, para poder abraçar a ilha montanha. Não há palavras suficientes que possam eternizar o reconhecimento por estes momentos muito bem passados.

O capítulo viajante

Para não correr o risco de ficar circunscrito, o tubo metálico azul e branco da companhia aérea arquipelágica contrariou a gravidade e permeou as nuvens. Deixou a ilha verde, rumo ao território da metrópole, sedento de mares atlânticos, talvez nunca dantes navegados. Se publicar e ver reconhecido um pequeno percurso literário tem sido uma escalada prazerosa, a ida às lojas FNAC foi um bungee jumping invertido.

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Na cidade invicta, o professor universitário e autor Joaquim Fernandes brindou a audiência com extratos da prodigiosa História deste país à beira-mar plantado. Depois, falou da lenda, tão bem narrada por ele próprio, do Cavaleiro da Ilha do Corvo, obra que também inspirou o Capítulo 41.

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Já por terras lisboetas, Alfragide destacou o evento e recebeu de braços abertos as letras açorianas.

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A loja FNAC do Centro Comercial Colombo encerrou a odisseia da melhor maneira possível, com uma palestra motivadora e enriquecedora do grande Miguel Real.

O filho da Rocha da Relva

Abro a capa cartonada, com o perfil escurecido de um homem iluminado. Revela-se a foto de um lençol de rocha rolada, mar até se perder de vista, e ele de chapéu de palha. Desdobro outra vez e recebo dois presentes: um livro com letras, poemas e um disco compacto esbranquiçado. O tempo do vinyl já se foi, mas não me apetece desfrutar de uma obra-prima destas num vulgarizado leitor digital. Ligo a estereofonia, abro o tabuleiro e pouso a rodela de acrílico inventada em 1979. Fecho a bandeja, aumento o volume, agarro o pequeno livro e recosto-me. Andava ansioso, à espera deste momento, mas “quem espera sempre alcança, foi sempre o que ouvi dizer”.

Já ouvira zunzuns, quando o mestre preparava o novo trabalho. Escutei uns acordes aqui e ali, mas nada como apreciar a magia das palavras do grandioso poet’autor no recolhimento usurpado à azáfama do dia-a-dia. Os sons voam dos altifalantes, numa mescla acústica que me desenfada. Aníbal Raposo prepara-se para cantar, enquanto os sons da Rocha da Relva convidam-me à viagem. Chamei-te Linda, Engraçada apresenta o solo alegre da guitarra de Eduardo Botelho, antecipado à percussão compassada de Paulo Rosa, ao violino mavioso de Lídia Medeiros, ao cavaquinho irrequieto de Pedro Alvim Pinheiro e ao baixo cadenciado de Williams Maninho Nascimento. A doçura da voz de Marta Pereira mistura-se com a do mestre, numa declaração amorosa às flores de um jardim, às rosas de um roseiral, que Aníbal junta ao mais puro desejo. Paulo Vicente acaricia o teclado gentilmente, antes de Mário Jorge Raposo encher Uma Estrela no Sul com solenes strings, e enquanto Williams vibra baixinho e Paulo Rosa afaga a bateria. O mestre declama: “Ai meu amor, escuta a minha voz. Pensando bem, quem está como nós?”. Sim, quem está como nós? “E era roxa a saudade”, “os olhos rasos em águas de recordações”.

A exímia Patrícia Perpétuo eterniza uma noite de lua cheia nas flautas de Fases da Lua, como se o seu sopro alimentasse as velas de um batel ao largo da Rocha da Relva, e onde Aníbal diz “quem diria lua cheia, que à tua luz fiz um filho”. E esse filho só pode ser a unicidade da sua música. Paulo Andrade repercute o andamento certeiro, Zica eleva o baixo a outro patamar e a guitarra solo de Eduardo Botelho embala. E embala com tal jeito que nos solta para a Dança com o sopro do trompete de Hugo Araújo. “Dança comigo amada, que eu já estou na escada que me leva ao céu”, acompanha a concertina atrevida de Paulo Pimentel e o cavaquinho afinado de Hélio David. Alfredo Molina dá os batuques com “leveza de pena” a par com Zica. E esta dança “solta-me a alegria de quem nada deve”.

Aníbal Raposo ordena “marrecos para a água” no engenhoso poema de Acorda Mulher, acompanhado pelo acordeão ritmado de Álvaro Melo e pelos repetentes Eduardo Botelho, Paulo Rosa e Zica. Nesta Maré Cheia, diferente da que nos brindou em ’99, há uma mensagem ao Sidónio e a pesca é uma sinfonia ao “som dos cagarros”, uma autêntica faina bafejada pelo “vento do sul”. Ernesto Sousa abraça apaixonadamente o acordeão e fá-lo respirar a aura de uma declaração de amor, uma “coisa bonita, cheirosa flor” que nos faz sorrir e elevar as sobrancelhas. A dupla Eduardo Botelho e Mário Jorge Raposo está de volta nesta Minha Metade, que só se completa com a grandiosidade do contra-baixo do grande Mike Ross, um “meu talismã”. Cara Perfeita é quase uma utopia do agreste, com solos de guitarra com sotaque, um baixo verdadeiramente brasiliense e percussões “à luz do luar” da bossa-nova. “Ninguém vai estragar a nossa alegria”, nascida da fotografia de Maria Helena de Sousa Ferreira.

Aníbal já deu a volta ao mundo e ao medo, tem paixão pela vida e deixa-se sonhar por esta terra e por este mar. A musicalidade de Já Dei a Volta enaltece “um mundo de emoção que me faz derreter o coração”, tal como faz a rouquidão dos fôlegos romanescos do sax de Carlos Mendes. Eduardo surpreende na Viola da Terra e Raúl Damásio alia-se na harmonia das vozes em Se És Bom Companheiro, enquanto Lídia Medeiros ajuda à serenata com os perfeitos violinos e Paulo Andrade retumba na percussão. Enquanto Raúl Resendes dá vida ao som dos remos “pelo mar fora”, André Jorge e Odilardo Rodrigues embalam a “lanchinha” deste final genial. De olhos cerrados, Rema guia-nos a alma “p’ró alto mar”, como só Aníbal sabe fazer. E depois brindou-nos, renovando a sua musicalidade, num concerto com os Connection, Mário George Cabral, Vânia Dilac, Paulo Bettencourt, António Feijó e Hélder Machado, com sonoridade renovada, mente aberta e espírito de navegador de mares desconhecidos!

Aníbal Raposo é um dos pilares da música popular e poesia deste século, não só dos Açores, mas do mundo. Cresci a ouvi-lo nos Rimanço, ao lado da geração mais inspiradora de sempre, a cantar temas como Nascer de Novo, No Vapor da Madrugada, Cantigas da Terra e até a Lira, que ainda faz bater os corações açorianos. E como é que um aprendiz fala do seu mestre? Dedicando-lhe uma vénia. Obrigado, Aníbal!

in Jornal Terra Nostra, 11 de Outubro de 2013
in Portuguese Times, 23 de Outubro de 2013

Capítulos com bom tempo

10 de Setembro passou e deixou boas recordações. Amigos, família, entidades  e leitores anónimos juntaram-se na mesma sala e beberam do mesmo entusiasmo que esta aventura tem trazido.

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Uma experiência sensacional, cheia de momentos emotivos e de palavras sentidas. Discursos impactantes e recheados de energia positiva para o futuro.

Desde os anfitriões da acolhedora Biblioteca Púbica e Arquivo Regional de Ponta Delgada até aos ilustres convidados, tudo pareceu estar alinhado para uma noite memorável. E assim foi.

Emoções que prometem repetir-se brevemente. Os eventos e as oportunidades sucedem-se, cada vez com maior significado. Aproximam-se novos desafios, e alguns deles requerem mais dedicação, mais empenho, mais trabalho. Estou grato a todos os que têm acompanhado este curto percurso, e reconhecido a quem se tem colocado ao meu lado. Obrigado.

Deolinda = trindade + divindade

A suis generis Ana Bacalhau trazia um vestido às florinhas e uns saltos à maneira, quando pisou o palanque, tal e qual uma fadista tradicional, para receber palmas do lotadíssimo Teatro Micaelense. Minutos antes, os quatro músicos trajados de negro tinham abraçado os instrumentos e arrecadado uma dose de boas-vindas. Instrumentos afinados, sons harmonizados…. Mas, esperem. Quatro músicos?! Os Deolinda não eram uma trindade atrás de uma divindade? Sempre ouvira dizer que, em 2006, os irmãos Pedro da Silva Martins e Luís José Martins, outrora fundadores de um “Bicho de 7 Cabeças”, haviam usurpado a prima Ana Bacalhau dos Lupanar para cantar umas cançonetas. A coisa correra bem e ela chamara também o marido, José Pedro Leitão. Deve ter dito: “Traz lá o contrabaixo, amori, e junta-te à festa”.

ag_deolinda2Bem, e que festa! A sala estava a meia-luz e os primeiros acordes tilintaram. Revolucionaram o bichinho da audiência, que não teve outra hipótese senão dar início ao bate-o-pé inconsciente e ao bater palmas a compasso: logo nas primeiras músicas! Começava assim uma actuação memorável que terminaria, não com um encore, mas com três! Aquilo a que eu sabiamente chamo de trois-core!

Dizem que Pedro Martins só escreveu quatro canções, nos primórdios dos Deolinda, mas que depois catadupejaram para a ribalta de hoje em dia. Sentado no extremo esquerdo, manuseava o braço da guitarra como quem conduz uma donzela numa valsa. Escrever para televisão só lhe pode ter aguçado o espírito cinematográfico, com direito a assobiadelas quando despiu o casaco. Certo é que escrevinhar o Desfado valeu-lhe uma visita da SPA. Bateram-lhe à porta e disseram: “É só para entregar um galardão, o da Melhor Canção do Ano de 2012”. Mas não ficou por aí, teve mais fados. Foi só esperar por Maio de 2013, quando a SIC e a Caras premiaram-no com um Globo de Ouro. O grupo já alcançou várias platinas, um “Prémio Amália Rodrigues” e um “Songlines Music Award”.

1044188_516742681729890_1398094456_nNo extremo oposto do palco estava o mano mais novo, Luís José Martins. O Conservatório Nacional de Lisboa pariu-o, para terras gaulesas. Em Castelo Branco, licenciou-se em Música, o que proporcionou uma carreira de professor em vários conservatórios portugueses. Só depois vieram os projectos musicais. Interessante, a forma como ele dialogava com as cordas da guitarra. Era como se elas percebessem a linguagem dos dedos afoitos e audazes. E quando ligou a distorção? Sim, distorção! Bem, fale-se em como o melhor timing permite as mais incríveis imprevisibilidades! Mas o músico também fez magia em pequenas dimensões, não dominasse ele também a viola braguesa, o ukelele, o guitalele e o cavaquinho. Nos dias que correm, não é fácil encontrar quem domine cavacos.

A percussão foi simplesmente serginal! A inclusão das cadências de Sérgio Nascimento deu renascimento ao fado, se é que alguma vez foi outra coisa que não pulsante. Aliás, nunca tinha visto tamanha inteligência num colectivo português, tamanho brilho e perspicácia em marcar mensagens, ora apimentadas, ora anedóticas. Nunca havia percebido que a ironia conseguia criar analogias tão fortes como quando ouvi o Fiscal do Fado. É incrível como este grupo, num “Mundo Pequenino” como o nosso, enfia Portugal inteiro em cada compasso.

O contrabaixista aveirense José Pedro Leitão tem grandes qualidades, sendo a principal ter nascido em ’79. Continuo a defender que foi um ano de grandes colheitas, e ele é só mais uma prova disso! O Engenheiro Civil, que ajudou a dar música nos Lupanar e nos Tricotismo, manobrou as notas graves do colectivo com tal preciosismo e cadência, que hipnotizou a hipófise de muita gente naquela sala. Mais difícil ainda é percorrer as longas cordas sem a aliança de casamento prender. Ah, não sabiam? O homem é casado. E tem a sorte de viajar com a mulher, mantendo-a sempre debaixo de olho, sempre diante de si. Ela canta e dá pelo nome de Ana Bacalhau.

A moça lisboeta dá sempre cartas aos que a julgam como mera cantadeira. Ana domina os dotes vocais com distinção, tanto nas qualidades a que o fado tanto obriga, como em apontamentos líricos magnificentes. Controla amplitude, abertura e dicção como raramente se vê. Além disso, teatraliza de forma exemplar as personagens que as canções muito bem desvendam, acrescentando-lhes movimentos de anca irreplicáveis e passos de dança contagiantes! Torce o sobrolho em Pois, grande castiça em Fon Fon Fon, teatral no Fado Toninho e magistral no restante repertório riquíssimo, merecedora de “Ah, fadista!” e “Bravo!” por várias vezes.

Deolinda é Fado. Fado é Portugal. Portugal é Bacalhau. Bacalhau é Ana, e Ana é Deolinda. Ou seja, Ana Bacalhau é Fado e os Deolinda são Portugal! Sim, os Deolinda são uma trindade atrás de uma divindade.

E ficaram inquestionavelmente na aurícula!

in Jornal Terra Nostra, 26 de Julho de 2013

A capa do capítulo

Perto de uma qualquer cama de maternidade, ouvem-se comentários como “tem o nariz da mãe, mas os olhos são todos do pai”. Antes de nascerem os bebés, é comum fazerem-se estimativas, previsões. No entanto, ver o filho nos braços é sempre diferente do que na ecografia.

CAPA simulacaoNo decorrer dos meses investidos na escrita deste novo capítulo, também imaginei como viria a ser a cara dele, se parecida com alguma coisa ou lugar. Julgo que a sensação é mais facilmente percebida por quem escreve e tem a sorte de publicar: deixa-se verter o sangue da inspiração, dá-se-lhe um nome e espera-se pelo parto. Este Capítulo 41 acabou de nascer. Apesar de só poder sair à rua aos dez dias de Setembro, já se pode apreciar e especular. Graças à capa.

Deixo uma verdadeira vénia à simpatia e disponibilidade dos elementos do Grupo Folclórico de Cantares e Balhados da Relva, que tão gentilmente cederam o traje da mulher de Capote e Capelo, e que mostraram a sabedoria de quem vive e respira a cultura açoriana. Um agradecimento à Catarina Pires por ter suportado a sessão fotográfica dentro das vestes abafadas e por ser sempre tão prestável e amiga. O trabalho dos brothers Tiago e Miguel, um na fotografia e outro na visionária criação, transformaram esta capa numa verdadeira obra-prima, pelo menos aos meus olhos. É o fruto que se colhe quando se semeia e rega uma verdadeira irmandade.

Quanto ao simbolismo, deixo o prazer da descoberta aos leitores.

Haja saúde com lágrimas

— Haja saúde! — disse-me o Luís, à entrada. — Home’, vocês que entrem e estejam à vontade! ­— ele recebia os convidados como se estivesse à porta de sua casa. De certa forma, estava: era “uma casa portuguesa, com certeza”, mas eu diria “uma casa açoriana e não engana”. A casa arcana, a que o Luís tão carinhosamente apelidou de “tasquinha”, era o Teatro Ribeiragrandense.

4081367514194A cidade da “grande ribeira”, cada vez mais capital cultural da açorianidade, exalava nostalgia naquele quinze de Junho. A arena do teatro estava diferente: tresandava a talento, fado e saudade. No meio das cadeiras em tecido cor-de-sangue, corria nas veias dos presentes um calor alterado. Sim, viam-se sorrisos, abraços e boa disposição; nada disso era novidade, sempre que aquele homem estava por perto, mas o sabor agridoce tinha também entrado no salão.

E eis que se baixam as luzes. Depois de cavaquear com um e com outro pela plateia, Luís Gil Mendes Bettencourt sobe ao palco pela frente. Senta-se ao microfone e rejeita modestamente o caloroso aplauso que lhe é dedicado.
— Não é preciso nada disso — disse ele. Explicou que queria momentos de à-vontade e convidou os presentes a recolher um dos imensos copos de Angelica que aguardavam na berma do palanque. Antigamente, era comum acenderem-se isqueiros durante as baladas. Agora, imaginem uma plateia inteira a erguer copos de licor.
— Haja saúde! — brindou ele. O público correspondeu. E bebeu talento. Até pouco antes das doze badaladas, Luís conduziu-nos por uma viagem no tempo. Atrás dele, três tímpanos imponentes. Ao lado, um segundo microfone. Rodeado de guitarras clássicas, de folk, uma guitarra eléctrica e uma Viola da Terra, fez rodopiar emoções num trajecto que emocionou.

Foi com o tema “Dreams” que abriu as hostilidades daquela noite magnífica, ao que ele chamou de “teledisco foleiro”, mas que marcou uma geração que via a RTP Açores e que repetia: at the end of the road I see hope. A moda “luisbettencourtista” continuara com “If There’s a Reason”, cujo vídeo era “uma espécie de Avatar da altura” — palavras do próprio —, o que só vem provar o seu lado visionário.

Luís confessou que vai apoiar a carreira da filha. Maria subiu ao palco e desbravou o seu timbre doce e com um grasp cada vez mais controlado. O duo também brindou o público com “More Than Words”, ao que Luís sublinhou que “aquela pancadinha é minha”, referindo-se ao abafar as cordas com os nós dos dedos que se tornou mundialmente célebre. São coisas das quais não se conseguem registar direitos de autor. É difícil esquecer o que acontece quando Luís Gil Bettencourt agarra numa guitarra, qualquer que seja. As dedadas frenéticas e os strums prestidigitadores magnetizam qualquer apreciador, e são o símbolo do que eu gostaria de chamar a “bettencourtização” da música.

Neste “Antes que a Voz me Falte”, Luís mostrou um lado saudosista, mas a voz não lhe faltou.
— Vocês vêm ao meu funeral e aplaudem? — desabafou ele, contrariando o sabor a despedida. Falou com ironia do problema que lhe alterou os planos para o futuro.
— Na Terceira, a gente chama de tosse. Vocês sabem o que é tosse? — arrancou gargalhadas da plateia.

Na que foi considerada a última grande actuação “cantada”, falou de um novo disco “Coisas Alheias”, ou seja, não se vai desligar da música. Não acreditamos e não queremos que o faça. Uma das provas de que isso não pode acontecer foi o momento mágico em que pegou na Viola da Terra. Com a sala iluminada q.b., um holofote descia directamente sobre ele; embatia no espelho no cimo da “viola dos dois corações” e produzia um efeito deslumbrante: o delicado feixe luminoso derramava-se pela sala, como um farol que nos guia a bom porto. No final, ouviram-se os tímpanos e a trompa a acompanhá-lo. Depois, desabafou acerca de nem sempre sentir que pertence aos palcos:
— Vocês fizeram-me sentir como se eu pertencesse aqui! — e as lágrimas humedeceram a sala.

A ovação de pé foi interrompida por ele. Diz não gostar de palmas. Se assim não fosse, o aplauso merecia durar até ao dia seguinte.

Luís Gil Bettencourt não ficou na aurícula: já vivia lá! E queremos continuar a ver o nome dele nos cartazes!

Haja saúde!

O júbilo das artes

A Mirateca Arts colocou os Açores no mapa. Será a Vila da Madalena o palco que, de 19 a 30 de Junho, irá receber artistas de todos os cantos do planeta. Este foi um texto escrito acerca da iniciativa “Descobrir Açores”, que agora partilho com os “ouvintes” do Pavilhão Auricular:

E eis que se acabaram as brumas, levantaram-se as névoas; o céu lavou-se dos flocos de algodão flutuantes e floriu o desfiladeiro para uma passagem aberta. O vento bafeja agora a brisa profícua das mulheres e dos homens que trazem luz ao mundo: os criadores.

??Os olhares encaminham-se para o alto – para o azul-celeste – que acasala com a imaginação dos mestres da criatividade, parece não mais encerrar fronteiras. Os músicos, compositores e maestros da orquestra do infinito interrompem o concerto para ouvir com clareza o som da anunciação da novidade, e os pintores de aguarelas cristalinas levantam as barbas do pincel e sentem as pupilas dos olhos dilatarem para o que há muito esperavam: a luz! Os escultores dão descanso à solda, ao escopro, ao suor, e sentem o calor da descoberta nas peles arrepiadas. Os escritores, os autores e os poetas pousam o lápis no papel, afundam a pena na tinta e saem à rua, ao descampado: querem compreender o acontecimento. O segundo acto não chega a ser terceiro, pois o palco do teatro vê-se desprovido dos actores, actrizes, encenadores e figurantes que atravessam a plateia em direcção ao lado de fora, à multidão. Os desenhistas e desenhadores, arquitectos, ilustres ilustradores ilustrativos deixam os traçados da cartolina e os ecrãs de computador ermos, desamparados, abandonados, e juntam-se à folia da revolução. Os mestres da fotografia e da imagem retratada abdicam do estúdio para se aliar ao júbilo do talento e convidam os cineastas, argumentistas e realizadores da sétima arte a assistir a um filme totalmente diferente, a uma epopeia da criação. O relojoeiro, o artesão e o costureiro abandonam as modas e caminham de braço dado. As televisões emitem zero, as rádios cospem estática, a internet parou, estacou, congelou. Estão todos à espera. Do quê?

Do anúncio. Da notícia que espalha que este é o primeiro dia! Não apenas um dia soalheiro e quente, tão quente como o amor que os criadores derramam no seu trabalho, mas um dia em que essa faina vai finalmente viajar, tomar os palcos do mundo, ver a luz, tornar-se luz! Sentem-se suspensos, leves, de rédeas soltas, e nem sequer o céu pode ser o limite. Nem sequer a luz imensa os pode cegar, porque é de luz e de palmas que eles vivem.

Agora estão preparados: hoje receberam um voto de confiança, uma consagração reconfortante, um repto estimulante. Sabem que o dia de amanhã será diferente, que irá trazer boas colheitas. Pois, se antes viviam de costas voltadas uns para os outros, por desconhecimento ou afastamento, pelo mar que separa os nove ilhéus, pela inoportunidade que vingou ou pelas inconstantes marés revoltas, agora podem encher o peito de ar! E podem soprá-lo aos velames dos seus batéis e transformá-los em caravelas, em naus de guerra. Mas de uma guerra saudável, de uma batalha legítima: a luta pelo conhecimento.

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Mas o que é o conhecimento, o saber, a genialidade de um povo? Não está na sua cultura, nos seus hábitos, nas suas representações? Nas suas artes? Não é o talento que lidera, não é a inspiração do artista que inspira a ciência e o progresso? Não é o palhaço triste que nos faz sentir homens e mulheres humildes? Não é a música que tanto nos faz vibrar e sonhar como chorar? Não é nos livros que está a nossa e a vossa sabedoria? Não é a dança dos cisnes que nos faz voar? Não é o desenho ilusório e o quadro que nos impressiona e nos faz pensar, duvidar? Não são os pensadores que dão origem às ideias? Não é desse pensamento que provêm soluções? Então, o que aconteceu? Porque demorastes tanto tempo a chegar a essa conclusão?

Pois bem. Então, digo-vos: pensar é criar, imaginar é conceber, mostrar é existir. E é apenas isso que os criadores almejam: mostrar. Sempre o quiseram. Os artistas açorianos sempre desejaram desvendar o seu lado primoroso. Agora podem, entre si – e para si. Por isso mesmo, vamos descobrir, vamos descortinar os dons das ilhas. E ao povo declamam: obtende os nossos livros, discos e bilhetes de espectáculo; bradai bem alto e em bom som, profetizai as nossas telas, fotografias e desenhos; enaltecei aqueles que só pedem as vossas palmas!! E nunca, mas nunca esqueçais: um povo sem cultura simplesmente não existe.

Eis que o pano sobe, ouvem-se as palmas, a ovação de pé, o público ao rubro com as emoções da criação. Vão agora desvendar, finalmente perceberam. Vão Descobrir Açores no Fringe Festival!

in Jornal Terra Nostra, 14 de Junho de 2013
in Jornal Mundo Lusíada (Brasil), 17 de Junho de 2013

Temos sinopse

Caras leitoras e leitores, é com enorme satisfação que divulgo a sinopse daquela que está para ser a minha segunda “aventura” na literatura, desejando que venha a ser igualmente emocionante para vós.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAComeça assim mais um “capítulo” do meu ainda curto e modesto percurso pelas letras, que tanto serve para entreter como para partilhar conhecimento, mas fazendo-o sempre com o amor incondicional a estas ilhas “açorenhas”.

Não tenciono criar desacordos, apenas lançar temas. Este é um tema que me interessa e sei que também a muitas outras pessoas. Daqui a uns anos, não vai fazer diferença nenhuma quem, afinal, descobriu os Açores. Não importará quem passou por cá primeiro, quem nos desenhou no mapa, quem olhou e gritou “terra”. Deveras importante será o povo que seremos — e somos: cheio de História e de estórias para contar.

Cresci muito com a escrita deste texto e com as pessoas que se mantêm ao meu lado. Agrada-me perceber que são cada vez mais. Os leitores também podem partilhar desta viagem, basta permitirem que a imaginação vos guie.